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Noiserv: “As coisas são mais bonitas quando têm muitas leituras”.

Noiserv: “As coisas são mais bonitas quando têm muitas leituras”.
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Já lhe chamaram homem-orquestra e, na verdade, não há definição que lhe assente melhor: quer acompanhado por oito dezenas de instrumentos ou “apenas” pelo piano. Noiserv pode ser só um mas guarda uma imensidão de olhares.

 

Em 2016, Noiserv deu um genuíno mortal encarpado à retaguarda: colocou o “relógio” da sua arte a zeros e fez o convite para a viagem numa banda sonora de um filme que (ainda) não existe. O “seu” filme, porém, começou há mais de uma década e há três álbuns: de lá para cá, deu música aos últimos dias de José Saramago, foi premiado pela SPA e correu mundo com as suas canções – misto de aventura naïf e tremor existencial.

 

“Na altura, não havia internet, não havia os YouTubes e lembro-me que, na RTP2, ao fim de semana, dava um compacto de telediscos: os meus pais dizem que eu pedia para eles gravarem e ficava a ver aquilo em loop. Não se já era pela ideia de um dia ser músico ou não mas, de alguma forma, música e pessoas a tocarem dava-me alguma coisa que o resto não dava” – é assim que David Santos, aka Noiserv, recorda os seus primeiros contactos com a música. O fascínio da intensidade da interpretação, a relação de um artista, em palco, não só com a sua música mas também com a sua plateia: tudo isto, viveu na pele quando, com o pai, assistiu a um concerto dos U2 no estádio de Alvalade. Antes disso, porém, já se tinha deixado encantar pelo grunge dos Pearl Jam e pela voracidade da figura de um líder como Eddie Vedder. É, aliás, do primeiro álbum do grupo de Seattle que nasce o primeiro registo de David – num gravador que define como “manhoso”, recria “Black”, com uma prima. Tinha 13 anos. “Quando me deram a guitarra, aos 12/13 anos, quando tive a primeira banda, quando gravei essa tal versão do “Black” –  tudo isso eu não sabia porque é que era. Era porque aquilo me dava um gozo diferente das outras coisas mas não fazia ideia que, depois, mais para a frente, isto podia acontecer assim”. À distância, todos estes passos parecem pequenas pistas para o presente que agora conhece mas, confessa, na altura, nada disto lhe parecia evidente. “Acho que, quando estamos mais velhos, pensamos muito sobre as coisas todas: parece que tudo tem que ter uma justificação e chegamos a um sítio porque já estamos há uns anos a lutar para chegar lá. Acho que há uma altura, ao princípio, em que te perguntam o que queres ser quando fores grande e tu não sabes, “posso ser uma coisa qualquer”. Acho que, nessa altura, fui tendo sempre alguns “chamamentos” que a música podia ser alguma coisa de que eu gostasse mais à frente – embora não a interpretasse dessa forma”.

Fale-se, então, de paralelismos. Em paralelo à relação oficial com a Engenharia Electrotécnica, a música nunca deixou de ser a sua “amante”. Em paralelo à guitarra, compra uma bateria partilhada com alguns amigos. Em paralelo à frequência no Instituto Superior Técnico, vai passando por várias bandas, com colegas. Até que, um dia, escreveu “algumas músicas não se enquadravam dentro das que estávamos a fazer – porque eram só à guitarra e voz e parecia que uma bateria ou um baixo, ali, não iria encaixar”. Porque não gravá-las? “Comprei uma mesa de mistura digital pequenina, que permitia gravar, o disco saía logo” e, assim, sem grande plano, nasce 56010-92. “Na altura, havia os concursos de bandas: enviei essa maqueta, acabei por ir sendo seleccionado para alguns deles e as coisas foram avançando. Nunca questionei muito: “vou fazer uma coisa sozinho?””.

Corria o ano de 2005 e é com as três canções de 56010-92 que se inscreve no Festival Termómetro, onde sobe, pela primeira vez, a palco – em versão “one man band”. “Eram duas fases, a primeira [eliminatória] e a final”, recorda. “Perdi logo na primeira: fiquei em terceiro de quatro[lugares]. Se fosse ligar a essas pontuações, se calhar, não tinha feito [mais] nada. Mas aquela coisa que tinha desde pequeno, dos concertos, das pessoas a tocar – tive oportunidade de tocar para pessoas. Embora estivesse debaixo de uma tensão nervosa muito grande (porque era o primeiro concerto), aquilo deu qualquer coisa. O facto de, no final – independentemente da posição em que fiquei –, três ou quatro pessoas terem vindo falar comigo para dizerem que tinham gostado “muito das três músicas que tocaste” – aquilo motivou mais aquele miúdo pequenino que a música chamava sem perceber muito bem”.

