Home Entrevista Teresa Salgueiro: “Um acaso muito feliz”.  

Teresa Salgueiro: “Um acaso muito feliz”.  

Teresa Salgueiro: “Um acaso muito feliz”.  
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Estar no sítio certo na hora certa: os Peste & Sida celebraram o Gingão mas foi a vida de Teresa Salgueiro que mudou naquele bar lisboeta, no Bairro Alto. Durante duas décadas interpretou as canções dos Madredeus e cresceu a viajar pelo mundo mas foi em nome próprio que descobriu uma nova voz – a sua.

 

Quando, em 2007, foi anunciada a sua saída dos Madredeus, Teresa Salgueiro tinha uma certeza – não ia desistir de fazer música. Tinha passado duas décadas a dar a cara (e a voz) às canções de um dos mais bem sucedidos projectos portugueses de todos os tempos. Aventurou-se ainda menina mas, chamando “casa” ao mundo inteiro, tinha crescido. Porém, só em 2012 é que se apresentou em toda a sua plenitude: O Mistério é o primeiro álbum em que canta as suas próprias canções. Em O Horizonte, o registo que publicou em 2016, regressa às primeiras palavras que musicou – este percurso único pode ter começado como um acaso mas não foi por acaso. Era o seu destino.

 

Quando se fala de Teresa Salgueiro, é habitual começar a narrativa recordando uma “audição espontânea”, algures no Gingão, no Bairro Alto, perante dois dos fundadores de uma das mais míticas bandas portuguesas. Porém, o início não se deu, exactamente, aí. Na verdade, tudo começou em casa, no seio de uma família que não tinha ligação formal à música mas onde a música estava sempre presente. Foi na discografia dos pais que descobriu dois discos que lhe mudaram a vida: Busto, de Amália Rodrigues, e Cantigas do Maio, de Zeca Afonso. Daí, ganhou o prazer de cantar, normalmente, para os amigos. À distância, pode parecer inusitado mas chegou a fazer parte de um projecto de rock sinfónico, os Amenti. “Essa banda era sempre a mesma canção. Ouviram-me e convidaram-me para tocar com eles – mas era uma diversão, não foi uma coisa que seguisse. Até porque tocávamos sempre o mesmo tema. Não sei se eles, depois, prosseguiram…”, recorda Teresa.

Viviam-se os anos 1980 e o Bairro Alto é o local de eleição para as noites passadas com amigos. “As minhas saídas já tinham muito a ver com esse gosto pelo canto. Saía, íamos ao Gingão, íamos ao Sr António, andávamos ali naquelas tasquinhas, conversávamos, andávamos pelas ruas…  Normalmente, íamos jantar e, a seguir, eu cantava. Começou a ser uma tradição e, para mim, as saídas à noite, prendiam-se com esse gosto que eu começava a desenvolver – sempre tive – de cantar, mas já com algum público. Normalmente, fazia-se silêncio, quando eu cantava, as pessoas aplaudiam, pediam mais, e era esse ritual que comecei a acarinhar”. Foi numa dessas saídas que tudo mudaria.

