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Cristina Branco: “Apetece-me mostrar aquilo que sou”

Cristina Branco: “Apetece-me mostrar aquilo que sou”
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Pode cantar fado mas não lhe chamem apenas fadista. Orgulhosa dos seus cabelos brancos, Cristina Branco tem na liberdade a sua suprema definição – talvez seja por isso que, ao fim de duas décadas de carreira, esta “menina” se mantém profundamente indie.

 

De Almeirim à Holanda, este caminho é apenas separado por um disco: mesmo que, antes disso, Cristina Branco já gostasse de cantar, foi com um álbum da maior fadista de todos os tempos que esta menina descobriu que a música portuguesa podia ser mais do que fado. Foi essa improbabilidade que acabou por trazer à sua carreira – quer quando entoa poetas holandeses quer quando dá voz a algumas das mais importantes figuras da actual música portuguesa. Pelo meio, há Camões mas também António Lobo Antunes, há ténis e Louboutins. É assim que se é mulher no século XXI e é assim que se constrói uma história única. Livre e verdadeiramente independente. Que não restem dúvidas, Cristina Branco é indie. Mesmo quando canta fado.

 

Reza a lenda que, em pequena, Cristina Branco pegava numa vassoura e fingia tratar-se de um microfone. Conta-se, ainda, que a língua em que cantava, era um idioma que só ela conhecia e compreendia. Até que, um dia, quando pensava que viria a tornar-se jornalista, o avô materno lhe oferece um disco de Amália Rodrigues: em Rara e Inédita, editado em 1989, a maior fadista de todos os tempos cantava algo que não era fado. “Com esse disco consegui perceber que cantar em língua portuguesa podia ser muito mais do que fado. A Amália deu-me isso tudo e continua a dar – é uma forma de expressão que ela tem que é absolutamente única”, recorda Cristina, mais de duas décadas depois. Tinha, então, 18 anos e vivia em Almeirim – nessa zona ribatejana, não havia casas de fado mas havia espaços onde o fado era entoado. É num desses espaços, em Benfica do Ribatejo, que acaba por cantar, pela primeira vez, em público. “Não era bem uma casa de fados – era um sítio onde uma amiga minha me tinha convidado para ir para ouvir fado. Ela achava que eu cantava bem e a única maneira que conseguiu para me convencer a ir até lá foi dizendo “’bora ouvir”. Como eu estava muito entusiasmada com a voz da Amália, sobretudo, e queria saber mais sobre fado, fui. Entretanto, começaram a pedir para eu cantar e eu, morta de vergonha!, lá cantei qualquer coisa – que não era um fado. Nem me recordo muito bem o que era, não tinha nada a ver com fado, “eu não sei cantar nenhum fado mas ok, vou cantar”. Morta de medo! As pessoas lá se entusiasmaram e ficaram todas contentes. Essa foi mesmo a primeira vez [que cantei em público]”.

Não se imaginava fadista – mas não era por, nessa época, o fado ser visto como uma coisa “foleira”. Simplesmente, Cristina duvidava que tivesse a atitude que o fado exigia – de lá para cá, no entanto, já fez as pazes com o facto de as pessoas teimarem em defini-la como fadista. “Absolutamente! Consegui fazer uma divisão que acho que é justa para toda a gente: quando canto fado, sou absolutamente fadista e acredito que aquilo sim, é o fado. Depois, há o outro lado, o meu outro lado – que não tem nada a ver com fado, que é um sítio onde também me identifico e do qual preciso. Portanto, quando canto fado sou fadista, quando não canto fado, não sou”. Parece confuso mas não é – é, simplesmente, diferente. Tão diferente quanto Cristina e a sua história.

 

Embarque para Amesterdão via Porto

 

