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Jeff Buckley – You and I 4.0

Jeff Buckley – You and I

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Só um amor assim justifica a delícia do encontro com You and I, a mais recente edição de Jeff Buckley, o autor que, em vida, apenas publicou dois registos

Há poucos intérpretes como Jeff Buckley

São raros estes casos de amor. Uma espécie de amor à primeira audição, um amor para sempre. E, porventura, só um amor como este permite continuar a receber de braços abertos reviravoltas num baú que, há muito, parece ter dado os seus mais produtivos resultados. Só um amor assim justifica a delícia do encontro com You and I, a mais recente edição de Jeff Buckley, o autor que, em vida, apenas publicou dois registos (um EP ao vivo e essa magnífica obra-prima que é Grace) mas que, depois da sua morte, há quase duas décadas, já chegou aos escaparates por quase uma dezena de vezes. Porém, a satisfação no final de You and I, a vontade de voltar ao início e recomeçar a viagem – essa satisfação deve- se a muito mais do que o tal amor. Por mais incondicional que seja.

Há (havia?) em Jeff Buckley algo de James Dean – um rebelde sem causa, um artista torturado (o legado de Tim Buckley ia pouco além do apelido, marcado pela ausência da figura paterna e pela sua morte prematura), uma espécie de cápsula artística que continha, em si, uma verdadeira tradição. Viril, estava em total contacto com uma vulnerabilidade que sempre expressou na forma hipnotizante como disparava, delicadamente, palavras sem género ou espaço. O conforto da sua voz, a gentileza com que tornava a guitarra numa continuação da sua alma tornava-o único. Para se tornar inesquecível, não precisava de mais ninguém: com as suas palavras ou as dos outros, conseguia ser memorável e emocionante. E não há melhor prova do que este You and I.
Folk, blues, funk, pop, rock. Dylan, Zeppelin, Smiths, Sly Stone. Das 10 canções, oito são versões (e poucos antes ou depois de Jeff Buckley conseguiram tornar tão suas as frases dos outros), às quais se acrescenta o primeiro esqueleto de “Grace” e uma demo do que viríamos a conhecer como “You and I”. Na verdade, tudo, neste disco, são maquetas, registadas em 1993, pouco depois de Buckley assinar contrato com a Sony e quando todos procuravam encontrar o caminho certo para esta pedra preciosa. Por lapidar. São três dias de estúdio, agora trazidos à luz.
You and I traz algo de novo? Não. Traz alguma surpresa? Também não. Mas momentos incríveis como estes, sentir que Buckley, por uns minutos, ainda não entrou no afluente do Mississippi rumo a um final tão trágico quanto algumas das suas interpretações, dá um conforto imenso. Há amores assim – mas há poucos intérpretes como Jeff Buckley foi. Por isso, celebre-se a sua (limitada) obra e imagine-se o tanto que ele podia ter feito. You and I acabou de chegar ao fim – vou voltar ao início.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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