Home M DE MÚSICA JP Simões: “Talvez haja algo de padre em mim”.

JP Simões: “Talvez haja algo de padre em mim”.

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Não fosse um concerto de John Lurie na Aula Magna e é possível que JP Simões nunca tivesse subido a um palco. Mais de duas décadas depois, é difícil imaginar as suas orações sem ser em formato canção.

Em 2018, JP Simões foi um dos compositores convidados a participar no Festival da Canção – e o resultado de “Alvoroço” é uma espécie de paradigma para todo o seu percurso. Depois de ter sido eliminada logo na primeira exposição, a canção havia de ser distinguida como Melhor Tema de Música Popular, pela SPA. Faz sentido: este é o homem que sempre gostou de música mas que nunca pensou fazer dela profissão.

Nasceu em Coimbra e chegou a viver no Brasil mas foi, novamente, na cidade dos estudantes que descobriu a sua paixão pela música do país irmão, mais especificamente, pela bossa nova e pela obra de nomes como Caetano Veloso mas, sobretudo, Chico Buarque. Sonha ser escritor, nas longas horas que passa nos cafés conimbricenses, até porque a música – e a guitarra – servia, apenas, como objecto de prazer e motivo de reunião de amigos. Descobre-se, no entanto, demasiado tímido para ser jornalista – ironicamente, porém, é no palco, depois de convidado para se juntar aos Pop Dell’Arte, que vence a timidez e compreende que a música podia ser mais do que um deleite. Podia ser uma “profissão”.

Cria os Belle Chase Hotel e segue para os Quinteto Tati antes de usar o ano do seu nascimento para se aventurar a solo, em 2007, com 1970. Como JP Simões, havia de editar mais três álbuns – até sentir que o português se tinha tornado demasiado pesado e a sua veia bossa-novista estava esgotada. Mergulha, então, no universo dos blues e cria uma nova persona, com a qual assina Tremble Like A Flower. Bloom não é, apenas, o seu alter-ego, é o seu regresso a casa. Seja isso o que for, no imaginário de JP Simões – o homem que estudou Comunicação mas também árabe, que escreveu para teatro mas também concebeu para televisão, que edita em livro mas também faz uma perninha no cinema. Não se considera um cantautor mas assume-se um canastrão quando se vê no grande ecrã. Pelo menos, até ter dado vida ao padre que levou Eusébio ao futebol. Talvez esse momento assinalasse uma espécie de encontro kármico: JP Simões pode não ser padre mas as suas canções tornaram-se verdadeiras orações.

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