Home Entrevista Magazino: “Queremos marcar as pessoas” 

Magazino: “Queremos marcar as pessoas” 

Magazino: “Queremos marcar as pessoas” 
0

É um dos braços da Bloop, a editora e produtora de eventos que, em 2017, decidiu percorrer 10 cidades do país para comemorar o seu 10º aniversário mas Magazino é personalidade própria. Com uma carreira que se espraia por mais de duas décadas, este é um homem de muitos amores: perdeu-se um advogado mas ganhou-se um geógrafo especializado nos terrenos da música electrónica.

 

Podia ter ficado ligado ao Direito mas deixou-se inebriar pela figura do DJ na cabine. Podia ter sido guarda-redes profissional mas preferiu assumir-se como ponta de lança do house. Enquanto passa música, dança até não poder mais mas foi obrigado a abandonar o breakdance. Vive agarrado aos pratos do gira-discos mas também gosta de explorar os seus talentos culinários. É uma das figuras que dá a cara pela Bloop mas arregaça as mangas e trabalha como todos os outros. A história de Magazino começou em 1995, em Setúbal; a da Bloop, em 2007, em Lisboa. Desde 2008, esta narração é feita em uníssono e o grande vencedor é mesmo o público.

 

Rewind até 2008: Magazino junta-se à Bloop.

 

“A Bloop começou em 2007 e eu estou desde o final de 2008, entrei ao fim de um ano e picos. Não fundei mas pertenço à génese”, esclarece Magazino. Nessa altura, a Bloop, nascida enquanto editora discográfica, tinha publicado uma mão cheia de discos e realizado duas festas – começando a traçar o seu percurso, também, enquanto produtora de eventos –, uma no Lux, para assinalar a edição de “20 Years of Querelle”, com os Pop Dell Arte a serem remisturados pelos Glimmers, e outra no Musicbox. Como explica Magazino, na Bloop, “o coração é a editora mas o que a faz respirar, onde fazemos dinheiro para fazermos edições de discos e para pagar toda a estrutura que temos montada, são os eventos. Decidimos apostar em força nos eventos e em eventos diferentes: é essa a génese da Bloop”. Mas em que é que as festas da Bloop se distinguem das restantes? “Escolhemos sítios inusitados – é essa a nossa génese e foi a forma como conseguimos cativar as pessoas”. Aos poucos, o fenómeno começou a crescer. “Começámos a ter following não só a nível local, à volta de Lisboa, mas também a nível nacional. Por isso, quando festejámos o 10º aniversário, decidimos fazer uma digressão em 10 cidades, pelo país”.

De Braga ao Porto, de Faro a Coimbra, de Aveiro a Vila Real, todas as cidades receberam uma Bloop e, em todas, a Bloop foi acolhida por pistas cheias. Algumas nunca tinham sido visitadas pela produtora portuguesa: como Leiria, por exemplo, onde o “espaço inusitado” foi mesmo sugerido pelos anfitriões. “Quando pensámos em 10 cidades, andámos na dúvida na 10ª, entre Leiria, Guimarães, Santarém… Optámos por Leiria porque é uma cidade que, há muitos anos, teve muita cultura de música electrónica (lembro-me de ir lá tocar várias vezes) mas, entretanto, morreu, a nível de música electrónica. Agora, começou a ressurgir um pouco, com os promotores locais, que estão a fazer eventos muito bons”, considera Magazino. A celebração da Bloop, porém, foi pensada para se fundir com cada uma das cidades por onde passou. “Em todas as cidades, tivemos promotores locais como nossos parceiros e, em Leiria, o promotor local foi à Câmara, falou com o vereador, e disse-lhe que havia a possibilidade da Bloop ir a Leiria mas que estávamos indecisos. O vereador disse que não, que tínhamos que ir, que nos iam dar o melhor que tinham – e deram-nos o estádio”. Um estádio pode não parecer um “espaço inusitado”, como Magazino descrevia ser característica fundamental para estas festas: as dúvidas, porém, ficam esclarecidas quando se descobre que o que a Bloop ocupou foi o espaço entre as bancadas do Estádio Dr. Magalhães Pessoa, o recinto construído para o Euro 2004.

A Bloop é um colectivo de quatro artistas: Magazino, Cruz, que também é seu sócio, Kaesar e Andrade, mas as 10 festas dos 10 anos de editora tiveram um elenco mais alargado. Além de, pelo menos, dois dos nomes ligados à Bloop, “convidámos sempre um artista local e também os artistas que já passaram pelo [nosso] colectivo – fizemos questão de tê-los nesta digressão”, explica. Uma preocupação apenas: quiseram que fossem “sempre artistas nacionais – para dar força e para dar valor ao que fazemos e ao que desenvolvemos neste meio que é a música electrónica”.