Em 1996, sem esperar, Cristina Branco vê-se em Amesterdão, a começar uma carreira que não sabia que ia ter. Pensava, então, que se tornaria jornalista – e era isso que estudava, na Universidade Nova de Lisboa, quando um convite de um colega acaba por lhe mudar a vida. “Fui a um programa de televisão, no Porto – daqueles programas da manhã. Alguém, na Holanda, viu e, um tempo depois, telefona-me a perguntar se eu gostava de comemorar o 25 de Abril para uma pequena comunidade portuguesa: na altura, havia muito poucos portugueses na Holanda”. Cristina foi uma das figuras que se apresentou no Círculo de Cultura Portuguesa da Holanda, nas comemorações do 25 de Abril de 1996. “Era assim uma coisa meio cultural: havia escultores, escritores, era malta assim um bocadinho alternativa. E eu fui – morta de medo, mais uma vez!  Não tinha repertório, não tinha nada – mas fui, sobretudo, porque gosto de viajar, gosto de conhecer outras pessoas e achei que podia ser estimulante também para a minha profissão, porque estava a estudar jornalismo. Lá fui eu: com a cena toda debaixo do braço, enfrentar um microfone pela primeira vez. Foi assim que comecei”. É esse concerto que acaba por despoletar a oportunidade de gravar o seu primeiro álbum: In Holland é editado em 1997 mas o jornalismo, de certa forma, nunca ficou, realmente, para trás. “O jornalismo há-de ser sempre o caminho – há uma parte daquilo que eu faço que tem muito a ver com aquilo que tu fazes”, explica. “Acho que é a forma como chegas às pessoas, como comunicas com elas. De facto, esse bichinho ficou: continuo a gostar de escrever e acho que [o jornalismo] passa muito, também, na forma como eu falo com as pessoas, [quando estou] em cima do palco”.

Cristina gosta tanto de escrever que os seus discos começam, invariavelmente, por textos onde expõe o sonho que tem para aquela obra. Porém, não se espere encontrá-la a cantar os seus próprios poemas. “Nunca escrevo para mim – era incapaz. Costumo dizer que jamais entalaria o meu nome entre o Fernando Pessoa ou o Luís Vaz de Camões ou o David Mourão-Ferreira. O meu nome não cabe ali – eu sou a intérprete. Por muito que goste de escrever, por muito que precise de escrever para me identificar com aquilo que vou cantar, a verdade é que o meu nome não cabe ali, no meio daquelas pessoas, porque são demasiado grandes. Eu sou a intérprete. Apenas”. Ao longo de perto de dezena e meia de edições, já cantou Manuela de Freitas e José Afonso mas também Joni Mitchell ou J.J. Slauerhoff. Aliás, Cristina sabe tão bem quem quer interpretar que não tem pudor em requisitar a ajuda de alguns amigos: foi isso que aconteceu quando pediu a Júlio Pomar para convidar António Lobo Antunes para escrever aquilo que viria a tornar-se “Quando Julgas Que Me Amas”, que se pode encontrar em Não Há Só Tangos em Paris, de 2011. Lobo Antunes acedeu, mesmo achando que o texto estava “uma merda”. “(risos) Claro: mas o António é assim mesmo. Ele acha sempre que não presta, que o fado é uma coisa menor, que não é uma coisa de que ele goste propriamente. Mas como tem uma grande amizade pelo Júlio – e foi o Júlio que pediu, em meu nome… Eu fiquei muito contente porque é, de facto, um texto que vem das entranhas e, por muito mal que ele diga, no fundo, no fundo, ele há-de sentir como eu estou a sentir: acho perfeito. É lindíssimo”.

A amizade com Júlio Pomar fez, igualmente, com que Cristina se tornasse uma espécie de Marianne portuguesa quando, em 2010, o pintor escolhe o seu rosto para o selo e a serigrafia que assina para comemorar o centenário da República Portuguesa. “Ai, meu Deus… Para já, achei que ele estava a brincar comigo porque ele é super brincalhão. “Isto não deve ser a sério, de certeza, isto não é para mim”. Até porque há muito tempo que o Júlio não pintava, in loco, com um modelo – são duas honras, juntas: para já, o convite, para fazer; depois, pelo facto de tê-lo ali à minha frente, a desenhar-me…  É assim uma coisa do outro mundo! Fiquei muito contente mas fiquei meio sem graça: aquela coisa “eu? Porquê eu? Há tanta gente maravilhosa”… De repente, tinha que ser eu? Mas ele achou que sim e eu fiquei muito contente”.

