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Filipe Catto: “Isso é Brasil”.

Filipe Catto: “Isso é Brasil”.
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Há um espaço onde o bolero e o samba se encontram como velhos amigos, onde as influências de PJ Harvey e as palavras de Caetano mais parecem irmãs. É um lugar de colaborações e vestido de rock sem cerimónia, onde a atracção vai para o improvável: como a voz de um contratenor. É assim Filipe Catto.

 

Confessa que, hoje, uma carreira na música faz-se com o contacto com os fãs, com a força da internet – há coerência nas afirmações de Filipe Catto, o intérprete que se deu a conhecer ao mundo com um EP, colocado online para download gratuito. Saga foi o seu cartão de visita e o seu pontapé de saída – com Fôlego tornou-se uma das mais incontornáveis figuras da nova MPB, pistas confirmadas em 2015, quando o seu segundo-longa duração, Tomada, viu a luz do dia. A sua vida confunde-se com a sua obra, aquilo que é enquanto intérprete mescla-se com aquilo que é enquanto apaixonado por música – independentemente do seu ritmo, género ou influência. Uma certeza apenas: Filipe Catto não quer parar.

 

De certa forma, Filipe Catto nasceu no palco e é impossível olhar para trás e encontrar um momento onde a música não tenha estado na sua vida. Filho de músico, afinal de contas, tinha apenas 11 anos quando começou a acompanhar o pai, em festas de formatura ou casamentos. “Era demais e, para mim, foi um grande treino”, recorda. “O meu pai foi sempre muito bom e tirou coisas muito boas de mim, naquela época – ensinou-me muito. Lembro-me de me ensinar que eu tinha de decorar letras, não podia subir ao palco com um papel na mão. Era muito louco porque eu tinha 11 anos e estava lá, a cantar num teatro. Eu nasci no palco: não tem jeito”. Porém, as melhores lições são aquelas que são vividas: como quando, numa cerimónia, Filipe se esquece de uma parte da letra do hino brasileiro. “Isso aconteceu só uma vez, eu juro por Deus”, confessa entre risos. “Foi uma branca que tive: já tinha cantado 50 mil vezes o hino, nesses eventos, mas houve um dia em que perdi… Não conseguia cantar e estava ali, naquela situação: foi um aprendizado imenso. Devia ter uns 12, 13 anos e dei-me conta que estava no palco – podia chorar ou, simplesmente, podia não cantar a parte que não sabia e cantar a parte que sabia. Num segundo, rolou esse aprendizado. Tu estás exposto e, ou consegues rir de ti mesmo, e aproveitas, ou vais ter um trauma imenso. Não virou um trauma: virou um dos maiores aprendizados da minha vida”.

Filipe Catto nasceu em Lajeado mas cresceu em Porto Alegre, também no estado do Rio Grande do Sul – foi aí que teve as suas primeiras bandas e onde acabou, igualmente, por estudar design, uma espécie de carreira alternativa que acabou por nunca o ser realmente. “Em Porto Alegre, a faculdade de música, na época, era muito voltada para a música erudita e como eu já estava numa trajectória, já trabalhava com música popular, já tinha bandas, já sabia para onde queria ir, sentia que aquele aprendizado de música erudita – por mais legal que seja –, naquele momento, ia prender-me. A música erudita pede muita dedicação e técnica para fazer e reproduzir aquelas obras, que são consagradas e que precisam desses intérpretes. Eu sempre fui cantor de música popular e gosto de música popular. Então, quando fui escolher, a faculdade de design foi um lugar que encontrei para explorar a minha criatividade: tinha aula de literatura, tinha aula de cinema, tinha aula de desenho e, principalmente, estava em contacto com pessoas muito criativas. Foi um acerto ir para a faculdade de design porque conheci muita gente que me ajudou muito, que me mostrou outras coisas. Aprendi Bauhaus, aprendi estética, aprendi cinema alemão…”. Para Filipe, a magia da música não se encerra na própria música. “Gosto de dizer que o que me inspira para compor, para criar música, não é só música. A arte é tão ou mais inspiradora na hora de conceber um trabalho do que qualquer outra coisa – ter referência e ter repertório é fundamental para qualquer artista”. Para se dar a conhecer, verdadeiramente, enquanto artista, no entanto, Filipe ainda queria fazer algo de suprema importância: viver.

