Home Entrevista Stereossauro: “Nunca podes estar satisfeito”.  

Stereossauro: “Nunca podes estar satisfeito”.  

Stereossauro: “Nunca podes estar satisfeito”.  
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O gira-discos da avó mudou a vida de Tiago Norte: desde sempre apaixonado pela música, deixou as bandas de garagem para se dedicar ao scratch – e, na viagem, tornou-se campeão. Eterno curioso, Stereossauro é metade dos Beatbombers mas isso é dizer pouco sobre ele.

 

Partiu vários ossos com o skate mas foi no “arranhão” que encontrou a sua arte: numa época em que todos querem ser DJs, Stereossauro é mestre na perícia do scratch, resultado de doses iguais de técnica e paixão. É ele quem se assume como workaholic, em constante procura pelo novo som para samplar, pelo novo padrão. No currículo, editou apenas um álbum em nome próprio mas a sua carreira não se define por aí: bi-campeão mundial de scratch enquanto metade dos Beatbombers, a sua curiosidade nunca acalma e o seu trabalho nunca termina. Em poucas palavras? Stereossauro é um verdadeiro atleta de alta competição musical – e esta história parece estar, apenas, a começar.

 

“Sou um bocado workaholic e isto é a minha praia”, vai anunciando. “Moro à beira da praia – alta praia, a Foz do Arelho –, mas a minha família tem que me arrastar daqui para fora, para ir um dia, no Verão. Ao fim de uma hora, já estou a pensar que devia estar a samplar aquele disco, será que aquele kick resulta? Estou bem é aqui, a trabalhar”, continua Stereossauro. Abra-se o mundo que é a internet e perceba-se a imensa pegada que Stereossauro tem deixado: expõe, com regularidade EPs e mixtapes e assinou quatro volumes na série Hip Hop Tuga; na rádio Mega Hits, os Beatbombers têm o programa semanal, Rockit Sessions, no canal Maluco Beleza, é o responsável por “Fala Aí, Maluco” e ainda oferece a sua arte à página Rimas e Batidas. A verdade é que Stereossauro está sempre a trabalhar – é mais forte do que ele. Porém, ele também sabe que a novidade é a sua constante pesquisa: nome forte enquanto DJ e produtor, nunca pára de quer fazer mais – e melhor. “Agora estou a aprender cenas na machine que tenho há uma semana: [estou sempre a] ver tutoriais na net porque é importante saberes exactamente como é que aquilo funciona para que, quando tiveres uma ideia, não percas tempo às apalpadelas até lá chegares. Técnicas de scratch: o treino é diário, para apanhares novos padrões e novas técnicas tens que [lhes] dedicar algum tempo por semana. É como com qualquer instrumento: nunca podes estar satisfeito, “ah já sei tocar estes acordes”, “já sei fazer este solo”; tem que ser sempre “o que é que consigo fazer a seguir, com isto”, “como é que posso mudar o som das minhas músicas”. Tudo isso, para mim, é bué importante: a cena de pesquisa de coisas novas. Novidade, novidade, novidade”. É impossível não ficar contagiado com o seu entusiasmo – que começou há muito tempo.

 