Nessa altura, alguns “veteranos” do rock português preparavam um novo colectivo: depois de criar os Faíscas ou os Heróis do Mar, Pedro Ayres Magalhães unia forças com o teclista dos Sétima Legião, Rodrigo Leão, e com Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro para criar um projecto ao qual faltava, ainda, uma voz. Estava-se em 1986 e Rodrigo e Gabriel também tinham o Gingão no seu roteiro. ”Tive a felicidade de dar-se esse acaso: quando eles entraram no Gingão, uma amiga com quem eu saía muito disse-me “canta, agora, Teresa, canta agora”. Eu cantei e eles fizeram-me o convite para a audição. Esse foi, realmente, o momento que mudou completamente a minha vida”. Para a audição, Teresa deu vida a algumas das canções que os quatro músico já tinham composto. “Já havia três: “A Sombra”, “Cantiga do Canto” e “Fado do Mindelo”, acho que eram estas. Fiquei rendida porque as coisas que eu cantava eram muito portuguesas e, quando fui fazer a audição, fiquei… era uma música… Aquilo que me aconteceu penso que aconteceu a muita gente que nos escutou e nos acarinhou logo no início: era uma música completamente nova mas, ao mesmo tempo, muito familiar, mesmo portuguesa, ia mesmo ao encontro da minha sensibilidade”. Teresa tinha 17 anos e já tinha passado por aulas de piano e de flauta mas “cantava para os meus amigos, nunca pensando que a minha profissão viria a ser a música”. Ensaiavam no Teatro Ibérico, situado no mesmo bairro que havia de baptizar o grupo: Madredeus. Também foi aí que gravaram o seu registo de estreia, Os Dias da Madredeus, de 1988. “Foi um acaso muito feliz e, a partir de determinada altura, passou a ser uma escolha – uma escolha que durou muitos anos”.

Teresa Salgueiro permanece como a voz e a musa inspiradora das canções dos Madredeus durante duas décadas. Ao longo da viagem, a menina torna-se mulher e mãe, “com momentos de muita alegria, de muito entusiasmo. Com momentos de muitas dúvidas, também de muita solidão. Era mesmo uma miúda quando comecei: sou filha única, nunca tinha saído de Portugal…” Pode parecer que tudo foi imediato mas Teresa apressa-se a esclarecer. “Não foi de um dia para o outro que começámos a viajar pelo mundo – as coisas foram graduais mas, realmente, a minha vida transformou-se por completo e a adaptação a tudo isso foi muito desafiante”. O imaginário glamoroso da vida na estrada nem sempre encontra reflexo na realidade. “Nas viagens, os meus momentos eram mais sozinhos: eles saíam depois dos concertos, eu não saía, ficava no hotel, tinha que me resguardar, os concertos eram muito seguidos… Foi uma aprendizagem e é difícil falar de tudo mas, acima de tudo, foi uma aprendizagem muito profunda. Foi um grande privilégio poder viajar pelo mundo, conhecer outras culturas, ganhar essa perspectiva sobre a nossa existência e a diversidade da nossa sensibilidade enquanto seres humanos”. O sucesso dos Madredeus espraiou-se pelo mundo inteiro mas começou em Portugal. “Tivemos a sorte de ter o entusiasmo, aqui em Portugal, inicialmente, do público e da crítica. A partir do terceiro álbum [O Espírito da Paz, de 1994], todos os discos dos Madredeus eram editados em 32 países: ainda apanhámos um momento da indústria [discográfica] que já não existe. Por outro lado, não apanhámos o momento da comunicação que existe agora, das redes sociais – isso não havia no tempo dos Madredeus. Hoje, seria mais fácil comunicar o que andámos a fazer do que era na altura”. Mas o que é que se aprende, afinal, com uma viagem com esta dimensão? “Aprendi muita coisa mas aquilo que ficou e que permanece é um grande amor pela música e um grande sentido da responsabilidade que é fazer música, que é viver da música e que é, neste caso, aquilo que depois passei a fazer: criar o meu próprio repertório, entusiasmar uma equipa de pessoas, entre músicos e técnicos, e criar uma música que passa a ser a vida deste grupo de pessoas. Aprendi muito sobre muita coisa e sobre mim mesma e aprendi que tenho muito que aprender. Ou seja, continuamos sempre: o mundo está sempre em aberto”.

 

“O Horizonte”, o álbum que editou em 2016 e que marca o seu segundo registo como autora, rouba o título às primeiras palavras que musicou. Arranca com uma frase que, ao mesmo tempo, parece um manifesto de carreira e uma confissão: “Aqui me entrego, entre a terra e o céu, cumpro, cantando, um destino que é meu”. “Não acredito propriamente no destino – também temos escolhas e temos livre arbítrio e decidimos. Mas temos escolhas sobre oportunidades que nos aparecem. O acaso – ou a sorte, digamos assim – também se constrói pelo caminho que vamos escolhendo e pelas escolhas que vamos fazendo. Se calhar, com outros caminhos, surgem outras. Mas sim, acho que o acaso – ou a sorte, prefiro dizer – e as escolhas, são muito importantes”.