Com 19 anos – e, como o próprio afirmou, uma mão à frente e a outra atrás –, muda-se para Nova Iorque. “Fui estudar: sempre estudei inglês, sempre fui muito interessado em viagem e queria ter a experiência de viver fora do país. Estava na faculdade e pensei que ou fazia aquilo agora, quando tinha esse tempo para gastar, para poder abandonar tudo e sair, ou, depois seria muito mais difícil”. É em Nova Iorque que Filipe aprofunda o brasileiro que tinha em si. “Foi incrível: Nova Iorque foi um período da minha vida inesquecível, não só por ter conhecido a cidade mas também porque foi lá que me conectei profundamente com a América Latina. Foi lá que me entendi como latino-americano de uma forma muito forte”, conclui.

 

Depois de um percurso feito em bares e teatros, em 2009, Filipe Catto apresenta o seu primeiro registo: no EP Saga, descobria-se, então, um novo contratenor brasileiro, alguém cujo timbre tanto pode ser comparado ao de Ney Matogrosso quanto ao de Jeff Buckley. Mas não era, somente, a sua voz que tornava Filipe uma pérola pronta a ser descoberta: no seu olhar, sinuosamente marcado pelo rock, encontravam-se devoções a clássicos, dos boleros de Dalva de Oliveira aos contornos do mais puro samba ou às maiores lendas da MPB. “Acho isso legal porque aprendi a gostar de música brasileira com os intérpretes. Quando era criança, em casa, ouvia Elis [Regina] , [Maria] Bethânia, Caetano [Veloso], são pessoas que, se olhares a sua trajectória, são completamente desvinculados de géneros. São artistas de música, são intérpretes de música. Dentro da discografia do Caetano, vais encontrar rock, vais encontrar samba, vais encontrar releituras de coisas antigas da canção popular, da canção latino-americana, da canção americana… Acho que isso é Brasil: Brasil é miscigenado e ser artista brasileiro, acima de tudo, dá-me uma carta branca, é libertador, qualquer coisa é possível”. Mas qual é, afinal, o berço de Filipe Catto? Que não restem dúvidas que todas as suas coordenadas levam ao mesmo lugar: o rock. “Quando era adolescente, aquelas eram as referências dos meus pais mas eu queria encontrar o meu som. Via muita televisão, passavam muitos videoclips, adorava ouvir Nirvana, adorava ouvir Hole; num programa da MTV – chamado “Lado B” –, descobri PJ Harvey, L7, essas coisas dos anos 90, que eu amava”. No entanto, é com uma figura brasileira que surge a definitiva epifania. “Foi com a MTV que descobri a Cássia Eller: adorava a Cássia porque ela era, para mim, aquela figura que trazia o rock, de que eu já gostava, mas que cantava Chico Buarque – ela trouxe-me isso. Sinto que comecei a compreender melhor essa possibilidade de fusão da música popular, dentro de um lugar que também é do rock. Aprendi com a Cássia, com o Paulinho Moska, com a Zélia Duncan, com a Marisa [Monte], com essa cena dos anos 90 que era muito forte no Brasil, uma cena do pop e do rock”. Marianne Faithfull e Roberto Carlos podem co-existir? Claro que sim – em Filipe Catto, tudo é possível. “Gosto de contrapontos: trazeres um samba com bolero, um bolero tocado com guitarras, junto com um baião…  junto com uma música da Marianne Faithfull – eu acho incrível”, afirma, entre sorrisos.

 

Ao EP sucede o primeiro álbum, Fôlego, em 2011, um ano depois de Filipe ter trocado Porto Alegre por São Paulo. “Saga”, no entanto, havia de continuar a fazer História: depois de ter servido de nome à apresentação de Filipe, a canção acaba por ser escolhida para integrar a banda sonora de Cordel Encantado, da TV Globo. Segundo Filipe, no Brasil, “a novela é uma maneira de disseminar a música porque, hoje, temos muito poucas rádios de MPB e muitas estão a ser fechadas. Estamos com pouco espaço nos media, nos grandes media, para a música. Quando uma música entra numa novela é muito bom porque as pessoas passam a conhecer um novo artista, é uma música que toca muito”. Não se pense, no entanto, que a luta termina aí. “Hoje já não tem o mesmo apelo que teve: há uns 20 anos, teres uma música numa novela significava que estarias em todos os programas. Hoje, teres uma música numa trilha, ajuda mas não sustenta o teu trabalho: o que sustenta um trabalho, hoje, é a comunicação na internet, criares uma “fan base”, teres um público que te acompanha”.

