Home Entrevista Deolinda: “Sempre com uma enorme pica para fazer mais música”.

Deolinda: “Sempre com uma enorme pica para fazer mais música”.

Deolinda: “Sempre com uma enorme pica para fazer mais música”.
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“Portugal é isto” – a Deolinda é Portugal e é Portugal aquilo que a Deolinda tem levado aos quatro cantos do mundo. Mesmo quando sai da sua janela no subúrbio de Lisboa e se deixa embalar por ritmos de outras paisagens. Uma década de viagens e de música depois, a sua essência continua a mesma. A sua morada também.

Deolinda pode ser nome de quarteto mas tornou-se uma espécie de figura porta-voz das mais particulares características do que é ser português. Fá-lo nas letras, claro, mas também nas melodias, na influência do fado que, da mesma forma que não traz a guitarra portuguesa, pisca o olho aos ritmos que marcaram a diáspora nacional. Mas são as palavras – misto de confissão com denúncia – que tornaram a Deolinda uma das mais interessantes personagens da música portuguesa actual. “Se é para acontecer, pois que seja agora” – que, de parva, a Deolinda não tem nada.

13 de Maio de 2006

Perante um grupo de família e amigos, a Deolinda fazia a sua primeira aparição pública – no entanto, os quatro Deolinda eram, eles próprios, um grupo de família e amigos. Ana Bacalhau é casada com José Pedro Leitão e prima dos irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins. Também não eram novatos nas lides da música: Ana e José Pedro tinham partilhado os Lupanar e os irmãos Pedro e Luís já tocavam juntos. Da família para a família, a Deolinda foi, também ela, tornando-se uma família. “Aquilo que fomos sentindo é que o espectro de amigos e de família foi-se alargando e de uma forma muito natural. Também começámos de uma forma muito natural: de forma mais natural não existe – o facto de sermos irmãos e primos e companheiros… Acho que isso ajudou a diferenciar um pouco a parte artística, a marcar a diferença. Depois, com a estrada, com os anos, muita gente se foi juntando e sentimos que a Deolinda já é uma equipa muito grande”, explica Pedro.
Na altura, ensaiavam num restaurante de família (nem podia ser de outra maneira!) mas ainda o primeiro disco não tinha sido editado e já estavam a colocar em polvorosa o clube lisboeta Maxime, em 2007. Ao mesmo tempo que o público conhecia a Deolinda, também os quatro músicos iam descobrindo os meandros de um feitio… único. “Acho que começámos, timidamente, a ser apresentados [à Deolinda] logo no início, com as primeiras canções. Começou-se a revelar um pouco uma personalidade, no feminino, [que] contava as histórias nessa perspectiva. Pouco a pouco, fomos conhecendo os recantos à casa e à personalidade e, agora, já é figura importantíssima nesta questão da família da Deolinda”, recorda Luís.
Editado em 2008, Canção ao Lado, com instantes como “Movimento Perpétuo Associativo”, deixava evidente algo que já se suspeitava: a Deolinda podia estar à janela, a ver a vida dos outros passar, mas tinha uma opinião muito própria sobre tudo aquilo a que assistia. “Mas é fofinha, ao mesmo tempo”, confessa José Pedro. “A Deolinda tem uma personalidade que pode ser espelhada na personalidade de uma pessoa real e, como uma pessoa real, passa por vários estados de humor, ao longo da vida e ao longo do dia. Também consegue ser encarnada por várias pessoas e as histórias conseguem preencher a via de pessoas tão diferentes”.

