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PJ Harvey – “The Hope Six Demolition Project”

PJ Harvey – “The Hope Six Demolition Project”
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PJ Harvey “The Hope Six Demolition Project”

O nono álbum de PJ Harvey é um disco de ambiguidades. Também pode ser desconcertante, inesperado e surpreendente. Mas, acima de tudo, é um disco de ambiguidades. Desconcerta porque, por aqui, traçam-se os caminhos de alguns dos piores momentos da realidade humana do século XXI. É inesperado porque a mulher que raramente fala da sua música, decidiu expor-se ao ponto de construir o álbum à frente de um público, que comprou bilhete e se dirigiu à Somerset House, em Londres, para descobrir como é que tudo “isto” acontece. É surpreendente porque é um álbum, sim, mas um álbum de fotografias tornadas canções, de poemas e textos aos quais foram impostas melodias. Por tudo isto, é, ainda, um disco de ambiguidades. Causa impacto sem ser impactante, revela poder sem ser poderoso, tem espírito rock sem respirar de guitarras eléctricas, é profundamente britânico, mesmo reflectindo sobre o mundo além de Inglaterra.

PJ Harvey chega a The Hope Six Demolition Projecto depois de ter arrecadado o seu segundo Mercury Prize com Let England Shake, um registo onde observava a sua terra natal na era da Primeira Grande Guerra, como se de uma historiadora se tratasse. Cinco anos depois, como refere em “The Orange Monkey”, apanhou um avião para uma terra estrangeira e escreveu sobre aquilo que encontrou. Viajou até ao Afeganistão, Kosovo e Washington, acompanhada do realizador Seamus Murphy – e, na viagem, de historiadora passou a misto de jornalista com cronista. É essa a narrativa encontrada no álbum – que rouba o título a um plano de desenvolvimento urbano americano, iniciado em 1992. Não tendo distanciamento histórico, não se encontram, por aqui, conclusões mas observações, onde raramente se deixam percepcionar opiniões. Quase como se as palavras fossem polaróides tornadas poemas…

Há política, miséria humana, guerra e pobreza: cenários temáticos aplicados a melodias que se deixam envolver em movimentos bluesy, em espíritos folk, em ambientes gospel e alma jazz. Não restem dúvidas que, se Let England Shake era, evientemente, um disco inglês, The Hope Six Demolition Project é um álbum de América. Só que é uma América diferente da retratada em Stories From The City, Stories From The Sea.

Por aqui, ao lado da sua voz, o destaque não vai – infelizmente! – para a sua guitarra (e que saudades de encontrar Polly Jean de guitarra em riste). É o saxofone o personagem secundário, sempre omnipresente. Por vezes, até, em grande destaque. Também se vislumbram imponências de coros, como que a reforçarem as histórias sinuosas que vão sendo retratadas – da mulher de “Chain of Keys” à criança de “Dollar Dollar”, à sociedade em geral em “The Community of Hope”.

The Hope Six Demolition Project não é o álbum que se esperava de PJ Harvey depois da intimidade caóstica de White Chalk ou da viagem de Let England Shake. Não é imediato, não é “in your face” – mas é um álbum que cresce. Um disco onde, a cada nova audição, se descobrem novos brilhos. Um disco que vai conquistando, da tapeçaria de arranjos à força da sua voz. “The Ministry of Defence” a “The Community of Hope”, passando por “Near The Memorials of Vietnam and Lincoln” ou “Medicinals”, há por aqui muito do que nos conquista em PJ Harvey. Talvez não seja aquilo que estávamos à espera – mas é, claramente, aquilo que ela queria fazer. Deixemo-nos guiar.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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