Home Entrevista NBC: “Não sei explicar o que o hip hop fez à minha vida”.

NBC: “Não sei explicar o que o hip hop fez à minha vida”.

NBC: “Não sei explicar o que o hip hop fez à minha vida”.
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Em 2016, NBC é categórico: Toda A Gente Pode Ser Tudo. É esse o título do álbum que marca o culminar de um caminho que começou nos anos 80, quando descobriu que a música podia mudar o mundo. Uma coisa é certa – este é um deus maior.

 

Entre Portugal e São Tomé, entre o hip hop e o r&b, entre a vontade de usar a música como arma de revolução e a doçura da narração de uma existência – estas são as coordenadas para a caminhada de NBC. Chamou a atenção e tornou-se referência do hip hop nacional nos anos 90, com Filhos D’1 Deus Menor, mas levou a sua arte mais longe, ao dar-lhe contornos das mais diversas raízes da música negra. Abriu os braços às mais diversas colaborações e lutou para que o sonho se tornasse realidade, em 2016. Escancara no título aquela que é a sua vontade e que serve, igualmente, de slogan para a sua maneira de estar na vida e na música: Toda A Gente Pode Ser Tudo. Ele pode ser grande. Ou melhor, ele é grande.

 

Faça-se uma viagem no tempo e no espaço e encontre-se uma criança, em Torres Vedras, em 1987, a ver televisão. “Começou a dar um programa do Álvaro Costa [radialista da Antena 3, importante divulgador musical], que, na altura, estava em Londres. [Ele] Passava imensa música, vária e diversa… Começou a passar um grupo que se chamava Public Enemy: comecei a ver o vídeo – miúdo, intrigado com aquilo, comecei a perceber a dinâmica e a semelhança daquilo, que me atraía para aquilo. Eu, a morar em Torres Vedras, onde não tinha semelhantes (os únicos semelhantes era a minha família), [onde] era difícil ter alguma ligação… Aquela música, aquele género, o que eles estavam a dizer, reportou-me para esse lugar: queria fazer parte daquele movimento, queria fazer parte daquilo que estavam a dizer e queria dizer também alguma coisa que estava a sentir, enquanto jovem que crescia num país que não era o seu e no qual também me queria adaptar”. Foi assim que Timóteo descobriu um género que lhe viria a mudar a vida: com o rap, foi amor à primeira audição. “Sim, foi automático. A música estava sempre na nossa casa. Temos também uma ligação com a igreja, crescemos na igreja, e a música esteve sempre muito presente. Os meus pais tinham imensos discos: Roberto Carlos, Marco Paulo… Tudo isso estava lá em casa – fui crescendo com muita música portuguesa: em miúdo, ouvia Heróis do Mar, Xutos & Pontapés, cresci com esses vinis em casa, usávamos muito vinil. Mas aquele género de música, aquela interpretação, aquela forma de dizer poesia, falada ou cantada, com uma instrumentalização…  Poderá ter alguma coisa a ver com os meus cromossomas que, automaticamente, interligam a instrumentalização, o batuque de uma África remota dentro de mim. Essa identificação foi automática, senti logo proximidade. Eles estavam a cantar uma coisa: “fight the power”, lutar contra o sistema – enquanto jovem, levantas logo o pescoço, também queres lutar contra o sistema de alguma forma”.

Dizer que o hip hop lhe mudou a vida é apenas parte da verdade: também foi graças ao hip hop que descobriu todo um novo mundo. Para NBC, esse não é apenas um género musical – foi também uma verdadeira escola. “A música, a mim, ensinou quase tudo aquilo que sei enquanto pessoa – além dos meus pais, a música, e este género em específico… Nem sei bem explicar o que o hip hop fez à minha vida. Lembro-me de ser miúdo e ouvir os A Tribe Called Quest, com o “Can I Kick It”, que tem um sample do Lou Reed: uns tempos mais tarde, ouvi a canção do Lou Reed e achei que estava a ouvir os A Tribe Called Quest – foi a partir desse momento que me apercebi da profundidade destes produtores e das pessoas que fazem este género de música, que vão buscar coisas a outros sítios, que depois eu vou querer conhecer com profundidade. Foi isto que a música me fez: o meu conhecimento musical, de estrutura musical, dos músicos que a fazem – foi através do hip hop. O uso dos samples é uma mais valia: conheci todos os outros géneros através do hip hop. A música é muito mais do que as palavras das pessoas que as cantam, é muito mais do que isso”.

