Home M DE MÚSICA Camané: “Ao princípio, achei o fado muito esquisito”.

Camané: “Ao princípio, achei o fado muito esquisito”.

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Quando Camané assinou o seu primeiro contrato, foi deixando o aviso: “eu sou só isto”. Como se “só isto” fosse pouco.

 

Certo dia, Amália vai ao Teatro Politeama assistir a uma encenação de Filipe La Féria. Em Maldita Cocaína, o nome maior do fado de todos os tempos deixa-se encantar por um dos participantes: num ímpeto, Amália pega no telefone e entra em contacto com David Ferreira, então director da EMI, uma das grandes editoras nacionais. Falou-lhe de Camané, disse-lhe que o devia ver – e assim deixou a sua marca, para sempre, na história daquele a quem muitos chamam de príncipe de fado. Mas tudo isto tinha começado muito antes.

Não fosse uma maleita infantil, que o obrigou a ficar em casa durante um mês, talvez nunca tivesse descoberto a colecção de discos dos pais. É aí que descobre a obra de Carlos do Carmo mas também de Fernando Maurício, Alfredo Marceneiro e, claro, Amália. Primeiro, estranhou o fado mas, depois, como se de um verdadeiro destino se tratasse, o fado entranhou-se. Cantou em público pela primeira vez com apenas sete anos, participou em duas Grandes Noites do Fado e registou, nessa altura, os seus primeiros discos. Porém, é já adulto que torna vida a vida das casas de fados, onde acaba por começar a ser seguido por um público diferente daquele que, habitualmente, se deixava encantar por essa canção portuguesa. Depois do telefonema de Amália, grava o primeiro álbum para a EMI, Uma Noite de Fados, onde descobre no produtor, José Mário Branco, o seu grande parceiro desde então. Camané é fado mas Camané também é muito mais do que fado: o seu “só isto” já o levou a aventuras como os Humanos ou a hinos como “Para os Braços da Minha Mãe”, com Pedro Abrunhosa. Se dúvidas houvesse, na sua voz, tanto faz sentido a obra de David Bowie quanto as subtilezas geniais de Alfredo Marceneiro. Sim, Camané é “só isto” mas neste “só isto” cabe, por exemplo, um Globo de Ouro e um Prémio Blitz. A um dos seus discos, chamou Infinito Presente e é nesta dança de tempo que Camané se movimenta: entre a tradição e a actualidade, entre a história e o hoje. A sua voz, como o fado, não tem idade. É esse o verdadeiro “só isto” de Camané. Como se “só isto” fosse pouco.

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