 

Embarque para Menina via Idealist

 

Em 2014, quando já levava mais de uma dezena de discos na bagagem e com uma carreira de mais de década e meia, Cristina Branco passa a sua obra em revista. Em Idealist, uma edição tripla, faz uma revisão da matéria dada. No entanto, ao rever o seu passado, encontra as pistas para o seu futuro. “Repara: quando tens um monte de repertório e existem tantas coisas na tua vida que gostaste de fazer e outras que gostaste menos, há uma necessidade de escolher o trigo do joio. [Acabas por] Perceber “isto eu gosto mesmo e vou-me centrar aqui e vou ouvir outra vez tudo aquilo que gosto realmente daquilo que está no passado” – para poder partir para uma segunda fase. Foi isso que aconteceu com o Idealist: foi escolher aquilo que, de facto, queria seguir”. De certa forma, foi como se colocasse o seu cronómetro musical a zeros, um “reset – é pensar “’bora lá”. Foi um percurso longo onde não tiveste tempo nenhum para pensar porque as coisas acontecem todas muito rapidamente, não te dá tempo de pensar no que queres fazer a seguir, muitas vezes. O Idealist serviu para isso. (… ) No fundo, foi fazer uma espécie de espinha dorsal de uma data de anos, de uma data de discos, e perceber o que é que eu estava realmente a fazer, o que é que era importante – para poder partir para aquilo que já aconteceu, que terá uma continuidade e que me deu imenso prazer”. Aquilo que já aconteceu chama-se Menina e é algo profundamente diferente.

“Cheguei ao Menina de uma forma mais lenta do que os outros discos todos: demorou algum tempo porque era preciso pensar e maturar as coisas e perceber que o tempo acontece de uma forma completamente diferente de há 10 ou 15 anos”, explica. “É tudo muito rápido: as pessoas vão mudando e tu tens que mudar com elas. Foi preciso sentar-me e perceber por onde é que queria caminhar agora, o que é que queria dar novo – porque todos os meus discos têm sempre qualquer coisa de novo, há sempre ali um “twist”…  É disso que gosto e é isso que, para mim, é importante. É a minha forma de crescer, na música. Estive ali um tempo: foram quase dois anos onde aconteceu muita coisa. A determinada altura, achei que era por um lado que queria ir mas, depois, fiz uma volta gigantesca e acabou por ser uma coisa completamente diferente, na qual tenho um orgulho imenso porque acho que é mesmo aquilo”.

O sucessor de Alegria – que Cristina chegou a definir como “assexuado” – nasceu, como habitualmente, com um texto seu, onde dissertava sobre a figura da mulher. Por isso, não é de estranhar que Menina se tenha tornado um disco profundamente feminino. “Sim, tinha que ser – é, assumidamente, sobre mulheres… É um disco feminino: é sobre aquelas sensibilidades, aquelas manias, que as mulheres têm. É super feminino e há um lado quase brincalhão com a nossa psique – que é tão invulgar”. Porém, as palavras desta Menina surgem de autores tão improváveis quanto André Henriques, dos Linda Martini, Jorge Cruz, dos Diabo na Cruz, ou Kalaf, dos Buraka Som Sistema. Não se pense, porém, que Cristina ficou com medo do que se tornaria o resultado final. “Não sabes o que podes esperar: é tudo muito novo. Lanças o mote e ficas à espera – é aquele antecipar da tempestade. Há um momento de silêncio e foi muito isso que senti, durante algum tempo. “Ok, lancei o mote, agora vou esperar”. Sabes que vai ter impacto: não sabes, exactamente, o que é, sabes que não vais ficar indiferente e ninguém à tua volta vai ficar indiferente – mas não sabes o que é. Foi isso que senti e acho que ainda hoje sinto, quando subo ao palco e canto as músicas deles. É emocionante porque vês a reacção das pessoas. Neste momento, estamos a misturar dois públicos: o que vem do passado e aquele que está a chegar”. Nos seus concertos, hoje, Cristina encontra “um sentimento de união, assim ser muito cor de rosa, não é isso… As pessoas sentem da mesma maneira: aquilo que chegou ali, no Menina, une uma série de mundos e eu continuo a sentir isso em cima do palco. As pessoas entusiasmam-se. Quem já conhecia o que eu fazia fica “bolas, isto é o quê? Isto é completamente diferente mas é tão giro”. Quando começámos as músicas, antes mesmo de haver disco, sentia-se um torpor nas pessoas, em relação aquilo que viria a acontecer”.