21 de Novembro de 2011

Canção Ao Lado catapulta os Deolinda para o sucesso: em 2009, recebem o Globo de Ouro para Revelação Nacional. Sendo tipicamente portuguesa, porém, a Deolinda que canta a tristeza rindo, e apelando ao imaginário do fado, deixa, ao mesmo tempo, uma sensação de desconcerto – nomeadamente porque não tinha guitarra portuguesa. “Difícil de encaixar, não é?”, concorda Ana. “O nosso ADN é música popular portuguesa. Mas também é contar histórias – olhar para nós e para quem nos rodeia e estarmos atentos aos pequenos pormenores do dia a dia que, por vezes, escapam à poesia e à canção”. Ao expressar um percurso com o qual é fácil as pessoas se identificarem – oiça-se, por exemplo, “Movimento Perpétuo Associativo” ou “Que Parva Que Eu Sou” –, nunca deixando de ser uma menina traquina, a Deolinda carrega uma certa melancolia tipicamente portuguesa. “Queríamos dar uma voz a esses pequenos pormenores que, por vezes, ficam por cantar e que são muito nossos – aquelas pequenas idiossincrasias, aquelas coisas muito, muito, nossas. Juntamente com essas histórias [queríamos] juntar-lhes o tal ADN musical português: Portugal é isto, Portugal é uma coisa nossa mas que também é virada para o mundo e que absorve influências do mundo. Portanto, lá está: tanto absorvemos influências do fado e da música tradicional portuguesa como está lá a pop e outros géneros que também são influências nossas. A nossa portugalidade é uma portugalidade voltada para o mundo. Se nos perguntarem, dizemos que é música popular portuguesa mas isso é um mundo também. Particularizar mais do que isto não conseguimos – a Deolinda é assim, é um mistério”, conclui a vocalista.
Dois Selos e Um Carimbo, publicado em 2010, leva os Deolinda a outros patamares: chega a Disco de Platina e a sua viagem é celebrada nos Coliseus do Porto e Lisboa, em quatro noites para mais tarde recordar – no CD/DVD Deolinda no Coliseu dos Recreios, que chegou às lojas em Novembro de 2011. Pelo meio, haviam de vencer o Prémio José Afonso – no caminho, apresentam o tal “Que Parva Que Eu Sou” que, inesperadamente, se torna um hino geracional. A Deolinda do subúrbio tinha-se tornado uma espécie de personalidade política a nível nacional. O que a tornou, claro, apetecível para utilizações, também elas, políticas. Será que as canções dos Deolinda já foram usadas para… “Oh, já sabemos – mesmo antes de terminares. Campanhas?”, interrompe Ana. “Eles usam – não pedem”, esclarece Pedro. “Porque sabem que não íamos deixar – por isso, nem sequer pedem. Depois, temos o caricato de estarmos em casa (como já aconteceu!) e ouvirmos, de um lado, um carro de uma força política de esquerda a tocar uma música nossa e, do outro lado, um carro de uma força política de direita a tocar uma música nossa. Quase que se encontram”, conta Ana. “Em colisão”, completa Pedro. “Em colisão e nós… OK… Mas não: nós nunca demos autorização. Que fique expresso isto”, conclui Ana.