Era uma vez um miúdo chamado Tiago, que vivia nas Caldas da Rainha. Desde criança, a música cruzou o seu caminho – ou, pelo menos, é isso que o seu Facebook leva a acreditar, quando se encontra um pequeno Tiago, sorriso nos lábios e auscultadores nos ouvidos. “Não faço ideia o que estava a ouvir mas sei mais ou menos que discos é que a minha avó tinha lá em casa. Todas as crianças, desde muito cedo, fazem logo uma relação muito forte com a música”. A sua pode ter surgido nos laços familiares mas para lá dos tais discos da avó: teve sempre “bandas de garagem, com amigos, e tive sempre familiares que tinham instrumentos e bandas… Ficou logo o bichinho, [desde] muito cedo”. No entanto, a ideia de fazer de um gira-discos o modo de vida pode não ser imediata: “Acho que até já começa a ser mais normal… Aliás, hoje em dia, ninguém quer fazer música, querem é ser DJs”, atira Stereossauro. “Na altura, curtia muito hip hop e punk: tinha o gira-discos da minha avó, em casa, e, um dia, lembrei-me de o levar para a cave, para experimentar, e foi logo uma cena… Já ninguém queria estar na bateria, já toda a gente queria era ir para lá arranhar os discos que havia. Mais ou menos na mesma altura, comprei um primeiro computador e comecei a fazer beats no computador e o gira-discos já era visto como uma fonte para ir buscar samples aos discos e arranhar samples para fazer música. Nem tinha aquela ideia de “vou ser DJ” ou “vou pôr som numa festa”. Era mesmo para ver o que é que conseguia fazer musicalmente com aquilo”. O chamamento da música torna-se, progressivamente, mais forte, mas, no trajecto de Stereossauro, ainda surge o estudo do design e das artes plásticas. “A música sempre foi o apelo mais forte mas é uma coisa que toda a gente começa, e faz, por amor. Mesmo com as bandas de garagem: íamos curtir, não era aquela dica de “vamos tocar num estádio” – nem fazíamos música, eram jams! Estávamos lá a curtir jams uns com os outros. Também há aquela dica: toda a gente, em Portugal, acha que para se ser músico tem que se ser outra coisa qualquer – eu curtia Artes Plásticas, foi o que estudei no liceu, trabalhava com gabinetes de arquitectura e fui para design, para explorar mais essa parte… Continuei a trabalhar em arquitectura e design mas, depois, não dava tempo para tudo”, recorda.

O “arranhão” como forma de arte acaba por substituir as quedas dadas no skate. “Parti-me todo – o skate é muito violento. Parti mesmo ossos – não foram arranhões! Parti um braço, um dedo, tornozelos torcidos… O skate é muito violento, é muito duro, eu adoro mas não tinha tanto jeito quanto isso”. A paixão pelo skate, porém, nunca ficou para trás. Em 2015, por exemplo, criou a mixtape Get Buck, precisamente, para acompanhar skaters no seu mister, algo que “dá algum trabalho mas que faço com muito gosto. Sempre que tenho alguma coisa relacionada com skate, quer seja para o pessoal das revistas ou para algum campeonato, faço com gosto. Continuo a acompanhar quem é que anda aí, nos campeonatos – mesmo a nível internacional. Em vez de ir ver novelas, vou ver umas dicas de skate, para o YouTube”.

 

Era uma vez um miúdo chamado Tiago, que vivia nas Caldas da Rainha. Um dia, um amigo apresenta-lhe um outro miúdo, chamado Tomás, que também vivia nas Caldas da Rainha e que – pasme-se a coincidência – estava, igualmente, apaixonado pela música que se podia criar com um gira-discos. Tiago é Stereossauro, Tomás é DJ Ride: subitamente, os dois sentiram que tinham encontrado alguém que falava a sua língua. “Mesmo! Somos de uma cidade pequena: se vivêssemos em Lisboa ou no Porto, era mais provável ter contacto com pessoal da comunidade hip hop e com DJs mas aqui não. Quando travámos conhecimento um com o outro foi logo “aqui está alguém que sabe o que estou a dizer”. Às vezes costumamos brincar e dizemos que era um nerd com a mesma caderneta de cromos que eu – começámos logo a trocar cromos, técnicas de scratch, beats, informação, a competir um com o outro. Foi mesmo uma peça chave”. Começam a trabalhar na casa de Tomás mas também no sótão da avó de Tiago – e na cave… “Fazíamos um take-over a tudo – mesmo na sala, quando era preciso cenas com mais gira-discos, era na mesa da sala, com os gira-discos todos alinhados”. A primeira actuação acontece na Casa do Benfica das Caldas da Rainha mas não se leia, aqui, qualquer tendência futebolística. “Isso foi mal nos conhecemos e não tem nada a ver com clubismos. Era a Casa do Benfica mas se fosse do Zé, do Sporting ou do Porto era igual: era onde íamos beber copos, onde se encontrava muito pessoal e onde nos deixaram tocar – porque nunca tínhamos tocado! Basicamente, [foi] pôr beats a tocar e nós os dois a scratchar, à vez, por cima. [A Casa do Benfica] Era o sítio onde nos deixavam fazer isso”. Assim nascia um dos projectos nacionais de maior sucesso internacional: os Beatbombers.

