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Radiohead – A Moon Shaped Pool

Radiohead – A Moon Shaped Pool
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“Numa aparente simplicidade, os Radiohead alcançam um lado luxuoso e requintado”

Há algo de verdadeiramente inquietante em A Moon Shaped Pool. Algo que desconcerta, que perturba, desconfortável. Como se estas canções oprimissem a um ponto de impedirem a respiração tranquila. Há uma escuridão pastoril que remete para uma ideia persecutória. Não é compreensível nem explicável. Sente-se. Apenas, Talvez seja isso mesmo que as melhores formas de arte devam provocar: inquietação.

A Moon Shaped Pool é um disco que precisa de ser descoberto. Que não pode (nem deve) ser engolido à primeira dentada. É uma digestão difícil, lenta, catártica. Teimosa. A ideia de beleza pode, igualmente, não ser imediata mas, além de ser um belo disco é um disco belo – e estas duas premissas nem sempre andam de mãos dadas.

Também para os Radiohead estas foram canções de compassado consumo – só isso pode explicar que se encontrem, aqui, obras “inacabadas” há quase duas décadas, outras visitadas em palco mas nunca transpostas para disco. São canções que precisavam de uma morosa e pormenorizada gestação. Do momento certo. E, eis senão quando, tudo pareceu alinhar-se: se em termos temáticos, será fácil (quase preguiçoso) encarar A Moon Shaped Pool como o álbum da separação de Thom Yorke (depois de uma relação de mais de 20 anos, ou seja, praticamente metade da sua vida, como também é referido), estas canções não existiriam se Jonny Greenwood não tivesse explorado um lado mais orquestral nas suas incursões pelos universos das bandas sonoras. São essas as duas coordenadas principais do álbum número 9 dos Radiohead.

De tanto terem tentado fazer tudo diferente – da “venda” de In Rainbows ao lançamento de The King of Limbs, por exemplo – quase se tornou fácil esquecer que os Radiohead são, antes de mais nada e acima de tudo, uma tremenda banda. De há uns anos para cá, pareciam tão determinados em fazer tudo ao contrário, que a música parecia ter passado para segundo plano. O sucesso parecia algo tão incómodo que optavam inverter tudo. Em 2016, parecem diferentes (a ponto de terem voltado a interpretar “Creep” em palco). A Moon Shaped Pool é a expressão máxima desse apaziguamento com o passado. Viajar pelo disco é uma espécie de reencontro com o universo de Kid A. Ainda que se tratem de dois momentos completamente distintos – onde em 2000 a surpresa era a abordagem mais minimal, em 2016, o que fascina é a forma siamesa como todos os elementos que são, verdadeiramente, fundamentais nos Radiohead estão em total harmonia. Em paz – com o tal passado mas, aparentemente, com eles próprios.

Talvez “Burn The Witch” seja o momento mais “óbvio” e orelhudo de A Moon Shaped Pool – não é, de longe, o melhor. Nem aquele com maior impacto. A perseguição de “Ful Stop” é brilhante, “Daydreaming” é uma caminhada por uma floresta (des)encantada, titubeante e brilhante. “The Numbers” é arrastado, na voz, na instrumentação, nos coros que surgem como se se tratassem de mensagens internas. “True Love Waits” é melancolia simples, traduzida de forma simples numa voz sôfrega e num dedilhar de teclas que mais parece um mergulho por águas “tranquilas”. “I’ll drown my beliefs, just don’t leave”, explica Yorke…

Em A Moon Shaped Pool, a angústia e a fúria são traduzidas em arranjos épicos, orquestrais. As guitarras contorcem-se como se fossem teclas de piano. As teclas assumem a imponência reconhecida às guitarras. Como se nada estivesse onde se esperava. Numa aparente simplicidade, os Radiohead alcançam um lado luxuoso e requintado. Parece ser um disco sobre o tempo: a sua passagem, a sua importância, a sua erosão, as suas consequências e, por isso, parece deixar, de forma subliminar, uma espécie de alerta de que, a qualquer momento, o pânico se pode instalar (“this is a panic attack”, anunciam na abertura), enfatizando esta imensa ideia de solidão. Tal nunca acontece: é espicaçado como se de um animal selvagem se tratasse mas são as mesmas canções que o provocam que lhe dão… paz.

A Moon Shaped Pool é um disco de inquietação. Mas que, quando se instala, é impossível deixar de lado. Demora mas merece.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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