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Green Day – Revolution Radio

Green Day – Revolution Radio
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Revolution Radio

 

“My name is Billie and I’m freaking out” – é assim que arranca “Forever Now”, perto do final de Revolution Radio. A frase é sintomática: não sendo um álbum conceptual, o registo #12 do trio reflecte sobre a sociedade onde está imerso mas também nas dificuldades que passadas, em termos individuais, nos quatro anos que passados longe do estúdio. “Forever Now” é, igualmente, uma aproximação à euforia ópera-rock que marcou alguma das história dos Green Day: uma canção com mais de 6 minutos, parte de um alinhamento onde as restantes 11 são “despachadas” e disparadas em pouco mais de 37. São estas contas, quase regra de três simples, a primeira evidência de que este é um álbum de puro punk-rock. Há mais, porém.

“Bang Bang”, o primeiro single retirado de Revolution Radio, é, igualmente, o momento mais agressivo de todo o disco – e será, provavelmente, a grande declaração de intenções dos Green Day, uma forma de mostrar que podem ter passado trinta anos desde o arranque de actividades mas a fúria que os fez nascer não acalmou. Aquilo que conseguiram, ao longo dessas três décadas, é, no mínimo, impressionante: tornaram-se verdadeiras estrelas pop (no sentido lato do conceito e não do estilo), levando o seu punk-rock às massas, vendendo mais de 75 milhões de discos em todo o mundo, sendo premiados com 5 Grammys e encenando um dos seus álbuns num musical da Broadway (que lhes valeu dois Tonys). Tornaram-se, no fundo, lendas: a cada década, foram tatuando a sua influência, quer com o magnífico Dookie, de 1994, quer com o brilhante American Idiot, precisamente dez anos mais tarde. Até que, inconscientemente, os Green Day se viram numa encruzilhada: 21st Century Breakdown levou mais longe a encenação de American Idiot e, em 2012, no espaço de poucos meses, editaram a trilogia ¡Uno! ¡Dos! ¡Tré!. Parecia que algo faltava no foco dos Green Day: até que a “vida” lhes pregou a suprema partida – e viram-se forçados a desaparecer da estrada, quando os problemas de dependência de Billie Joe Armstrong o obrigaram a entrar em desintoxicação. Até que chegam a 2016 – e a este Revolution Radio.

Há diversos pontos convergentes com o passado dos Green Day, espalhados por todo o disco: das movimentações acústicas de “Somewhere Now” ou “Ordinary World) – a trazerem “Good Riddance”, por exemplo à memória – às considerações políticas da América que faz parte do seu pano de fundo (à semelhança de American Idiot, Revolution Radio é editado em plena campanha presidencial e os temores de um candidato como Donald Trump marcam, por exemplo, “Troubled Times”). Também as dificuldades sociais assumem relevo, quer seja a lembrança de Armstrong ter abandonado o seu carro para se juntar a uma manifestação do movimento Black Lives Matter, em Nova Iorque (retratado na canção que baptiza o álbum) quer na abordagem às lutas vividas em Ferguson, depois de mais uma luta com as forças policiais (em “Say Goodbye”).

Revolution Radio é Green Day em formato-clássico: baterias furiosas, riffs tão orelhudos quanto os seus refrães, uma fúria que em tempos foi juvenil mas que foi crescendo sem perder a vontade de colocar o dedo na ferida e fazer a diferença. Não tendo um conceito implícito, não deixa de ser um álbum conceptual – ao retratar, precisamente, aquilo que é o princípio que fez nascer, crescer e viver os Green Day. Não é um disco que vá conquistar novos fãs mas é um disco que vai agradar aos fãs de sempre. Porque, finalmente, os Green Day parecem estar, uma vez mais, a divertir-se – e isso é do mais punk-rock que se pode esperar no século XXI.

 

 

 

 

 

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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