 

Também falar de NBC é muito mais do que falar de Timóteo. Este é um caminho que “começou em São Tomé, passou por Portugal e, a partir daí, passou principalmente por uma educação com algumas bases fundamentais que preservo e que tento passar quando estou a falar com as pessoas: tentares ser o mais honesto possível quando estás a falar com as pessoas. Enquanto humanos, sabemos perfeitamente quais são as nossas limitações mas [devemos] tentar ser melhores a cada dia – eu, pelo menos, tento fazer isso. O meu sorriso de alegria e o facto de olhar para trás e conseguir dormir todos os dias a achar que não tenho nenhum problema com ninguém é fantástico: foi isso que os meus pais me ensinaram, sem dúvida”.

Em meados dos anos 90, os primeiros passos da sua carreira musical também foram feitos em família: após a verdadeira revolução encetada pelo álbum Rapública, apresentado que estava o hip hop ao grande público português, o país conhecia uma nova geração de rappers. Surgiam nomes como Sam The Kid mas, em 1994, também o projecto Filhos D’1 Deus Menor, uma dupla de irmãos de Torres Vedras que viria a editar o álbum A Longa Caminhada, em 2000. Os Filhos D’1 Deus Menor eram constituídos por BlackMastah e por NBC (sigla que remetia para o imaginário de Nabucodonosor, um rei de Israel).  “O meu papel, vendo agora, foi o de um indivíduo que quis, de facto, mudar o mundo, à sua maneira – eu aspirava mudar o mundo, quando tinha 16 anos. Lembro-me de ter dito isso: está gravado numa cassete de vídeo, de um amigo meu. Ambicionava mudar o mundo e acho que mudei o mundo, de alguma forma – nem que seja o de algumas pessoas à minha volta e o meu próprio mundo. Faço parte da chamada Geração de Ouro do hip hop em Portugal, continuo a exercê-lo: muitos deixaram de o fazer, muitos mesmo –  éramos muito mais do que somos agora, pelo menos dessa geração. Obviamente, sabemos as dificuldades inerentes à música e à arte em si: ou ficas ou não ficas”. Permanecer, duas décadas depois, para NBC, é uma vitória – nas mais diversas abordagens e pelas mais variadas razões. “Em 2016, das coisas que mais me deixam contente é saber que nós, enquanto género musical, ajudámos a que a música portuguesa se mantivesse viva. Para mim, é a coisa que guardo com mais sabor. É como se fosse a nossa mãe e é mesmo: a língua portuguesa, para mim, é a minha mãe. Foi aquilo porque sempre lutei. Os miúdos, hoje, ouvem mais música portuguesa do que a nossa geração – para nós, é um privilégio podermos dizer isso ou termos os festivais com cabeças de cartaz com músicos portugueses e a cantar em português. É fabuloso”.

 

NBC canta em português. Ou melhor, a palavra em português é uma das suas maiores bandeiras e um dos seus grandes orgulhos. Por outro lado, a forma como o português é encenado nas suas letras e na forma como concretiza as suas experiências no formato canção é, igualmente, um dos grandes elementos que distingue a sua obra da dos seus pares. “É um pouco diferente  do que a maioria das pessoas faz – ou a maioria dos meus colegas, contemporâneos, faz. Gosto muito de música brasileira e, como todos sabemos, a música brasileira tem um certo requinte na utilização de algumas palavras. Durante uma fase enorme da minha vida, ouvi música brasileira exactamente para compreender como é que consegues criar ritmo nas tuas palavras, ditas em português. Durante muito tempo tivemos que levar com aquela conversa de colegas nossos, de outros géneros, que diziam que isso de cantar em português… Tivemos que contrariar isso explicando que, se escrevêssemos desta forma, isto ia funcionar. Tens que ter amor à tua língua: foi isso que sempre quis passar e tenho muito amor à língua portuguesa. Gosto muito de cantar em português, gosto mesmo muito. Sabemos que o rap, em Portugal, durante algum tempo, tinha essa dificuldade, de conseguir passar para as pessoas – as pessoas tinham dificuldade em perceber porque não era um género português. Então, a forma que encontrei para chegar mais facilmente às pessoas foi cantando mais as palavras, em vez de as dizer de uma forma tão directa. Foi esse o meu refúgio”. Pode ter descoberto o rap com os Public Enemy mas o jovem Timóteo também era admirador, por exemplo, de Michael Jackson. Por isso, NBC não é apenas devoto ao hip hop: na sua voz, a soul e o r&b também podem ser portugueses. “E são. Completamente. Neste momento, já são. Claro que tudo isso passa por outros artistas, como o Boss AC, o Valete, o Sam The Kid, e outros tantos, que foram escavando e habituando as pessoas a ouvir a música portuguesa desta forma. Hoje, é muito mais fácil podermos assumir que gozamos de boa saúde”.