 

Fast-forward até 2010: a Bloop cria, em Portugal, o fenómeno das matinés.

 

No dia 7 de Março de 2010, a Bloop tornava-se a primeira produtora de eventos a colocar a música electrónica no centro de uma festa… à tarde. A estreia decorreu no Santiago Alquimista, em Lisboa. Era domingo. “A minha profissão permite-me viajar muito e tocar um pouco por toda a Europa e por todo o mundo”, conta Magazino. “Via que havia muitas festas a esta hora em Paris, em Berlim, em Londres, em Nova Iorque, em várias cidades – e aqui não havia. Então, de forma quase a suprir essa lacuna que havia no mercado, aqui em Portugal, arriscámos: no início, tínhamos 80, 90, 100 pessoas; hoje em dia, temos 800, 1000, 900, depende dos sítios porque quase sempre lotamos os locais onde vamos. Como queremos fazer sempre [as festas] em sítios diferentes, muitas vezes, os sítios são limitados a 700 ou 500 pessoas… A dimensão do espaço é quase o número de pessoas que vamos ter”, explica. As “Bloops” arrancam às 15h00 e duram até às 22h00 e o objectivo era, desde o princípio, muito claro. “Não queríamos ter “paraquedistas”: por isso, decidimos ter festas à tarde, em sítios inusitados, para que, quem lá vai, sabe ao que vai. É isso que gostamos: as pessoas chegam, chegam cedo, vão dançar e sabem ao que vão. Não há ninguém que vá ao engano, não há ninguém que vá pedir um tipo de música que não tenha a ver com o nosso “métier”, que é o quatro por quatro, entre o house e o tecno. Não há ninguém que vá ao engano: é isso que nos deixa felizes – ao fim de 10 anos, fazemos com que as pessoas saiam para nos ouvir e para ouvir a música específica que tocamos”, confessa.

A actividade da Bloop nas festas e nas edições já parece tarefa hercúlea? Pois não se fica por aqui. Há ainda um jornal físico e uma loja de discos, onde se vendem, exclusivamente, vinis e cassetes. “Foi quase um regressar ao formato físico, em tudo. Achámos por bem abrir uma loja de discos: não para preencher uma lacuna, porque já havia lojas de discos especializadas em música electrónica, mas, como, na Bloop, todos tocamos vinil, pensámos abrir a loja como um ponto de encontro entre pessoas – e pessoas ligadas ao meio”.

Quando a Bloop nasceu, o mercado discográfico já se encontrava em crise – uma instabilidade que, na última década, não acalmou. Qual é, então, o segredo de 10 anos de sucesso? “No nosso caso, o que mantém a editora viva são os eventos”, arranca Magazino. “A nossa preocupação enquanto sócios, na marca, tem sido prever o futuro: queremos estar sempre a renovar, a prever o que pode acontecer num futuro próximo. Queremos estar sempre um passo à frente e temos a preocupação latente de surpreender as pessoas, de marcar as pessoas. Quase nunca revelamos os locais, por exemplo, porque queremos que as pessoas sintam o frenesim que eu sinto quando vou a festas no estrangeiro, antes de entrar, as borboletas que sinto – é isso que queremos que as pessoas sintam antes de irem a uma Bloop. Antes de chegarem ao local, têm que sentir que há ali algo especial: queremos marcar as pessoas”. Organizar e dar vida a uma Bloop é, segundo Magazino, uma demonstração de amor. “Não é só montar um par de colunas, debitar som, mais uma festa e vamos embora – não. Queremos que as pessoas saiam com uma marca. Nós curtimos mesmo isto que fazemos: nas nossas festas, todos montamos tudo, eu carrego barris, monto balcões, monto palcos – e aquilo dá-me prazer! Temos tanto prazer em fazer aquilo que isso passa para as pessoas: sentem que fazemos aquilo com vontade de curtir e de fazer curtir. É por isso que temos tanto following, de Norte a Sul do país. As reacções das pessoas nas redes sociais, as mensagens que mandam… É muito gratificante e dá-nos muito orgulho e muita vontade de trabalhar e de fazer cada vez melhor”. Qual é, então, o desafio para os próximos 10 anos? Para Magazino a resposta é simples: “superarmo-nos a nós próprios”.

 

Rewind até 1995: Luís Costa torna-se DJ Del Costa.

