Home Entrevista Marta Ren: “Não podia estar mais orgulhosa com o disco que tenho” 

Marta Ren: “Não podia estar mais orgulhosa com o disco que tenho” 

Marta Ren: “Não podia estar mais orgulhosa com o disco que tenho” 
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Bastou um álbum para surgir uma certeza: Portugal tem uma “soul sister”. Chama-se Marta Ren e apresentou, em 2016, Stop, Look, Listen.

 

Do funk à soul, bebe nas raízes dessa imensa árvore que é a música negra e nada, na sua obra, foi deixado ao acaso. Com Stop, Look, Listen, Portugal tornou-se demasiado pequeno para esta “grande” menina, a mesma que admite não saber como reagir quando os aplausos chegam dos quatro cantos do mundo. Porém, este caminho começou há mais de 20 anos e Marta Ren não podia estar mais orgulhosa.

 

Stop, Look, Listen, publicado em 2016, pode ser o primeiro álbum de Marta Ren – mas, para contar esta história, é preciso viajar até 1996. Ou talvez um pouco antes, quando a pequena Marta pegava em qualquer objecto que se assemelhasse a um microfone e se colocava em frente ao espelho. Fazia as suas “performances” às escondidas dos pais, “não queria que entrassem na sala”, mas, suspeita, já sabia o que queria fazer para o resto da sua vida. Por isso, de forma natural, com 13 anos, forma a sua primeira banda: um colectivo inteiramente feminino onde tocava guitarra. “Tive que ter um bocadinho de coragem para assumir, “olha, eu quero ser cantora e quero cantar”. Mas, a partir do momento em que assumi, perdi a vergonha” – e nunca mais parou.

Nessa altura, podia ter o punk e o rock no horizonte mas, quando alinha nos Sloppy Joe, o ska e o dub tornam-se os reis da sua voz. É, precisamente, com os autores de Flic Flac Circus, o álbum de 2004, que salta para o olhar do grande público – e é também nos Sloppy Joe que começa a sentir o chamamento por essa imensa árvore que é a música negra. “O ramo é que é diferente. Fui saltando de ramo e agora estou noutro: acho que vou sempre estar na árvore da música negra”. Depois da aventura dos Sloppy Joe, há-de alinhar nos Bombazines e, nos Funkalicious, onde o cenário é estabelecido com clássicos de James Brown ou Aretha Franklin. Pelo meio, colabora, ainda, com nomes tão distintos quanto Mão Morta, Dealema ou Expensive Soul. Todas as pistas pareciam apontar na mesma direcção mas Marta havia, ainda, de ter uma epifania. “Foi em 2008: nessa altura, já andava a consumir muito soul clássico e muito funk e vi que a Marva Whitney [a cantora que respondia por “Soul Sister#1”, alcunha dada por James Brown] ia ao Jazz Cafe”. Foi a Londres de propósito. “Fiquei… Disse “it’s my thing”, fiquei maravilhada com aquele concerto e tive a sorte de conseguir vê-la porque, no ano seguinte, ou dois anos depois, fez a sua passagem. Foi um concerto muito especial, [em que ] eu disse “é por aqui que quero ir””.

 

Dizem que escolheu o funk e a soul como forma de expressão mas, na verdade, Marta Ren é que parece ter sido escolhida. Em Stop, Look, Listen, “fui eu que escolhi o funk e a soul clássicos. Como gosto, como ouvinte de música de soul e de funk, foram eles que me escolheram a mim”, esclarece. As primeiras evidências desta “escolha” surgiram em 2013, quando se senta, à guitarra, e compõe as suas primeiras canções em nome próprio: “Summer’s Gone e “2 Kinds of Men”. Habituada aos mergulhos feitos em bandas, pela primeira vez, está “sozinha”. “Foi uma necessidade, ao mesmo tempo, mas, [para] dar o passo, é preciso ter alguma coragem. Nas bandas, a responsabilidade é dividida. Quando tens um projecto a solo tens que assumir a responsabilidade – quer para o bom quer para o mau – sozinha. Quando as coisas correm bem é muito bom mas quando as coisas correm mal não é assim tão bom – mas cá estou”. Em disco e em palco, porém, Marta Ren surge sempre acompanhada pelos seus Groovelvets. “Sempre gostei da ideia de banda porque gosto da ideia de brainstorming, podermos todos contribuir para a mesma causa, para o mesmo objectivo e, aí, eu preciso de uma banda – sempre. Até pelo factor orgânico: eu preciso sempre de ter músicos e instrumentos, a tocar comigo. Uma banda orgânica”.

O seu primeiro registo, Stop, Look, Listen, não tem apenas um estilo retro – também toda a sua concepção foi feita respeitando os trâmites dos 60s e dos 70s.

“Foi todo gravado live – fora sopros, voz e alguns teclados. Foi todo feito em material analógico: microfones de fita, compressores analógicos”. Produzido por New Max no Uptown Studio, com os arranjos a encontrarem a assinatura dos próprios Groovelvets, o álbum só “não foi gravado directamente em fita porque não havia dinheiro para isso – é o objectivo para o segundo disco. Estamos em Portugal, a fita não é barata, tínhamos que mandar vir – nos Estados Unidos, por exemplo, isso já é uma coisa mais comum e é mais fácil de se conseguir”.

