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Red Hot Chili Peppers – The Getaway

Red Hot Chili Peppers – The Getaway
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The Getaway

Mais de 30 anos de carreira, 11 álbuns de originais, entradas e saídas de guitarristas, milhões de discos vendidos, muitas t-shirts despidas – podia descrever-se assim a carreira dos Red Hot Chili Peppers. Também se podia falar que poucas vezes foi Los Angeles narrada como pela banda que apresentou uma nova forma de unir o funk, as explosões psicadélicas e o rap. Ou podia referir-se, ainda, que poucas colaborações entre colectivos e produtores eram tão semelhantes à relação do Manchester United e Alex Ferguson como a dos RHCP com Rick Rubin. Mas, como na Premier League, também aqui muita coisa mudou.

The Getaway: álbum #11 do quarteto, álbum #2 com a guitarra de Josh Klinghoffer, álbum #1 com Danger Mouse e Neil Godrich sentados no leme da cadeira da produção. Arrumem-se os números e traduza-se tudo isto para aquilo que importa – a música. Há muito tempo que os RHCP não surgiam com este entusiasmo (ainda que o frenesim seja, de forma meticulosa, contido, tornando-se, por isso mesmo, mais perigoso). Se, por um lado, há tradições que se mantêm (o baixo quente de Flea, os ritmos encadeados da bateria de Chad Smith, as palavras disparadas como setas de Anthony Kiedis), o quarteto parece (aos 50 anos) repleto de uma juventude e de uma vontade de inovar que, porventura, não se encontrava desde By The Way. Klinghoffer, ao invés de tentar calçar os (impossíveis) sapatinhos que John Frusciante usaria, encontra o seu devido espaço – em riffs redondos, subtis e doces. E, depois, claro, há a substituição de Rick Rubin (que produzia os álbuns dos RHCP desde o magnífico Blood Sugar Sex Magik, em 1991) pela dupla composta por Danger Mouse e Neil Godrich (o eterno sexto Radiohead). O resultado é um conjunto de canções onde as tempestades são caprichosas e titubeantes, onde os vários elementos se abraçam sem pudor, recriando um certo espírito punk inerente às origens do grupo mas sem perder a sensibilidade ganha com a idade.

E, por falar em idade, ainda que haja, em The Getaway, as recorrências temáticas do passado – a cidade que os viu nascer, as miúdas que os entusiasmam, o deboche que os faz pulsar –, estas são intercaladas com tomadas de consciência de vida e morte, de mudança. The Getaway é elegante, sensual, poderio rock e expressivo – tudo isto, ao mesmo tempo que veste uma capa de intimidade apelativa. The Getaway desafia os limites do tempo e torna-se um importante documento numa história que parecia ter quebrado a sua relevância. Que não restem dúvidas: os Red Hot Chili Peppers não estão prontos para assentar.

 

 

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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