Home Discos Nick Cave – Skeleton Tree

Nick Cave – Skeleton Tree

Nick Cave – Skeleton Tree
0

Skeleton Tree, o 16º álbum de Nick Cave & The Bad Seeds, é o disco que nunca devia ter sido escrito e é o disco que nunca devia ter sido ouvido. Porém, é uma obra prima.

É cruel escutar e viver as canções que transbordam do sucessor de Push The Sky Away, o registo de 2013 que trouxe a Cave o seu maior sucesso comercial de sempre. É cruel porque é impossível sentir estas canções sem tirar ilações sobre o acontecimento que lhes deu origem – mesmo quando, de forma pragmática, se analisa a linha temporal e se compreende que boa parte desta obra nasceu antes do “trauma” de que Cave fala em One More Time With Feeling, o documentário realizado por Andrew Dominik que antecedeu a edição de Skeleton Tree. É ainda cruel porque, à luz de todos os acontecimentos, este é um disco que se quer aplaudir à partida, numa espécie de comoção empática. É o próprio Cave quem confessa não compreender porque é que as pessoas o olham, agora, com pena – e pena, admita-se, não é a emoção habitual que acompanha um álbum do australiano. Claro que Skeleton Tree é, ainda, cruel pela forma despojada, crua e directa com que se abordam as temáticas da morte, da mortalidade, da decadência da vida, do abandono e da saudade – elementos, desde sempre, presentes na impressão digital do australiano mas que, aqui, assumem uma realidade desarmante e em jeito de verdadeiro murro no estômago. É também  cruel porque o seu aplauso carrega uma sensação de culpa: será que, sem tudo o que o aconteceu, Skeleton Tree seria aclamado da mesma forma? Será que, qual experiência de voyeurismo, esta aclamação é, simplesmente, o tal olhar de pena que Cave desperta actualmente? Ouvem-se estas oito canções, repete-se a sua audição, apreendem-se os contornos tortuosos destas palavras e o (des)encontro entre a voz e a melodia, abraçam-se os excertos orquestrais e respiram-se as imperfeições. Subitamente, compreende-se que, em vários aspectos, esta é, provavelmente, a obra prima de Cave: o disco onde, sem muito revelar, mais se despe em frente aos nossos ouvidos; onde, ao rejeitar a tentativa de encontrar a frase perfeita, mais se torna humano; onde, ao procurar lidar com uma dor incomensurável, mais encontra uma liberdade dolorosa, sim, mas repleta de uma esperança improvável. Sendo um dos seus discos mais escuros, é, inegavelmente, um dos que maior luz transporta nas entrelinhas.

Em 2015, quando o trabalho à volta de Skeleton Tree já ia a meio e quando Cave tinha acabado de editar mais um livro, Arthur Cave, um dos filhos gémeos do cantor com a sua mulher, Susan Bick, morreu, depois de cair de um penhasco de 18 metros, em Brighton, perto da casa onde a família vive, em Inglaterra. Ninguém quer mudar, confessa Cave em One More Time With Feeling, mas desse dia de Julho para a frente, o australiano nunca mais seria o mesmo. Não se sabe, agora, quais destas canções já existiam antes desse acontecimento avassalador mas todas as palavras aqui são proferidas encontram reflexo na morte – do arranque, em “Jesus Alone”, com “you fell from the sky and crash landed in a field”, ao ponto final, com “Skeleton Tree”, “and it’s all right”.  O homem que admite temer perder a sua “voz”, como se fosse possível deixar de ter a relevância actual face à deterioração do tempo, apresenta, no seu 16º álbum com os Bad Seeds uma narrativa que não o é, partilhando uma parte de um diário que não existe – porque nada disto é verdadeiramente real ao mesmo tempo que é brutalmente honesto. Em momento algum a dor que sente está explícita nestas canções mas está subliminar aos coros desarmantes, ao piano que interpreta de forma delicada, aos sussurros que dão lugar a expressões que, outrora, seriam reflectidos em gritos de braços abertos. São, agora, gritos sufocados. As palavras, pela primeira vez, não são perfeitas – e é isso que as aproxima da perfeição. As reviravoltas melódicas nem sempre fazem sentido mas é isso que as faz desembarcar perto da perfeição. As harmonias não são trabalhadas à exaustão, antes sendo conduzidas por um turbilhão de emoções – e também é isso que as faz transpirar de perfeição.

Skeleton Tree é um álbum (quase) perfeito. Não é o álbum que Cave queria escrever nem é o álbum que alguém queria ouvir. Todavia, nunca a obra de Cave conteve tamanha redenção. Sendo um disco sobre morte, a luz do amor, de certa forma, sobrepõe-se à escuridão: e este aplauso não tem um pingo de pena ou compaixão. É, simplesmente isso, um aplauso.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

LEAVE YOUR COMMENT