Em paralelo à actividade com os Beatbombers, no entanto, tanto DJ Ride quanto Stereossauro foram desbravando o seu caminho em nome próprio. Em 2014, depois de muitos singles, mixtapes e outras edições, tinha chegado a hora para a estreia do primeiro longa-duração: repleto de colaborações, Bombas em Bombos é um misto de disco com reunião de família. No olhar de Tiago, não podia ser de outra forma. “Quando convidas pessoas para trabalhar contigo, não são só pessoas cujo trabalho admiras mas também são pessoas com quem te dás bem e que, eventualmente, na estrada, vais conhecendo, com quem trocas contactos, pessoal com quem estás mais em sintonia. Se houvesse uma pessoa que não conhecesse mas que admirasse o trabalho, aí claro, podia travar um contacto por net e podia acontecer mas, regra geral, são pessoas de quem tens o telemóvel e volta e meia vão jantar. É sempre uma reunião de família”. A edição de Bombas em Bombos pode ter tardado mas o objectivo estava no horizonte desde o início. “Quando começas, tens logo muito a coisa de fazer um álbum, começas logo a trabalhar nesses formatos mas o surgimento da net mudou a maneira das pessoas consumirem música: tens que, de alguma forma, estar, periodicamente, a alimentar [o público]com conteúdos novos, músicas soltas, vídeos, mixtapes… Se estás dois anos parado, só a fazer um álbum, quando sais com esse álbum, já ninguém se lembra de ti! É muito importante fazer essas coisas soltas e, ao mesmo tempo, ir trabalhando em álbuns – para trabalhares actuações ao vivo, o álbum ainda é um formato muito usado ou o principal para promover o trabalho dos artistas. Como fã dos álbuns que tenho, eles inspiram-me para fazer as minhas próprias cenas”. Mas qual é, afinal, a cena de Stereossauro?

 

Era uma vez um miúdo chamado Tiago, que vivia nas Caldas da Rainha mas que, desde então, já correu mundo. Produtor e DJ, chegou a definir os seus sets como uma “two hands band”. “Foi uma definição que arranjei uma vez: não quer dizer que seja a minha filosofia mas posso rever-me nisso”, vai esclarecendo. “As minhas actuações como DJ são sempre um híbrido entre o DJing mais puro, estar a mixar uns sons para a pista de dança, e as live remixes, com samplers ou só com o gira-discos… Estou sempre muito activo, sempre a modificar ou a trabalhar os sons que já estão nos discos – e acaba por ser um bocado como uma banda”. Apaixonado pelo hip hop, uma boa parte da matéria prima que passa pelas mãos de Stereossauro brota da música portuguesa: já mergulhou no prog-rock dos Petrus Castrus mas também se deixou embrenhar pela história dos Ornatos Violeta. E os clássicos não ficam para trás, quer se fale de Amália Rodrigues ou Carlos Paredes. “Foi algo que abracei, não foi premeditado, [não decidi] “só vou samplar música portuguesa”… Mas, ao fim de [algum tempo a] samplar música portuguesa, gostei da ideia e abracei a cena porque me dá logo um conceito, não é uma cena random. A verdade é que temos óptimos samples, que não são muito explorados – algumas pessoas, como eu, vão buscar muitos samples à música portuguesa mas, no contexto global, são coisas pouco usadas.  Quando trabalhas com a música dos outros, quando és DJ, à partida, toda a gente tem acesso às mesmas músicas que tu – portanto, tentas navegar e achar discos que ainda ninguém usou ou que não foram assim tão usados”. “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, acabou por se tornar, quase, uma epifania. “Geralmente, tentamos mascarar os samples, camuflá-los por causa dos direitos de autor –  ficam lá no meio das músicas sem conseguirem ser identificados. Mas o público em geral, até pessoas do hip hop, têm dificuldade em perceber o que é se está ali a fazer. Quando peguei num sample que é sobejamente conhecido – como é essa melodia do Carlos Paredes –, as pessoas automaticamente perceberam “ah, aqui ele está a repetir esta parte”, “depois está a pôr uns efeitos ali”… Como reconhecem a melodia, reconhecem o que está a ser alterado e dão logo muito mais crédito. Não é o computador que está a fazer as cenas, conseguem ver o que está a ser feito”. Não se pense, no entanto, que esse é o único alvo da sua cuidada pesquisa. “Não samplo só música portuguesa: antes de vocês chegarem, estava a trabalhar e não eram samples de música portuguesa – o que não quer dizer que, eventualmente, não vá samplar umas percussões ou uma cena e infiltre ali no meio, escondido”, confessa, entre sorrisos.