 

Em 2016, NBC editou Toda A Gente Pode Ser Tudo. No entanto, a estrada que o levou até ao álbum não foi fácil. “Foi um caminho muito difícil, muito turbulento… Eu serei, no fundo, a primeira pessoa a criar um sub-género… Tens pessoas como o Valete, tens o Sam The Kid, os Dealema, que são estruturas muito mais compactas, dentro de um rap mais sólido, com um formato mais conhecido pela generalidade das pessoas. O meu não é assim: é um pouco diferente, é muito mais ligado à soul, ao r&b, muito mais ligado a uma musicalidade que, em Portugal, ainda não é vista de forma global – as pessoas não conhecem o género”. A forma como está, hoje, na música, tornou-se clara em 2003, quando compôs “Bem-vindo ao Passado” – onde aquele que se assume como saudosista, assumiu, em definitivo, qual seria o seu futuro. “Essa canção é [uma representação de] uma fase muito importante da minha vida, de uma decepção amorosa e de uma situação com o meu pai que também não estava bem… [Era] Uma quantidade de coisas que estão ali a borbulhar e que eu coloco por escrito. O que é que acontece? Ao escrever, fico livre, liberto-me daquela dor e passo a dor para o mundo e isso torna-me um pouco mais equilibrado. É a minha forma de expurgar os meus problemas – porque eu não sou muito de falar de mim, como diz a primeira frase da música, “nunca fui muito aberto para falar de mim”. Quando escrevo sobre os meus sentimentos, encontro-me. Acho que, se não fosse músico, seria escritor. Gosto mesmo de escrever, gosto de pôr em poesia mesmo as coisas mais dramáticas da nossa vida – porque, no fim de contas, há sempre um lado positivo”.

Depois da estreia em nome próprio com Afro-Disiaco, de 2003, em 2008 surge Maturidade, um álbum que é também uma conquista. “Construir um disco como o Maturidade foi fácil e difícil. Foi fácil porque consegui encontrar uma pessoa à altura de o fazer, o [New] Max, dos Expensive Soul. Só mesmo com ele é que eu poderia fazer um disco daqueles – não tinha mais ninguém, em Portugal, que me compreendesse. Foi difícil porque, sem ele, não poderia fazer um disco como o Maturidade. Era difícil encontrar alguém que estivesse próximo de mim o suficiente para passar quatro anos, dentro de um estúdio, que era o dele, a utilizar instrumentos analógicos, tudo o que estivesse à nossa disposição, para construirmos um disco como o Maturidade. Não tinha mais ninguém – é essa a dificuldade”. A edição do álbum, porém, não pôs um ponto final nas dificuldades do trajecto de NBC. Em 2013, editou EPidemia, disco que imaginado como álbum mas que nasce EP. “O EPidemia foi mesmo isso: foi uma dor que tive que ultrapassar. Foi mesmo muito doloroso: estava há muito tempo parado, queria construir alguma coisa e não estava a ser fácil. O meu grito de revolta acontece com um tema que até é dos mais bonitinhos: o “Neve” é um grito de revolta. Completamente”.