18 de Março de 2013

Com Canção ao Lado e Dois Selos e um Carimbo, os quatro Deolinda vêem a sua música sair das fronteiras do território português – e, ao fazê-lo, compreendem que a sua obra podia reflectir, precisamente, uma nova dimensão. Por isso, em Março de 2013, o seu terceiro disco é editado com o título Mundo Pequenino. As histórias continuavam lá mas a roupa que a Deolinda começa a vestir mudou: é aqui que assumem uma vontade cada vez maior de experimentar e de contaminar a sua música com todas as observações que tinham acumulado. Partilham a cadeira da produção com o veterano britânico Jerry Boys, que trabalhara com nomes como Rolling Stones ou Beatles ou Buena Vista Social Club, nos meandros do mítico estúdio londrino Abbey Road. Segundo Pedro, “esse álbum, de certa forma, foi uma continuidade daquilo que já fazíamos e que fazia adivinhar esse passo. Naturalmente, quando foi feito, a Deolinda já tinha passado por muito, já tinha viajado bastante, já tinha dado concertos um pouco por todo o lado e esse olhar, naturalmente, e essa experiência ficaram evidentes. Esse álbum, de todos, é o que tem mais essa componente da viagem, o reconhecimento de que o mundo é pequeno, ao fim ao cabo. E essa ideia só surge, mesmo, viajando – foi aquilo que aconteceu”.
Porém, o supremo périplo só seria revelado em 2016, quando expõem Outras Histórias – que pode servir de sinónimo a “histórias diferentes”. Porque é, de facto, de diferença que se fala: se, no disco que esteve para se chamar “Outra Desgraça”, surgem as colaborações de Manel Cruz e os arranjos de Filipe Melo, ao lado das aventuras nas ruas nacionais emerge, por exemplo, o funaná, com Riot [dos Buraka Som Sistema]. “Faz também parte do percurso natural do projecto. Sempre dissemos, desde o início, que as canções é que pedem o registo que acabam por ter”, arranca Luís. “Neste Outras Histórias, é claro que o trabalho que o Riot fez para “A Velha e o DJ” é marcadamente diferente mas, de certa forma – não diria que se adivinhava –, é um passo natural. É um cruzamento de personalidades musicais que, embora aparentemente possam não ser assim tão familiares, partilham uma série de características: crescemos na mesma zona, ouvimos as mesmas músicas, de certa forma, agimos sobre a pop e a contemporaneidade com olhares diferentes mas com a mesma vontade exploratória e a mesma vontade de agir com gestos empenhados. Nisso, temos o mesmo tipo de abordagem. As canções pedem e essa canção não podia ser de outra forma: se fosse, não traria esse peso da novidade e da graça”.
Improvável seria, também, num projecto que começou com a ideia de ser portátil, a colaboração com a Sinfonietta de Lisboa. “Acho que essa premissa inicial de ser portátil se foi perdendo ao longo do tempo, um bocadinho – até no Mundo Pequenino isso já começa a acontecer”, esclarece José Pedro. “Foi a primeira tour em que começámos a ter sempre o Sérgio Nascimento a tocar bateria. Hoje em dia, já temos um cenário um pouco mais elaborado em palco, já temos o Sérgio a tocar bateria, até já temos um roadie… Por isso, essa portabilidade inicial perdeu-se um bocadinho mas perdeu-se porque as experiências que fomos tendo levaram a que, além de nós os quatro, conseguíssemos ver espaço nas músicas para outras contribuições musicais – como com a Sinfonietta, que foi, talvez, o extremo. [Mas] Que também veio de um concerto que fizemos com a Orquestra Metropolitana [de Lisboa, em Junho de 2013, no Centro Cultural de Belém] em que percebemos “porque não Deolinda com uma orquestra ou com cordas mais elaboradas do que um quarteto?””.

28 de Janeiro de 2017

Que imensa a jornada que a Deolinda fez desde aquela tertúlia familiar em 2006 – o que é caso para perguntar: o que é que fica destas viagens. Segundo Ana, ficam “bastantes malas – malas cheias de música, de canções, de recordações importantes por sítios por onde passámos com os quais sonhávamos. Eram aqueles sonhos que nós achávamos que… Nós tínhamos confiança no projecto mas é sempre um sonho longínquo – só que depois acabaram por acontecer. [Guardamos] Muita experiência, muitos palcos, muitas amizades feitas também com a música, através da música, uma experiência acumulada mas sempre com uma enorme pica para tocar e para fazer mais música”. E é música que os Deolinda voltam a fazer quando decidem regressar ao local onde foram (muito) felizes: Outras Histórias encontra encenação nos Coliseus de Lisboa e Porto, respectivamente a 28 de Janeiro e 4 de Fevereiro. Também aqui, porém, as coisas mudaram na Deolinda. “Ainda há muita coisa que falta definir mas são datas muito importantes e os espaços, só por si, exigem um trabalho diferente do habitual”, assume Pedro. “Uma das diferenças de há 10 anos para cá é que nos primeiros Coliseus começámos a preparar aquilo uns dois meses antes!”, confessa Ana.
Apenas a essência da Deolinda se mantém fiel aquilo que sempre foi: a Deolinda continua a viver sozinha, no subúrbio, com os seus dois gatos, um peixe e um melro. “Acho que sim, vejo-a no subúrbio. Se calhar com algumas alterações”, considera Luís. “Todos mudamos, todos mudámos ao longo de dez anos – a vida também é feita dessas coisas. A Deolinda mudou, de certeza. Mas vejo-a no subúrbio, ali na Damaia, no rés do chão… Talvez tenha dado uma pintura à casa”. Será que a Deolinda conseguiu aquilo que todos procuram? “Anda feliz, acho que anda animada”, sorri Luís – e, com ele, sorri a própria Deolinda. Se é para acontecer, de facto, que seja agora.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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