 

Depois da Merzbau ter editado, em versão online, aquele EP, nasce o primeiro álbum. “Fiz aquela experiência sozinho e as coisas foram-se sucedendo. Claro que, em 2008, com o primeiro disco sozinho, percebi e encarei a coisa como “o projecto sozinho que eu tenho””. À estreia em formato longa-duração chama One Hundred Miles From Thoughtlessness, um disco que acaba por chegar às mãos de Miguel Gonçalves Mendes, que, preparava, na época, José e Pilar, a narrativa documental que acompanhava os últimos anos de vida de José Saramago e a sua convivência com a mulher, Pilar del Rio. O realizador entra em contacto com Noiserv “e perguntou se podia ir ver um concerto meu ao Maxime [em Lisboa], porque queria falar comigo. No fim, perguntou-me se, desse disco de 2008 – a conversa terá sido em 2009 –, podia usar duas ou três músicas que ele achava que encaixavam bem no filme”. A maioria das pessoas teria ficado arrebatada com o convite – mas David não é “a maioria das pessoas”. “Para mim, na altura, não é uma questão de vitória – foi um passo novo. Uma pessoa que ia fazer um filme, um filme que era importante – porque o Saramago era uma pessoa importante, não só para os portugueses mas para o mundo inteiro –, que era quase uma homenagem ao fim da vida… Aquilo ia ter um peso importante para qualquer artista”. Por isso, decide levar a proposta um pouco mais longe: “fui, com ele, ver uma versão do filme, com seis horas, na altura, e pensámos os dois “porque é que eu não fazia mais músicas para ali?””. Até então, Noiserv tinha cantado sempre em inglês mas, em José e Pilar, dá voz a “Palco do Tempo”, “que era em português porque era para o teaser do filme. As coisas foram-se sucedendo: é mais um marco, como todos os outros que vão acontecendo. São coisas que fazes e que já ninguém te tira. Quando consegues essas coisas para ti, vais crescendo sempre um bocadinho”.

 

No mesmo ano em que José e Pilar chega às salas de cinema, Noiserv regressa aos discos, com novo EP, A Day in the Day of the Days. A sua música – expectavelmente directa, intrinsecamente simples – ia, porém, tornando-se, cada vez, mais complexa. Até que nasce um novo álbum: editado em 2013, e considerado disco ano pela Sociedade Portuguesa de Autores, Almost Visible Orchestra é, em termos de construção, tão elaborado quanto os títulos das canções que contém. Com o acrónimo A.V.O., como forma de homenagem à avó de David, o registo torna mais real a ideia de uma pequena orquestra na figura de um só homem. Em momentos como “It’s Easy To Be A Marathoner Even If You Are A Carpenter” ou “It’s Useless To Think About Something Bad Without Something Good To Compare” ou ainda “I Was Trying To Sleep When Everyone Woke Up” surge uma imensidão de instrumentos, desdobrados entre guitarra, concertina, xilofone, teclados ou, até, pistolas de brincar. Tudo isto, somado, consegue chegar à utilização de 80 elementos numa só canção. “Isso vem de uma busca, ou de uma procura, constante de fazer melhor do que aquilo que fiz antes – não é que aquilo que eu faça melhor seja melhor do que aquilo que os outros fazem mas será, claramente, o melhor que consigo fazer naquela altura”, explica. “Essa busca por uma complexidade maior, por uma perfeição maior, para mim, em termos de arranjos – e vendo eu a perfeição de muitos arranjos ou de muitas coisas ao mesmo tempo e aquilo tudo ficar coordenado de uma forma positiva –, essa busca por chegar a esse ponto, mesmo sendo só um, foi sempre uma procura que fui tendo”. O álbum pode chamar-se Almost Visible Orchestra mas soa a uma orquestra concreta. “Chegando a esse disco de 2013, que em termos de complexidade era muito mais complexo do que o primeiro, aquilo soava quase a uma orquestra que não existia – era apenas uma pessoas mas estava lá quase. Esses instrumentos todos: se houvesse uma pessoa a tocar cada um deles, estariam 80 pessoas em palco. Seria uma orquestra”.

 

Everything Should Be Perfect Even if No One’s There, de 2014, pode colocar em perspectiva, em formato disco e DVD, o percurso de quase uma década – mas não é essa perspectiva que faz com, em 2016, o relógio de Noiserv tenha sido, literalmente, colocado a zeros. “Em Fevereiro de 2015, parti o pé a jogar basket e tive que ficar em casa, com gesso, durante 24 dias”, conta. “Além de uma guitarra, também tinha um piano: comecei a fazer uma série de experiências e surgiram uma série de pequenos rascunhos, de 20/30 segundos”. A cada um, deu um número, oito dos quais chamou para seu terceiro longa-duração, 00:00:00:00, um disco onde brinca com o silêncio da mesma forma que joga com os números. “Acho que gosto de brincar um bocado com as coisas todas. Os números e as letras são aquilo que, antes de ouvires, te dão alguma coisa – isto falando de músicas. Daí a importância os títulos têm e que a própria letra poderá ter. Mas, quando se fala em títulos de músicas, de títulos de discos, que é uma coisa que vês antes de ouvires as músicas, aquilo já tem que ser qualquer coisa antes da pessoa ouvir a música. A parte do silêncio, neste disco, ainda é mais especial: em músicas com 80 instrumentos, parece que não há espaço para o silêncio mas o piano tem muito mais isso – o piano respira muito mais (e melhor) se houver um silêncio que permita que oiças o princípio e o fim de uma nota. Acho que neste disco, em especial, ainda gostei mais de “desafiar” o silêncio e brincar com essa parte”.