Diz que estava “parado” mas a verdade é que NBC nunca parou: aliou a sua voz e a sua música às mais diversas colaborações, com nomes tão distintos e vindos de quadrantes tão diversos quanto Regula ou os GNR. Chegou, até, a participar em Filme do Desassossego, de João Botelho, em 2010. Quando os GNR celebraram, em palco, os seus 35 anos de carreira, por exemplo, “quis estar presente, para mostrar que continuamos a estar em família. É desta forma que me quero preservar: ao criares a tua família, é muito mais fácil abrires o coração, é mais fácil estares num sítio onde podes ser honesto com essas pessoas e essas pessoas vão compreender-te melhor. Todos precisamos de um porto seguro – seja em casa ou com outras pessoas. Um porto seguro sério: com estas pessoas em especial tenho o maior prazer de poder privar com elas diariamente, falar, e ser de coração. Eu gosto da família”.

É de família que se fala, igualmente, em Toda A Gente Pode Ser Tudo – o disco que é também a vitória que NBC já merecia. “Construir um disco como o Toda A Gente Pode Ser Tudo… Não diria que é como quando nasce um filho porque é mais do que isso: é como quando tens um filho que chega à idade adulta e diz ao seu pai que vai seguir em frente na sua vida – tu ficas feliz por teres um filho adulto e saberes que lhe deste as bases necessárias para ser um filho em condições. É isso que o Toda A Gente Pode Ser Tudo é para mim – é mesmo muito importante. Conseguir reunir um grupo enorme de músicos, enorme!, que diariamente trabalharam num estúdio ao qual tive acesso total, sem nenhuma privação de horário: muitas vezes tive que dormir lá, estar lá às nove da manhã, 10, meia-noite, quatro ou cinco, sete da manhã, fosse a que horas fosse, estávamos no estúdio… Construir um disco ao qual não tenho nada a apontar… Está tudo como sonhei”.

O sonho ganhou vida nos estúdios Big Bit, em Lisboa, e é também a primeira edição da recém-formada etiqueta com o mesmo nome. Se, quando celebrou 40 anos, fê-lo com pompa e circunstância, não se pense que a idade tornou NBC menos curioso: por isso, na lista de convidados e colaboradores do seu novo álbum surgem nomes como o “novato” Slow J ou o veterano José Salgueiro (dos Trovante e Resistência), Virgul ou Sir Scratch, Dino d’ Santiago ou Guilherme Salgueiro. É ele mesmo quem o diz em “Dois” – “é impossível ser feliz sozinho”. Essa máxima foi igualmente a base para a concepção deste disco, onde teve várias mãos amigas. “Enquanto não quisermos aprender mais, é difícil termos um futuro promissor. Estou sempre – constantemente – a querer aprender mais com os jovens, [porque] eles é que sabem coisas que nós não sabemos. Ter o Slow J a fazer produção era absolutamente importante: sempre quis isso, ansiava ter alguém que, dentro do meu género de estrutura musical, que é aquilo que ele faz, estivesse novo, estivesse “fresh”, com ideias novas; e, ao mesmo tempo, ter um dinossauro da música portuguesa como é o [José] Salgueiro, ali, a interagir, mas também fresco, com ideias boas e bonitas, “vamos fazer isto, vamos ver como é que isto soa, se não ficar bem, fazemos novamente”. Nada de ficares a olhar para um dinossauro e ficares com medo, nada disso – estamos todos aqui e fazemos tábua rasa, somos todos iguais. Isso foi brilhante”. NBC também responde pela produção partilhada de Toda A Gente Pode Ser Tudo mas sabe que nada disto seria possível sem “dar liberdade às pessoas que estão à tua volta, para serem o que são. Sem impores nada: foi isso que aconteceu o tempo todo. Sem imposição nenhuma. É giro: um dos músicos, no dia em que disco sai, faz um post a agradecer, como se o disco fosse dele. É isso que é importante: ele está a agradecer como se o disco fosse dele porque, de facto, também é”. Em “Unidos”, ele deixa o mote: “se a música nos une, nada nos separa”.

Toda A Gente Pode Ser Tudo é um disco de 2016 mas também é um disco de uma vida. O disco da vida de NBC, onde recorda o passado – referiu-se “Bem-vindo Ao Passado”? É mencionada em “És A Luz” – mas também onde, mais do que nunca, as suas canções são, verdadeiramente, a sua vida estampada em caligrafia. Ele abre as portas para a infinidade de possibilidades que está ao alcance de todos – sim, Toda A Gente Pode Ser Tudo. Mas, afinal, o que é que NBC pode ser? “Eu posso ser uma pessoa feliz. É isso que me interessa”.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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