Em 2007, duas décadas depois, a vida de Teresa volta a mudar completamente: em paralelo aos Madredeus, já tinha editado dois álbuns, Obrigado, de 2005, onde colabora com Mário Laginha, António Chainho ou Caetano Veloso, entre outros, e Você e Eu, onde se deixa embrenhar pelo cancioneiro popular brasileiro. Porém, Faluas do Tejo, de 2005, tornar-se-ia o último registo dos Madredeus a contar com a sua participação – em Novembro de 2007 é anunciada a sua saída. “A minha decisão, quando saí, era não desistir da música – a minha ideia era continuar”. Porém, o que fez não foi uma continuação do passado: Teresa sempre tinha escrito os seus textos, mantido os seus diários de viagem e as suas notas mas guardava-as para si, sem mostrar a ninguém. “Por um lado, o que me faltava, seguramente, era tempo: tempo para pensar, para entrar em contacto com essa realidade em mim, essa capacidade que descobri que tinha, para escrever canções, para escrever música. Faltava-me tempo porque a vida dos Madredeus era muito intensa – a todos os níveis. Era muito intensa em termos de actividade de concertos, que implica muitas viagens e muitos ensaios e muitas entrevistas. Os discos saíam em 32 países e não tocávamos em todos mas, em muitos, cada disco que saía representava horas e horas de entrevistas. Era uma actividade que me ocupava… Por outro lado, quando entrei, era uma miúda, não sentia que tivesse essa capacidade. Sou tímida e havia uma série de coisas que se conjugaram para que isto não acontecesse. No fundo, eu estava dentro de uma estrutura que funcionava e na qual eu tinha um determinado papel e esse papel satisfazia-me”. Agora, queria algo diferente.

 

Enquanto parte do Lusitânia Ensemble, publica La Serena, no final de 2007, e Matriz, em 2008, mas o seu primeiro álbum em nome próprio só chegaria em 2012. “Tive a sorte de conhecer algumas pessoas: uma delas ainda está comigo, o Rui Lobato [produtor de O Mistério e de O Horizonte]. Ele, sim, desafiou-me para fazer parte de um grupo de composição. Eu fui, curiosa, para ver como seria e correu muito bem: nasceu, imediatamente, na sala de ensaios, um tema que é o primeiro tema d’O Mistério, que se chama “A Batalha” – é uma espécie de um recitativo, que introduz todo o disco. Começou a correr muito bem e percebi que tinha ideias e fui desenvolvendo essas capacidades”. Em O Mistério, Teresa Salgueiro não é apenas a compositora das canções: também assina a produção e a direcção musical. “Não quis desistir: continuei a fazer música, entrei em contacto com uma série de linguagens completamente diferentes. Estive em Itália com um quarteto de cordas, com quem fiz um projecto de música napolitana e portuguesa… Fiz muitas coisas mas sempre com este fito: a minha ideia era, finalmente, encontrar a minha própria voz e desenvolver esta capacidade que começou, lentamente, a desabrochar”. Nesta nova realidade, surge a novidade da ter a sua voz associada à bateria mas também um reencontro com o passado, na presença do acordeão, um dos instrumentos que marcou a génese dos Madredeus. “É interessante: a percussão é o primeiro instrumento, é o primeiro som, e liga-nos muito à terra, [onde] podemos ir buscar vozes mais ancestrais, por assim dizer. [Já] O acordeão foi uma procura: queria construir um som e pensei no acordeão, um instrumento português, ao qual já tinha estado ligada desde o início, nos primeiros anos e na formação da qual mais gosto dos Madredeus (sem desprimor para todos os músicos que estiveram depois!), em termos acústicos, sonoros. É um instrumento muito português, ao qual estava próxima – as pessoas conheciam a minha voz associada a esse instrumento, que tem possibilidades extraordinárias, tem uma quantidade de sons e de registos muito interessante”. A vontade de experimentar com os sons é uma das marcas de O Horizonte, onde Teresa traz à luz o quotidiano díspar dos ruídos do trânsito ou do tic-tac de um relógio. “Queria fazer um disco onde houvesse um percurso: os temas estão encadeados, há uma história que, de certa forma, se conta. É a história de um caminho que se faz em direcção aos nossos sonhos e esse caminho é na rua, é ao ar livre, em pleno contacto com o mundo que nos cerca, seja o mundo urbano seja a natureza. Achei que era interessante ir procurar alguns sons que pudessem introduzir de imediato, antes mesmo da música começar, o ambiente que se vai anunciar, que trouxesse uma outra dimensão. Por outro lado, [queria] fazer também uma outra ligação, quase como se fosse um filme, como se fosse a banda sonora de um filme, de alguma coisa em movimento constante”.