Para Filipe, é quase como se o artista fosse um mero veículo para uma arte que não tem outra opção senão brotar. “Quem faz música do coração vai acabar por disseminar isso: a música é mais poderosa do que as pessoas, é mais importante do que quem faz a música, essa música encontra o seu caminho. “Saga” foi uma música muito importante para mim: tenho um orgulho imenso nela porque era muito improvável que aquilo acontecesse – foi um milagre mesmo. Esse mérito é dela, da própria canção”. Talvez por tudo isto, a escolha para o título do seu primeiro álbum foi fácil: Fôlego era o que Filipe mais tinha. “Quando fui fazer o disco, como era o primeiro, fiquei a pensar no nome: Fôlego é o combustível; a gente tem o nosso combustível de cantar – que é o Fôlego. Achava que esse primeiro fôlego era o que queria mostrar ao mundo, mostrar as músicas que tinha feito, para onde eu estava indo. Foi um processo lindo: o Fôlego esteve quatro anos em digressão – é uma loucura”. Quatro anos que foram transformados em exercícios de música aplicada, editados em forma de Tomada, o álbum que Filipe revelou em 2015. “Esses quatro anos de digressão transformaram-me do avesso. Quando gravei o Fôlego, vinha de Porto Alegre, recém-chegado a São Paulo: Porto Alegre é muito diferente de São Paulo, culturalmente; Porto Alegre é uma cena pequena, já não tem uma cena tão rock quanto tinha nos anos 90, de bandas, [quando] todo o mundo tinha bandas e havia espaços para tocar – foi onde me criei, dentro desse berço. Quando saí dessas bandas não foi como se me sentisse órfão mas senti-me sozinho, escrevia as músicas, pesquisava repertório mas… Quando cheguei a São Paulo, senti-me muito mais amparado: comecei a conhecer compositores, comecei a conhecer músicos e as coisas começaram a fluir de uma forma diferente”. É nessa altura que Filipe descobre a sua verdadeira essência artística. “Comecei a enxergar uma nova maneira de se fazer música brasileira. Até então, a referência de fazer música brasileira que tinha, em Porto Alegre, era dos clássicos – isso alimentou-me, é esse o meu ADN. Sou um intérprete, intérprete old-school, gosto de ser um intérprete old-school, acho que isso está no jeito que faço mas não tem necessariamente que estar no repertório, não tem necessariamente que estar na estética, eu não tenho necessariamente que se reverente a nada. Hoje, cada vez mais, sou reverente ao que está a acontecer nesse momento: quando fui gravar o Tomada, quis fazer esse “statement”. Existem tantos compositores maravilhosos – a produção musical que está a ser feita agora, no Brasil, não deve nada à produção dos anos 70. São diferentes porque não temos como reproduzir aquilo mas acho que o grande erro que a minha geração sempre sentiu, na imprensa, é que era muito comparativa. Demorou a que as pessoas começassem a olhar para os músicos da minha geração de forma factual. Quando fui gravar o Tomada, quis trazer a minha dramaticidade, a minha verve de ser um intérprete, para esses temas, que são contemporâneos. Só tenho 29 anos: tenho que falar sobre o que é o amor para uma pessoa de 29 anos. Existe muita poesia nesses aspectos contemporâneos, nesses desencontros, nessa coisa de as pessoas estarem sempre a desencontrarem-se pela cidade grande. Isso é bonito e veio como uma história, no Tomada”.

 

Os discos podem ser os veículos de Filipe Catto mas a sua casa é o palco. “Tudo o que faço, faço pensando em como aquilo vai soar – por isso é que é muito comum eu testar repertório no palco, antes de gravar. Não tenho pudor em revelar as músicas antes de gravar – acho legal. Hoje em dia, está tudo tão dinâmico que adoro escoar a minha criatividade no palco, fazer parcerias”. Por isso, não é de estranhar que, entre as edições dos seus dois álbuns, em 2013, tenha surgido a publicação de Entre Cabelos, Olhos e Furacões ou que, em 2015, se tenha lançado à estrada para interpretar a obra de Cássia Eller, desaparecida em 2001. Para Filipe, todos os motivos são bons para revelar algo. Algo mais. “Adoro que estejamos a viver num momento em que posso lançar um single e isso também seja um motivo de movimentar a carreira. O disco vem para fazeres uma nova digressão, precisas de estar na estrada, precisas de manter as pessoas a trabalhar. O que acho legal é que estamos a viver um momento muito pulverizado: podes lançar um EP, podes lançar um single, podes lançar um clip…  O conceito de disco aprofundou-se: ele só é necessário de forma puramente artística; em termos de mercado, já não existe. No Brasil, virou uma coisa de expressão dos artistas”.