 

Com pais açorianos, Luís nasce em Setúbal. É na cidade do Sado que se dedica ao futebol, chamando a atenção nas camadas jovens, enquanto guarda-redes, no Vitória (não se cruzou com José Mourinho mas o pai do “special one” andava por lá na mesma altura). Luís traz no bilhete de identidade a data que ficou habitualmente ligada ao ano do nascimento do punk mas o seu chamamento musical, desde muito cedo, veio pela electrónica. Em retrospectiva, houve dois momentos de viragem: “Lembro-me que o meu irmão foi a uma excursão de finalistas, daquelas tradicionais, a Benidorm, e trouxe um disco, do Dr Alban, o “Hello Africa”. Não era muito música electrónica mas tinha ali algo de música electrónica… Ouvi aquilo vezes sem conta. Isso coincide com uns concursos de misses, [organizados] nas escolas secundárias, que funcionavam em discotecas. Nos intervalos dos concursos, havia sempre karaokes, com rapazes mascarados de raparigas, por exemplo. Eu tinha uns 15 anos e, nos ensaios, comecei a achar piada a todo o trabalho que o disc-jockey tinha na cabine. Lembro-me que fomos fazer um playback de Doce, eu estava mascarado de mulher… Foram esses dois clicks – o disco do Dr Alban e o concurso da escola secundária – que me levaram ao bichinho da cabine”. Ainda no liceu, faz as primeiras experiências como disc-jockey. “Até criei uma rádio: fazíamos os intervalos das aulas. Foi lá que comecei a trabalhar com a mesa de mistura e que comecei a andar nestes meandros”. Porém, era preciso definir uma carreira – com os contornos paternalmente aceites.

“O que eu gostava mesmo, mesmo, era de Geografia mas segui, na altura, Ciência Politica e, depois, Direito, porque o meu pai e o meu irmão são advogados e foi por arrasto. Mas aquilo era tão teórico e tão pouco prático que, quando comecei a sair à noite, comecei a gostar tanto do fenómeno da música electrónica – que estava a explodir naquela altura, estamos a falar de 1993 a 1995 – que decidi focar-me e dedicar-me a isto. Primeiro, quase como hobbie, mas depois, ao fim de estudar dois anos de Direito, comecei a levar isto mais a sério, comecei a tocar mais fora da minha região, de Setúbal, e comecei a perceber que podia haver aqui algo, de facto, a que me podia agarrar. Para grande desgosto dos meus pais, decidi desistir do Direito e dedicar-me por completo à música”. A primeira residência é feita a partir de 1995, no Clubíssimo, em Setúbal – é também aí que DJ Del Costa aprende algumas lições importantes, entre as quais, a sua capacidade de ler uma pista a ponto de pôr as pessoas a dançar. Aprendeu tudo isso “depois de ter levado na cabeça, muitas vezes, do gerente do espaço, por ter feito vazar a pista uma série de vezes – derivado da minha inexperiência na altura. Depois de ter levado na cabeça tantas vezes e de ter aprendido o que é que tinha que fazer – tinha que me concentrar e focar-me na pista, naquelas pessoas que estão a pagar e a beber copos e que, no fundo, estão a fazer a discoteca funcionar –, acabei por perceber, ao fim de dois anos de lá tocar, que sim senhor, tinha mãos para tocar esta guitarra”. Os acordes desta guitarra, no entanto, nem sempre eram claros. Não podia “vazar a pista” mas também não a podia “ter sempre cheia”. “Aprendi, também com o tempo, que não podia criar picos de tensão durante toda a actuação. Tinha que criar alguns momentos de uma espécie de banho-maria, para que as pessoas fossem ao bar sem irem embora. Iam ao bar consumir e, depois, voltava a criar um pico, um momento de tensão, para as pessoas voltarem à pista – e assim sucessivamente, durante toda a noite”.

Para quem possa pensar que a vida de DJ – ainda que Magazino prefira definir-se como “alguém que passa música” – é feita de glamour, os seus primeiros pagamentos foram feitos em tostas e bebidas. “Lembro-me que, ao sábado, cobrava cinco contos [25 euros]– uma nota verde, na altura – e, às segundas, tocava por tostas mistas e bebidas. Estava numa fase experimental e queria tanto ser DJ na altura – na altura e consegui que isto virasse a minha vida! – que, ao fim de uns meses lá reconheceram que eu tinha valor para tocar por mais do que tostas mistas e sumos”.

 

Fast forward até 2006: DJ Del Costa morreu, longa vida a Magazino.

