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Wild Beasts

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Boy King

 

Sem qualquer audição, pegue-se em alguns dos títulos das canções de Boy King – e até do próprio álbum – e compreenda-se, rapidamente, o conceito que está por trás do quinto registo dos Wild Beasts: o ser homem no século XXI. “Big Cat”, “Tough Guy”, “Alpha Female”, “He The Colossus”, “Eat Your Heart Out Adonis”. Ou citem-se algumas letras: “Now I’m all fucked up and I can’t stand up so I better suck it up like a tough guy would”. A condição masculina, no olhar do quarteto britânico, tem algo de tóxico, representada de jeito satírico, malicioso, repleto de armadilhas e expectativas.

Mas escute-se, com atenção, Boy King. Compreenda-se a influência da produção de John Congleton, que acaba por dar às guitarras indie dos Wild Beasts uma contenção electrónica mais profunda, com ritmos mais densos e dominantes. O mesmo lado sexual das letras é transformado em riffs circulares e transgressivos – ou não tivesse sido a própria banda a afirmar que, onde Present Tense, o incrível registo anterior dos Wild Beasts, era sobre o amor, Boy King é sobre sexo.

Neste olhar, os homens são joguetes nas mãos do domínio feminino – não deixam de ser predadores mas aceitam a função de presa. As próprias canções parecem desenhar essa corrida (como no persecutório “Alpha Female”). O perigo está dentro de cada uma das personagens mas, ao invés da fuga, a tomada de posição é desafiante. Por isso, as canções são sinceras mas também maliciosas e os falsetes trazem o lado angelical que deixa desvendar uma agressividade jocosa, irónica e subliminar.

Boy King é transgressão em estado puro: na sua mensagem, sim, mas também nas suas melodias e desenhos sonoros. Na electrónica que, afinal, é conduzida pelas guitarras; no seu (aparentemente) suave groove que domina com mão forte; nos brilhos dos sintetizadores que se transformam em paisagens escuras e opressoras. Porém, Boy King não é o sucessor que se esperava para Present Tense. Ainda que a delicadeza fantasmagórica de “Dreamliner”, já no final da viagem, lembre o encanto do álbum de 2014, as subtilezas de então aqui parecem gritantes parangonas. Se em “Wanderlust” – porventura uma das melhores canções dos últimos anos –, os Wild Beasts afirmavam “don’t confuse me with someone who gives a fuck”, a verdade é que, em Boy King eles parecem, efectivamente, importar-se. Talvez demais. E o músculo do seu quinto álbum acaba por passar para segundo plano o lado etéreo de Present Tense. O corpo substitui o cérebro – mas a imaginação traz muito mais possibilidades do que o toque. Não sendo um tiro ao lado, Boy King deixa um travo a insatisfação. Porque os Wild Beasts podem ser muito mais animais e muito mais violentos. Basta querer.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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