2016 foi ano grande para o orgulho nacional: em França, a selecção portuguesa venceu o Campeonato Europeu de Futebol: na Polónia, os Beatbombers tornaram-se bi-campeões do mundo de scratch, depois de terem vencido essa competição em 2011. “É brutal porque é uma cena que levamos mesmo a sério. Quando ganhas uma vez, um gajo sabe que há sempre pessoal que fica na dúvida, “ah, tiveram sorte”, “ah, aquele ano era fraco”. Quando ganhas duas vezes, acabou – ganhámos duas vezes. E não só: ganhámos duas vezes mas, nesse entretanto, nunca saímos do pódio. Claro que isso, depois, não conta: aqueles três segundos lugares e o terceiro lugar? Já nem sei o que fiz a essas cenas. A segunda vez é mesmo aquela cena “este é para nós”, é satisfação pessoal. Queríamos isto. Não sei se vamos já voltar às battles, mas [também] não sei se nos apetece ficar por aqui”.

Quando se aproximam as competições, um dos elementos que mais agrada a Stereossauro é a adrenalina de estar meses a preparar um set de seis minutos, onde tudo está ao mais alto risco, onde tudo é… tudo ou nada. “O brainstorming é duro. É divertido mas é duro. Ficas sempre com um monte de ideias que não usaste mas que ficam em stock porque, lá está, é brainstorming e vale tudo. É pegar em beats e experimentar – eu adoro esse trabalho. Imagina: escolhemos um beat, vamos procurar determinados instrumentos ou sons de sintetizador para scratchar nesse beat, estar a pôr as cenas no tom certo; agora precisamos de uma voz que diga ali alguma coisa… Às vezes, estamos uma hora ou duas no YouTube até encontrar aquela cena mas gosto dessa parte de pesquisa e de construção”.

Enquanto não regressam às “battles”, no entanto, os Beatbombers não pararam actividade: desde 2015 que a dupla prepara um álbum, sucessor dos dois volumes instrumentais Tuga Breakz, editados em 2011 e 2013. Só que, desta feita, muito será diferente. “Está a ser feito, estou a trabalhar nisso. Este disco vai ter vozes, já temos algumas vozes gravadas, vai ter também muitas partes instrumentais, vai ter algumas malhas mais só de scratch, vai ter algumas mais direccionadas para os nossos sets, mais pista de dança – vai reunir um bocado aquilo de que somos. Vai ter umas cenas mais técnicas, de scratch, do nosso lado mais battle, de turntablism. Mas nós somos produtores e fãs de hip hop e de música electrónica: vai ter vocalistas de rap, claro. De certeza. Como é o nosso primeiro álbum juntos e já fizemos muita coisa, queremos que reflicta este nosso percurso”.

Em 2014, recebeu a Medalha de Mérito das Caldas da Rainha e é evidente que este é um percurso repleto de vitórias – mas a verdade é que Stereossauro nunca vira as costas a um bom desafio. Por isso, não hesitou quando Rui Unas o convidou para servir de acompanhamento musical às suas edições no programa 5 Para A Meia-Noite “Foi brutal”, recorda. “Foi das cenas que mais curti fazer porque era sempre um desafio e eu adoro: ter um conceito, algo específico para transmitir, andar à procura de alguma coisa que reflicta essa mensagem que quero passar, ter que fazer os momentos musicais para cada convidado e, de alguma maneira, aquilo fazer sentido para eles… Às vezes, sabia na noite anterior quem eram os convidados e era uma corrida contra o tempo: curti bué, foi bué de fixe e obrigou-me a explorar coisas que, se calhar, não ia explorar tão cedo – ou nunca. Todas essas experiências foram bué enriquecedoras e desenvolvi ainda mais os processos de pesquisa”, confessa. Sim, é verdade: Stereossauro nunca está satisfeito. Já se sabe, portanto, que os próximos capítulos estão para breve. Venham eles.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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