 

Espanha volta a desempenhar um papel fundamental na vida de Luís: depois do disco que chegou de Benidorm, a inspiração que nasceu em Barcelona. “Houve uma altura em que fui viver para Espanha: fui tirar um curso na SAE, uma escola de música. Acabei por não tirar curso nenhum – estive lá dois anos mas comecei a curtir mais à noite do que ia às aulas, com os colegas com quem fui, cá de Portugal”. Na altura, na cabine, Luís respondia como DJ Del Costa mas “estava muito farto da música que andava a tocar, estava muito fechado num estilo musical que tinha a ver com o house de Chicago, quis dar uma volta grande e, aí, apareceu o Magazino, um alter ego ao qual cheguei porque, na altura, estava completamente viciado em informação – varria tudo, mal acordava, desde o Le Monde, o El Mundo, o Guardian, o New York Times, o Herald Tribune, A Folha de São Paulo. Vem daí o Magazino: de magazine, informação. Via os canais todos, papava a informação toda, estava sempre presente na minha vida diária – até que tive que fazer uma pausa porque consumia-me mais tempo do que devia”.

De volta a Portugal, o tempo passa a ser dividido entre as actividades na Bloop Recordings, o estúdio e as muitas viagens, resultado do seu trabalho enquanto DJ. Na sua constante fuga ao convencional, quando chegou a altura de celebrar 18 anos de carreira, actuou em 18 cidades diferentes. Porém, em 2015, para as comemorações de duas décadas de carreira, o desafio foi ainda mais longe: Magazino actuou durante 20 horas consecutivas, no Station, em Lisboa. “Preparei isso com uma equipa, na altura. Foi uma preparação com meses de antecedência – mesmo a nível físico. Durante dois meses, voltei a fazer exercício, diariamente, coisa que não fazia há muito tempo”. Como é seu apanágio, só tocou vinil, saindo de casa com 400 discos, escolhidos entre “estes 7 ou 8 mil que tenho aqui atrás. Foram 10 sacos, daqueles bem resistentes, que carregámos – eu e o pessoal que estava a colaborar comigo. Não foi fácil mas mais difícil foi tocar as 20 horas sem aditivos, o que é complicado”, atira entre risos. Ao longo dessas 20 horas de set, Magazino “quis fazer uma retrospectiva dos 20 anos [passados] a tocar música: destinei duas ou três horas para cenas mais dos 90s, sempre na música electrónica, houve períodos em que estive mais ligado ao tecno, outros mais ligados ao house… Fiz uma escolha híbrida dos temas que estiveram mais presentes na minha carreira ao longo destes 20 anos. Demorou bastante tempo a escolher os discos porque, no meio destes todos, não foi fácil. Mas, ao fim de um mês a pesquisar, cheguei lá e fiquei mesmo muito contente com o trabalho que fiz”. Não se sabe se o nome de Magazino consta no Guinness Book of Records mas, para ele, “é record. Em Portugal, não sei se é ou não. 20 horas a tocar vinil, só, sem computadores sem CDs sem nada, pode ser record – pelo menos, nos últimos tempos, pode perfeitamente ser record. Não tenho conhecimento de tantas horas”.

O público que segue Magazino está habituado a vê-lo dançar na cabine – mas poucos sabem que dançar é, efectivamente, algo que chegou a levar a sério. Até ter sido obrigado a deixar o breakdance. “É verdade: estive na Jazzy durante um ano e pouco, fazia hip hop e breakdance mas o que gostava mesmo era de breakdance, que também fazia quando era miúdo. Só que a minha idade já não permite fazer aquelas posições mais apoiadas em braços, sobretudo, e em circulações de pulsos, [por isso] aconselharam-me vivamente a parar porque estava constantemente a ter lesões. Tive que abdicar da dança: danço, muito mesmo, mas na cabine. Não quer dizer que não o faça, uma ou outra vez, quando estou bem disposto, no meio de amigos, mais privado, mais na palhaçada – porque costumo ser muito brincalhão, entre amigos. Mas, de facto, tive que deixar de dançar: não vou dizer que era uma paixão, porque isso seria o xadrez, mas era uma coisa que adorava. E adoro: gosto imenso de ver”.

No dia em que Magazino deixar os pratos do gira-discos, no entanto, já sabe quais são os pratos a que se vai dedicar. Será que, por detrás de um DJ, pode haver um chef em ascensão? “Tenho essa paixão e tenho amigos meus que são chefs – aprendo muito com eles. Arrisco muito: os meus pais são açorianos, faço muitas receitas açorianas, arrisco muito aqui em casa, para os meus amigos – eles nem sempre apreciam muito mas é uma grande paixão. Quem sabe se, no futuro, não irei ter um negócio ligado à cozinha?!”. Senhoras e senhores: não percam de vista o Chef Magazino.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

LEAVE YOUR COMMENT