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Kings of Leon

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WALLS

 

O sucesso pode ser uma coisa tramada – quem tenha dúvidas de tal afirmação, basta olhar para o percurso dos Kings of Leon. A história do quarteto tem todos os ingredientes de um épico de literatura, o que acaba por oferecer um cariz de maior normalidade à grandiosidade que teimam em trazer à sua música. O álbum #7 não é diferente.

Regresse-se às origens: os quatro Followill, três irmãos e um primo, cresceram no sul dos Estados Unidos, inspirados pelos ritmos quentes dos blues e do rock do Mississippi ao mesmo tempo que se confrontavam com a religião imposta pelo pai pastor. Crescem, revoltam-se e formam uma banda, à qual trazem – de forma brilhante – todas essas premissas: uma sonoridade ao mesmo tempo refrescante e retro, um novo olhar a estilos de sempre mas com a juventude expressa, até, no título do seu registo de estreia: Youth & Young Manhood. Vivia-se, então, em 2003 e o garage-rock com sabor a country dos KoL faz com que sejam considerados uma espécie de Strokes. Na altura, era o elogio máximo que se podia fazer a uma banda.

Porém, o sucesso acabou por se meter no caminho: a aclamação torna-se cada vez maior, culminando, em 2008, com Only By The Night, um álbum congestionado de grandes hinos de estádio, singles do mais orelhudo possível e um estranho desconforto que apelou às massas. A partir daqui, os KoL parecem ter ficado perdidos: os consumos tornaram-se cada vez devastadores, as lutas no interior da banda também e foi preciso passar por casamentos, desintoxicações e dois discos que se tornaram verdadeiros tiros ao lado (não na totalidade mas no seu todo) para se chegar a WALLS.

A capa deixa, de imediato, algumas pistas: quatro rostos que parecem dos elementos da grupo mas que, ao mesmo tempo, são manequins. O próprio título parece ser um acrónimo para We Are Like Love Songs – e é precisamente canções de amor aquilo que WALLS contém: pensadas em grandes coros, dignas de encher qualquer estádio em qualquer parte do mundo, de passarem vezes infindáveis nas maiores rádios do planeta. Com a produção certeira de Marcus Dravs (habituado a lidar com outro tipo de sonoridade majestosa, dos Arcade Fire a Florence + The Machine), uma certeza atravessa este disco: os KoL são uma pura banda rock, no sentido em que fazem hinos perto da obesidade mórbida apenas com o essencial: plena dinâmica rítmica, em casamento perfeito entre o baixo e a guitarra, com grandes riffs de guitarra e voz – porventura, o definitivo elemento que distingue o colectivo. É em Caleb Followill que todas as atenções se prendem: na sua convicção despenteada e viril que não o impede de explorar falsettos e apresentar inseguranças, medos e vulnerabilidade. Tudo isto é WALLS: já não são os rapazes rebeldes dos primeiros álbuns porque se tornaram homens confiantes, daqueles que não temem fazer as canções que querem fazer – só porque sim; pode haver refrães imensos mas também há perseguições como no final de “Find Me” ou “Eyes On You”; há espaço para experimentar outras influências (como a abordagem latina de “Muchacho”) ou para regressar às grandes baladas (como o final do disco, com a canção que lhe dá nome). No seu todo, WALLS é um disco que se cola à pele, através do qual, ao fim de algumas audições, é natural trautear as suas palavras – isso é sinal de obras contundentes. É um regresso às origens? Um disco que vai mudar a vida de toda uma geração? Não – mas não é isso que lhe tira qualidade. É um conjunto de canções que funciona enquanto todo e que merece o que é pedido no seu primeiro single, “Waste A Moment” – “Take the time to waste a moment”. Não se vão arrepender.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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