Cristina Branco sempre foi independente mas, em Menina, tornou-se indie. “A Menina é super indie, não podia ser mais – que é uma coisa à qual achei imensa graça. Tens gente muito, muito novinha a escrever, que tem um lado feminino e uma sensibilidade que é diferente da minha geração. Quando eu era muito mais nova, os miúdos da minha geração não falavam como estes falam. Achei que era tão próximo da minha maneira de ser que foi um estímulo acrescido não só para fazer música mas também para cantar. Está tudo lá: eles têm de tudo o que me faz feliz e que me faz sentir que é por ali o caminho do feminismo. Sem ser muito apegada nessas matérias, acho que é importante – e eles fazem a batalha ao nosso lado”.

Menina tem data de 2016 mas o seu título remonta a 1656. “O nome aparece, justamente, com um sonho. Estávamos em produção, já havia imensas músicas, estávamos a começar a ensaiar… Quando eu estou nesse processo, estou tão embrenhada que até os sonhos passam por ali, o que faz algum sentido. O que acontece é que, normalmente, não me lembro dos meus sonhos e, dessa vez, acordei com a sensação de que tinha vivido tudo aquilo”. Cristina tinha viajado pelo interior de Las Meninas, o quadro do pintor espanhol Diego Velásquez. “Ao pequeno-almoço, estava a contar o que tinha sonhado e, de repente, pensei “olha, isto pode ser super interessante como título para o disco”. Porque aquilo tem tudo a ver comigo, aquilo é o que eu quero ser – o tal texto que escrevi é precisamente sobre essa mulher, sobre uma data de mulheres, uma série de mulheres que estão dentro daquela mulher, quase como uma matrioska. O quadro do Velásquez é isso mesmo: há imensas coisas a acontecer numa cena completamente estática – há espelhos, há imagens, há história dentro daquilo tudo. Por isso é que o disco se chama assim”.

 

Esta mãe embarca de ténis rumo a Louboutins de 12 cm

Aplaudida em todo o mundo, talvez o mais difícil fã de Cristina Branco seja mesmo o seu filho – o que chorava quando ouvia as canções da sua mãe. “Ele gosta da minha música a partir do momento em que sente que as miúdas da turma e as amiguinhas acham piada a ter um colega que tem uma mãe que tem muitas entradas na internet. Isso pode-lhe dar créditos com as miúdas porque, de resto, continua na mesma. Mas gosta muito deste disco: já confessou”, conta a a menina-mãe que diz que amor é voltar para casa e ajudar nos trabalhos de casa. Sempre de mala feita, Cristina pode subir ao palco de Louboutins de 12 cm mas as suas viagens são feitas de ténis – é, pelo menos, isso que mostra no seu Facebook oficial. “Acho piada e as pessoas começaram a perguntar pelos ténis: cada vez que vou em viagem, os ténis aparecem sempre. Normalmente, são simbólicos – de quilómetros, de fazer muita estrada. Sabes que descobri, também com este disco (porque todo ele tem um ritmo completamente diferente), que é muito mais confortável pisar o palco com os ténis do que com os Louboutins – por muito que eles sejam feitos para andar. Ah, ah: não tem nada a ver!”

Menina pode ter alterado a preferência no calçado mas esta “menina” mantém-se fiel aos seus cabelos brancos. Fiel e orgulhosa. “Muito! Olha, estão cá todos: não pinto [o cabelo], faço questão. Acho que é importante e faz parte da minha história. Não me apetece. Apetece-me mostrar aquilo que sou: acho que há tanto artifício à volta, neste mundo mais artístico, que aquilo que quero é, exactamente, desconstruir essa imagem. Mostrar exactamente aquilo que tu és para mostrares aos outros que estás muito mais próximo do que se possa imaginar”. Tamanha honestidade só pode ser encontrada quando as barreiras que se conhecem são aquelas que se ultrapassam. Como é que isso se faz? Com liberdade – um conceito que parece ser o mais importante da sua vida. “Absolutamente – é uma palavra que, para mim, é vital. É daquelas palavras que acho que uso todos os dias e que, no fundo, serve para me reger. Não só enquanto cantora mas também enquanto pessoa. Acho que é importante teres livre arbítrio, que é qualquer coisa que começa a ficar difuso no meio de uma vida tão intensa, de dias tão intensos. Acho que as pessoas estão a perder o livre arbítrio, há um certo sarcasmo e uma certa hipocrisia com a qual não me identifico. Não consigo viver assim: a palavra “liberdade” é qualquer coisa que tem estar sempre presente na minha vida”. A vida de Cristina é assim e Cristina é assim: livre.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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