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M de Música @ Vodafone Paredes de Coura: dia 3

M de Música @ Vodafone Paredes de Coura: dia 3
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Ao terceiro dia, a Praia Fluvial do Taboão pode ter-se enchido de canções mas foi no silêncio que se construiu a noite.

Silêncio, que se vai falar de música. Que se vai ouvir música. Que se vai sentir música. Que se vai viver música. Silêncio, sim, esse conceito que é muito mais do que uma palavra mas um estado de alma. O dia #3 da 27ª edição do Vodafone Paredes de Coura, aquele que é descrito como “o habitat natural da música”, o Couraíso que é para a vida, encheu-se de silêncio, aquele que mora nas mais belas canções e que provoca as mais densas e inexplicáveis sensações. Um silêncio que só pode, mesmo, surgir na música.

Quando Josh Tillman subiu ao Palco Vodafone, pouco faltava para a uma da manhã, rapidamente se tornou claro que a multidão que enchia o anfiteatro natural do festival estava ali para celebrar a obra de Father John Misty, o homem que, há quatro anos, protagonizara um dos momentos da edição de então. Foi com Tillman que todos cantaram a plenos pulmões, que dançaram num misto de experimentação de dança contemporânea com swings de anca rockeira, que se deslumbraram com as palavras doces e as declarações de amor que têm tanto de onanismo quanto de inocência, tanto de sincero quanto de ironia. O público português já conhece bem Tillman e ele dá-lhes todo o seu respeito – mesmo que, assuma, tenha que pensar em algo mais interessante para perguntar do que “estão bem”. Estavam todos bem: desde a “verdadeira canção folk” que é “The Night Josh Tillman Came To Our Apt” ao solo em acústico que, afinal, não foi, com “Holy Shit”, da vertente mais pop de “Real Love Baby” ao auto-retrato de “Mr Tillman”. Rodeado por uma banda completa com um imponente trio de sopros, na Praia Fluvial do Taboão, Father John Misty banhou o público com canções competentes, habilidosas e eficazes. Não deixou a marca cravada na memória da primeira visita mas, por outro lado, não há amor como o primeiro, certo?

Porventura, um dos instantes mais inolvidáveis do concerto de Josh Tillman, no entanto, foi encontrado no silêncio da respiração de “I Love You, Honeybear”. Porque é quando tudo está bem no silêncio que tudo se torna ainda maior – que o diga Jason Pierce, esse maestro que se coloca de lado no Palco Vodafone para conduzir a incrível viagem dos Spiritualized, uma travessia que tanto vai às sementes dos blues quanto ao calor do r&b, que tanto salta para a imponência de um coro (quase) gospel (magnífico em “Soul on Fire”) quanto presta reverência ao mais genuíno rock’n’roll. Em Pierce, houve silêncio – da total ausência de contacto com o público à entrada subtil da melodia em “Shine A Light”. Provavelmente, em Paredes de Coura, não recebeu a atenção que merecia, queixa que os Deerhunter também podem partilhar. Talvez nem todos tenham compreendido o misto de explosão com introspecção expresso tanto em jams aceleradas quanto em instantes contemplativos, como em “Sailing”, quando, entre um trago num cigarro e uma declaração de intenções, Bradford Cox vai expondo a multiplicidade da sua essência. Das guitarras em ritmo frenético ao silêncio, assim se fez um concerto que também merecia muito mais.

Mas é nessa altura que surge a questão: será possível deixar em total silêncio um festival como o Vodafone Paredes de Coura? Antes do rock clássico que marcou a estreia em Portugal de Jonathan Wilson – que trouxe ao Minho a sua cartilha de Americana, as melodias que têm tanto do psicadélico quanto de devaneio rocker –, coube aos First Breath After Coma a responsabilidade de abrir o palco maior do terceiro dia de Paredes de Coura. Tocaram na hora mágica, aquela onde as pessoas estão, lentamente, a entrar no recinto, a deixar-se embrenhar pelo ambiente, a compreender a viagem agendada para mais uma noite. Sentam-se e deixam-se deslumbrar: e os leirienses, que aqui chegaram na apresentação de “NU”, deslumbraram. A maior parte dos relatos deste espectáculo falarão do convidado Noiserv – com quem a banda partilhou uma residência artística para o Festival Bons Sons – mas é de “I Don’t Want Nobody” que toda a gente deveria falar. Se, num dicionário ilustrado, fosse preciso representar “Couraíso”, este poderia ser o flagrante, aquela Polaroid onde músicos e público se tornam um só, uma entidade reunida pela música mas unida pelo silêncio que só se encontra numa outra dimensão. Privilegiados aqueles que o viveram.

Foto: Hugo Lima

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