1. Home
  2. Discos
  3. Discursos
  4. MEO Kalorama: uma ode à dança

MEO Kalorama: uma ode à dança

MEO Kalorama: uma ode à dança
0
0

Da explosão pop electrónica dos Pet Shop Boys à confirmação do estatuto de estrela de Damiano David, não esquecendo a celebração de Branko à cidade onde tudo nasceu, ao longo de três dias, o Parque da Bela Vista tornou-se uma verdadeira pista de dança.

Diz-se que a pista de dança é o mais democrático dos lugares: e nunca a sensação de democracia pareceu tão importante quanto nos tempos actuais. A pista é aquele espaço onde todos são iguais, onde se soltam os corpos, onde se liberta a mente, onde se fecham os olhos para que a música cumpra uma das suas primordiais funções – fazer sonhar. E foi isso que se viveu no MEO Kalorama, entre 19 e 21 de Junho.

António Gedeão dizia “que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança” mas, no MEO Kalorama, o sonho fez-se no feminino, quer em português, com Capital da Bulgária, quer na elegância electrónica de Roisin Murphy ou na experimentação avant-garde de FKA Twigs. É possível que os corações tenham batido mais forte com a elegância sedutora do indie de Father John Misty, da mesma forma que os Royel Otis conquistaram Lisboa com o seu smooth-psych (e, já agora, com a sua capacidade de fazer versões) – mas o pódio dos grandes aplausos fez-se de suor. O suor que, lá está, a pista de dança pede. Ou melhor, pelo qual implora.

Foto: MEO Kalorama/Hugo Moreira

Pelos Pet Shop Boys, o tempo parece não passar. As suas canções há muito que se tornaram verdadeiras instituições synth e surgem com a mesma intocada relevância. Num concerto feito, também, para encher o olho, viram-se mudanças de roupa e um tremendo cuidado na cenografia: escolher “Being Boring” para a despedida é, claro, pedir pelo seu refrão – Neil Tennant e Chris Lowe “will never be boring”.

Foto: MEO Kalorama/Pedro Nuno

É impossível falar de Branko sem pensar em Lisboa e o sorriso do homem que nasceu João Barbosa, no Palco San Miguel, só confirma que esta história de amor não tem final à vista. Para o MEO Kalorama, o DJ e produtor português levou, como o próprio anunciou, uma versão upgrade do seu concerto: mas quando as canções estão “lá”, nada mais parece ser preciso. Por isso, o público tanto vibrou com as interpretações em “formato banda” como com a prestação de Branko a sós, quando este desceu do palco e fez a festa olhos nos olhos com a pista. Passaram 20 anos desde que tudo começou, uma década desde o primeiro álbum a solo, mas, voltando a Gedeão, a música de Branko é “como bola colorida entre as mãos de uma criança”.

©Hugo Moreira / MEO Kalorama 2025

Um ano depois de ter passado com os Måneskin no Super Bock Super Rock, Damiano David regressou a Portugal – mas essa será a única “comparação” possível de se fazer. Ao seu primeiro álbum a solo, editado em Maio, chamou “Funny Little Fears” – mas o italiano não parece pessoa de se assustar. Ou de ter medo. Nas suas mãos, o palco é um misto de cena de musical com expressão pop, de hinos a corações partidos a cânticos de superação. Tudo feito com muito brilho mas também com a descontracção de quem se sente bem na sua pele, de quem pode fazer o que quiser – mesmo que seja revelar que as únicas palavras que sabe em português são as da letra de “Deslocado”, dos Napa. Chegou a dizer que os portugueses deviam ter vencido a Eurovisão (depois de Itália, claro!) mas, no MEO Kalorama, o vencedor foi mesmo Damiano David.

Encerrada a quarta edição, o futuro do festival, para já, mantém-se em aberto. Ainda sem números de audiência revelados, em 2025, o Parque da Bela Vista esteve longe das multidões dos anos anteriores e as datas para 2026 também não foram anunciadas. Enquanto se espera por novidades, que continuem os passos de dança – a dança da memória.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

LEAVE YOUR COMMENT