Pode parecer que é longo período que separa o nascimento das primeiras canções e a edição do álbum mas, como assume, todo o processo analógico foi demorado. “O disco foi misturado directamente na mesa: quando gravas digitalmente, se, no processo da mistura, começas a ficar cansada de uma música, se já não tens noção se as guitarras estão altas, se os teclados estão baixos, abres outro projecto e começas a trabalhar noutra música; passados uns dias, vais pegar naquela – neste caso, era impossível! Não podes fazer isso. Por mais que tires fotografias aos botões da mesa, nunca vai ficar o mesmo som – tens que trabalhar a mesma música do início ao fim. É um processo mais demorado porque, às vezes, precisas mesmo de um dia ou dois sem ir trabalhar para teres os ouvidos mais limpos, para teres mais noção de como estão as coisas. Todo este processo orgânico e analógico é mais demorado mas, no final, eu não poderia estar mais orgulhosa com o disco que tenho”. O tempo deu às canções a oportunidade de assumirem uma personalidade mais vincada. “Foi bom porque, assim, não me precipitei: as músicas puderam crescer, amadurecer, pudemos mudar algumas coisas nas músicas, tocá-las ao vivo, ver coisas que funcionavam e que não funcionavam”.

Stop, Look, Listen é editado pela italiana Record Kicks, que deu ao registo distribuição mundial: na Austrália, por exemplo, é álbum da semana numa rádio em Sidney; nos Estados Unidos, entra em playlist na KCRW Los Angeles; em Inglaterra, conquista lugar no programa da BBC Radio 6, “The Craig Charles Funk & Soul Show”, onde “Release Me” acaba por ser incluído na compilação editada no final de 2016. É ainda referida no Blues Mobile, o programa radiofónico que o actor Dan Akroyd assina com o nome da sua personagem no filme The Blues Brothers (O Dueto da Corda), Elwood. Marta viu, nesta referência, uma oportunidade: “Depois de o Dan Akroyd ter passado a nossa música, várias vezes, no programa dele, falei com o dono da minha label e pedi-lhe para ele falar com ele, a pedir uma introdução gravada, para o meu concerto. “Estás maluca? Eu não o conheço o Dan Akroyd, ele descobriu-te, não fui eu quem lhe mandou as coisas”. “Está bem, o não é garantido, tenta” – ele tentou e, passada uma semana, eu tenho essa gravação. Nos meus concertos lá fora, quem me apresenta é a voz do Dan Akroyd”. Como é que reage a estas conquistas? Ou a ser comparada a vultos como Sharon Jones ou Aretha Franklin? “Não sei… É muito bom: é lógico que fico super orgulhosa mas é um bocadinho surreal… Ao mesmo tempo, não tenho bem noção – como não estou mesmo nos sítios, vou sabendo das coisas, tenho uma satisfação imediata e, a seguir, ponho-me a pensar “ok, quando é que vou ter ensaio? Temos que fazer arranjos novos, isto tem que ficar ainda mais “tight” do que está”. Passo um bocadinho à frente mas claro que fico orgulhosa, fico feliz, fico realizada”. A cada vez que pensa  “como é que isto está a acontecer?” lembra-se que “trabalhei para isto e o meu objectivo era um bocado este – mas tento não criar expectativas, para não me desiludir. Vejo estas coisas e fico sem acreditar. É de mim que estão a falar? Ok, aceito”.

Stop, Look, Listen tem corrido mundo – e Marta Ren tem corrido mundo com ele. Em França, por exemplo, encontrou cinco fãs que fizeram 300 kms não só para a verem actuar mas também para lhe pedirem um autografo. “Embora saiba que o meu disco é bom, que foi feito com perfeição, foi calculado, foi pensado, que amadureceu: embora tenha feito o disco com esse objectivo – de sair para a Europa e para o resto do mundo, de poder mostrar a minha música worldwide –, ainda me surpreendo quando vejo essas demonstrações de amor. Fico emocionada e fico surpreendida”.

Em Janeiro de 2017, o ponto de passagem é o festival Eurosonic, em Groening, mas, em 2016, já passara pelo Transmusicales, em Rennes – onde deu um dos seus mais inesquecíveis espectáculos. “Disse ao meu agente que podia marcar mais concertos daqueles: lá, às quartas-feiras, as escolas têm todo o tipo de actividades e, desta vez, levaram [300 crianças] a um clube, com luzes que faziam parecer que eram duas da manhã quando eram quatro da tarde. Tinham entre sete e 10 anos e foram curtir um concerto de funk e de soul, numa língua que não percebiam… Estava com medo: é o público mais honesto que existe – adoraram e eu também! Fiquei super feliz: vibraram com a música, bateram palmas, saltaram, ficaram todos contentes. No fim, tive uma avalanche deles a abraçarem-me. Foi maravilhoso, mesmo”.

Mesmo não tendo sido escrita por si, “I’m Not Your Regular Woman” é a canção interpretada por Marta Ren que melhor a define – o que explica também que pareça, verdadeiramente, nascida da sua pena. Marta não é uma mulher qualquer: sabe o que quer e como quer. Stop, Look, Listen não é excepção: “quero que as pessoas parem, quero que as pessoas olhem para os objectos e quero que as pessoas escutem, a seguir. Com muita atenção”. Seja feita a sua vontade.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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