O frenesim da vida diária pode marcar presença em O Horizonte mas os dois discos de Teresa Salgueiro nasceram do isolamento no Convento da Arrábida. “Trabalhamos muito à base de retiros. Em O Horizonte, foi um retiro de composição mas acabámos por não gravar; [para] O Mistério foi um retiro de gravação e ainda de escrita porque muitas letras foram escritas quando já estávamos a gravar o disco. Esse retiro é importante e essa palavra é precisa: retiramo-nos desse buliço da vida quotidiana, de tudo o que nos possa preocupar e alhear a nossa atenção da música. É preciso silêncio para que as ideias venham – e é preciso tempo. São dois factores fundamentais: sentirmos que não temos pressa, que não temos que ir dali para lado nenhum, que ninguém vai estar à nossa espera, podermos estar realmente focados, tanto para fazer a música quanto depois, para escrever…”. Para Teresa, compor é um acto ainda mais isolado, já que a música nasce “sabendo que vai servir a palavra, que vai procurar e suportar as palavras. Enquanto estou a fazer a música, já sei sobre aquilo que quero escrever. Depois, é muito curioso: quando parto para esse processo da escrita das palavras, elas vão aparecendo e, muitas vezes, vão-me surpreendo; geralmente, consigo perseguir a ideia inicial mas claro que, depois, se enriquece. O português é uma língua belíssima e é um prazer estar naquele processo de procura de palavras, de sinónimos, do sons das palavras e do seu sentido profundo”.

 

Passaram três décadas de aventuras, de viagens, de aprendizagem e de experiência – mas o olhar de Teresa Salgueiro continua a revelar novos sonhos e desejos por novas conquistas. O Mistério, em 2012, chegou aos escaparates em edição de autor mas acabou editado em mais de uma dezena de territórios. E, se O Horizonte é uma espécie de caminho rumo à eterna capacidade de sonhar, a esperança é, também, um conceito sempre presente. É, aliás, o título de uma das canções desse disco. “Tenho a esperança, sempre. A esperança que este disco consiga chegar tão longe quanto chegou O Mistério – ou talvez mais longe ainda. Que toque o maior número de pessoas possível e que nos proporcione uma viagem, enquanto músicos, que nos continue a proporcionar a alegria do facto de fazermos música juntos e de levarmos essa alegria a muitas culturas diferentes – e aqui em Portugal, obviamente”. A música está cravada na alma de Teresa Salgueiro mas não é, apenas, a sua vida – é também a sua essência. “A música faz-se e regista-se para que possa ser apresentada – porque o grande prazer da música é tocá-la ao vivo. Aqueles momentos que são irrepetíveis, de contacto com o público. O crescimento que a música tem a partir do momento em que se começa a tocá-la ao vivo, em cima de um palco, é extraordinário… O meu horizonte é esse: a esperança de continuar a fazer música”.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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