A orquestra de outrora, em 2016, é substituída pelo figura solitária do piano. O inglês de outros tempos é substituído pelo uso do português – mas, apenas, em três das canções presentes em 00:00:00:00. Todas as outras são instrumentais, que servem como o ponto de partida para a banda-sonora de um filme que não existe. Por outro lado, todos estes zeros, em sucessão, podem, igualmente, deixar antever uma espécie de reset no percurso de Noiserv. “As coisas são mais bonitas quando têm muitas leituras. A leitura inicial foi essa: o timecode de uma câmara de filmar, que estaria nas zero horas, zero minutos, zero segundos e zero frames. Sendo aquilo a banda sonora de um filme que não existe, o título era apenas aquilo. Mas, a partir daí, porque há uma série de leituras diferentes – não só por ser apenas o piano, por ser em português, por muitas serem instrumentais, [por] aquilo realmente ser diferente do anterior, pode ter a leitura de ser o princípio de qualquer coisa. Não vejo obrigatoriamente como um princípio daqui para a frente mas vejo, apenas, como um momento que pode começar ali. Também há uma outra leitura: acho que é um disco que pode ser ouvido num sítio mais calmo e isso permite fazer a tal viagem, [um]a viagem [que] pode começar ali. O “00:00” também poderá ter essa leitura”. À primeira vista, 00:00:00:00 pode assemelhar-se a uma verdadeira reviravolta de 180º na sua música mas Noiserv não concorda. “Não acho que seja [uma mudança] assim tão drástica porque a pessoa é a mesma. Há canções que têm oito pianos (claro que não têm 80!) mas parte tudo de eu e as músicas, de eu ouvir as músicas milhares de vezes até chegarem a um ponto em que parece que os meus ouvidos estão totalmente preenchidos. Com o piano, esse preenchimento conseguiu-se com muito menos coisas do que nas músicas anteriores mas não obrigatoriamente porque quis fazer mais simples ou quis simplificar”.

 

Quando se olha para David enquanto Noiserv é quase tentador compará-lo a um Linus de carne e osso – e curiosamente, ele é um dos seis elementos dos You Can’t Win, Charlie Brown. Pode dizer-se viciado em trabalhar sozinho mas sabe que, para a sua música crescer plena de vida, precisa de muito mais pessoas. Daí, ter chegado a escrever que “alone, I can’t say goodbye”. “Mesmo tendo um projecto sozinho – todos os concertos, esta questão de tocar em Portugal, tocar fora, acontece sozinho, pelo menos, no palco –, tens que ter uma vida à tua volta, para que não sejas solitário. No meu caso, as músicas não surgiriam se não houvesse pessoas que me deixassem ser feliz: sozinho, seria muito mais infeliz. Se, neste mundo, não existisse ninguém, não estávamos cá a fazer nada. Isto é feito para ser vivido uns com os outros e essa música [“Don’t Say Hi If You Don’t Have Time For A Nice Goodbye”, de Almost Visible Orchestra] fala precisamente disso – de haver uma série de pessoas das quais te queres despedir. Despedir não é obrigatoriamente morrer: o despedir pode ser tu ires uma semana para um sítio e teres pessoas a quem gostes de dizer “já venho”. Vem dessa necessidade dessas pessoas poderem existir na minha vida para que eu não me sinta sozinho Acho que vem um pouco da ideia de “sempre sozinho mas nunca sozinho” – pelo menos na parte musical”.

Se a música de Noiserv acompanha muitas viagens, a sua viagem é acompanhada pela música de muitos outros, dos Radiohead a Jeff Buckley ou Explosions in the Sky. Porém, se fosse canção, parecia-lhe perfeita a ideia de ter sido “composto” pelos islandeses Sigur Rós. “As músicas deles têm aquilo que a nossa vida também devia ter: uma coisa que está sempre a crescer e que termina lá em cima. Uma das coisas mais tristes que a nossa vida tem é isso poder acontecer (ou não) mas o final não ser em grande. “Isto” não ser uma construção que termina lá em cima e, se calhar, nos últimos 5/10 anos, ser já um movimento mais decrescente. Como as músicas deles terminam lá em cima, se a nossa vida terminasse lá em cima, tudo seria mais feliz”. O caminho de Noiserv parece estar apenas a começar mas é tentador dar-lhe também o rumo de uma canção dos Sigur Rós. Que não restem dúvidas: o “Little Maestro” ainda mal pegou na sua batuta.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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