O fenómeno da internet abriu as portas à total liberalização da música: a forma como chega do artista ao seu público mas, também, na forma como o canal de comunicação se estreitou de forma, outrora, impensável. Em Filipe, a figura pública e a entidade privada não encontram separação: abra-se a sua página oficial de Facebook e encontrem-se imagens de concertos ou entrevistas lado a lado com recordações de infância ou tomadas de posição politica. A conturbada situação social vivida actualmente no Brasil não escapa à sua forma de estar – e de se expressar. “Para mim, não há nenhuma diferença entre a figura pública e a figura privada porque eu tenho toda a minha privacidade dentro da minha figura pública. Ao mesmo tempo, sinto que não tenho como não falar: sou cidadão brasileiro, preciso expor-me e falar aquilo que penso. Não tenho medo de falar nas coisas em que acredito. Tudo o que passámos em 2016, todo o peso, é uma ferida que está demorando muito a passar e não vai passar agora porque está tudo muito inflamado. Sinto que as pessoas, no Brasil, estão cansadas, estão tristes, perderam grande parte da sua leveza, com todo esse processo político que aconteceu”. Não se pense, ainda assim, que não há esperança nas palavras de Filipe. “O Brasil é um país muito jovem: acho que todos esses processos servem para nos amadurecer, como nação. Na arte brasileira, no último ano, a palavra “ocupar” é o que estamos a querer definir: ocupar e unir. Bem ou mal, apesar de tudo o que estamos a passar, toda essa situação fez com que os artistas se unissem de uma forma muito mais interessante. Vejo hoje um senso de união, de comunidade, na nova música brasileira, que me interessa, que me deixa orgulhoso, que me deixa emocionado. Só assim é que conseguimos dar um passo para a frente – não é individualmente. Quando as pessoas conseguirem entender que várias individualidades transformam a gente numa não minoria – porque, quem é a maioria? –, aí, a gente consegue ter força para fazer as mudanças necessárias. Mas, para isso, a gente precisa de ter consciência – precisa de ter serenidade”.

Serenidade: é esse o conceito que Filipe escolheu para conduzir 2017. Foi essa a palavra que representou a sua primeira publicação no ano novo. “A vida precisa desse tempo”, explica. “Quando somos artistas, sobretudo em início de carreira, muita coisa acontece – finalmente, sinto que consegui encaixar a minha vida dentro da música, a minha rotina é importante. A serenidade de ter uma boa vida, dentro e fora do palco: a verdade é que o palco, aquele momento ali, para mim, não é trabalho. O momento de cantar não é trabalho: até acho engraçado ganhar dinheiro fazendo aquilo porque eu pagaria para [o] fazer. Ao mesmo tempo, tudo o resto, é muito difícil: é muita viagem, é muito cansativo, é andar de lá para cá, em hotéis – é muito gostoso mas, no fim de contas, não temos tempo para aproveitar. Essa serenidade veio para aterrar mesmo, para colocar a gente num lugar de conexão, de consciência, de espiritualidade, de meditação, de corrida, tudo isso, agora, na minha vida, está a ser muito importante e ajuda-me muito no meu processo criativo. Sinto que virei um artista melhor com esse tipo de prática e 2017 começou com isso. Estou super bem e estou achando legal esse momento da minha vida”.

Para Filipe, criatividade está – e estará sempre – intimamente abraçada à constante mudança. “Como artista, se não estiver mudando, estou fazendo errado. O artista tem que mudar e tem que acompanhar o seu tempo: a gente está a viver um período de muita loucura e eu gosto demais de viver em 2017. Apesar de tudo. Adoro poder comunicar com as pessoas, adora poder estar aqui de uma forma inteira, ter as ferramentas para me comunicar, as ferramentas para me locomover – acho isso legal para caramba. Ao mesmo tempo, sinto-me muito mais tranquilo comigo e, onde vou, levo a minha tranquilidade, levo o meu jeito de viver”. Se o seu “jeito de viver” é indissociável da música, seria previsível que Filipe tivesse uma música que lhe pautasse a vida. Se fosse canção, gostava de ser “The Killing Moon”, dos Echo & The Bunnymen. “É a música mais linda do mundo, eu amo essa música, acho que ela me representa”, admite. “Nunca a cantei ao vivo – um dia…” Porque o futuro nunca será um ponto final mas um ponto de partida. É assim Filipe Catto.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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