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Carlão: A terapia da escrita

Carlão: A terapia da escrita
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O grande público conheceu Carlão como Pacman, nos saudosos Da Weasel.

Com o ponto final na banda de “Dialectos da Ternura”, mostrou fúria em Os Dias de Raiva e a poesia tornou-se canção em Algodão. Regressou ao hip hop com os 5-30 mas só com a tremura dos 40 é que se revelou em nome próprio. Carlão, finalmente, voltou a casa.

“Foi uma coincidência, sim, mas aconteceu”. Viaje-se até 1994: os Da Weasel editam o primeiro EP, More Than 30 Motherf*****s. Segue-se uma carreira de sucesso extraordinário, cujo o trajecto termina quase duas décadas depois. Pacman é uma das faces mais visíveis daquele colectivo mas, com o desaparecimento do grupo, desaparece também o seu mergulho no hip hop. Daí para cá, mostrou o seu lado mais feroz e hardcore em Os Dias de Raiva e a paixão por outra forma de palavra, com o alter ego Algodão. Estava a solo mas não se assumia em nome próprio. Para tal acontecer, foi preciso aproximar-se desse marco de vida que é a chegada aos quarenta anos. “Não sei se está directamente ligado aos 40 ou a esta fase da minha vida”, esclarece Carlão. “Não traço grandes objectivos e cada vez mais vou percebendo que não vale a sequer pensar nisso – vou seguindo muito a intuição e o feeling do momento”. O feeling, no caso de Quarenta, o disco, deve-se muito à aventura com os 5-30. “Há três anos, para mim, não era impensável fazer um disco em nome próprio mas era fazer um disco com esta sonoridade. Pensava que tudo o que estivesse mais aproximado à rima, e às linguagens do hip hop, para mim, já não tinha grande interesse. Achava eu!”. Porém, é com hip hop na ponta da língua que se junta aos Orelha Negra, no palco principal do Meo Sudoeste, em 2013. “Vim a descobrir uma célula adormecida que foi ressuscitada pelo Regula, pelo Sam The Kid, pelo Fred, na altura de 5-30. A verdade é que, uma vez desperta a célula, em menos de nada fizemos o disco de 5-30 e deu-me vontade de fazer este Quarenta”. Dois anos depois, em 2015, era, enquanto Carlão, que regressava ao mesmo cenário da Zambujeira do Mar.

As outras linguagens, porém, não saem da pena de Carlão. É ele quem o assume em “Intro”, a abertura de Quarenta,: “O que eu faço é o que eu sou”.  “Não sendo um hip hop puro e duro – como nunca foi –, por muito que pensasse que não, é aqui que me sinto mais completo. Gosto de fazer coisas noutros registos, é verdade e vou continuar a fazê-los, mas a maneira como estou aqui é a maneira como me sinto mais completo. Não há dúvidas”.

Desde que deu os primeiros passos, no entanto, muito mudou no universo do hip hop em Portugal. Há quem considere que o grande boom do rap se deu com Rapública, em 1994 – Carlão não vê as coisas assim. “O Rapública foi uma vontade, das pessoas da altura, de fazer alguma coisa com um movimento que realmente estava a nascer mas foi um parto algo prematuro”. Com esse álbum, considerado a primeira grande apresentação do hip hop português, onde alinhavam nomes como Black Company ou Boss AC, “aprendemos todos mas, muito rapidamente, deu para perceber que o caminho do hip hop tinha que ser trilhado, em termos de técnicos, de estúdios, da produção, pelo próprios intervenientes do hip hop. Os técnicos portugueses – o pessoal dos estúdios e que trabalhavam para as editoras – não faziam ideia do que se estava a passar. A linguagem do hip hop não era a deles e não sabiam como produzir um tema, como gravar os artistas”, continua. A boa saúde actual, em Portugal, deve-se a “nomes como Sam The Kid ou Boss AC, que começaram a fazer as coisas por eles próprios, a gravar. Percebemos que era por aí. Isso levou algum tempo até as coisas ganharem a força que ganharam”.

No entanto, segundo Carlão, as últimas décadas, trouxeram ainda mais alterações. “Mudou quase tudo. Mudou a preponderância das editoras e dos estúdios: hoje em dia, consegues gravar quase em casa. Os escaparates da música também mudaram, gravas e podes largar na net – há putos que não passam na rádio e têm 2 milhões de views. O próprio conceito de disco, de álbum, mudou – já não é tão importante como era. As pessoas vão largando temas porque é tudo muito mais imediato”. Carlão foi confrontado com essa voracidade logo na apresentação de Quarenta. “Fiz um showcase, no Colombo, dois dias depois do disco ter saído, e houve um puto, no final, que me veio perguntar “então e cenas novas?”. Cenas novas? O disco tinha saído há dois dias!”. Segundo Carlão, é esse o tempo que se vive. Por isso, um ano depois de Quarenta, apresentou Na Batalha, um EP com quatro canções. “As pessoas querem sempre coisas novas. Vou continuar a fazer álbuns – porque acredito no álbum enquanto conceito – mas o que é verdade é que [hoje] é tudo muito descartável. Sai um álbum e as pessoas ouvem, talvez, dois temas, três já é um bocado – porque já está a sair outra coisa [nova]”. Por isso, é preciso encontrar um ponto de adaptação: “Nesta altura, é mais prático fazer um EP, ter três ou quatro temas novos e, depois, pensar num álbum no próximo ano ou em mais um EP ou noutro single este ano. O álbum, propriamente dito, já não tem aquele tempo de digestão junto do público”. É assim que se está na batalha? “Vai-se estando assim, sim. Tentando estar a par das coisas, sem nunca perder o que é prioritário”.

A solo, Carlão deparou-se com uma série de caminhos que não tinha vislumbrado nas experiências em banda. “Assinar coisas em nome próprio tem vantagens e desvantagens. Com uma banda, somos vários a decidir e a coisa divide-se. Torna-se muito mais fácil, por exemplo, a gravação de um disco, porque são quatro ou cinco cabeças ali, a dividir o esforço. A solo, é muito solitário, frito muito mais facilmente a cabeça”. Mas essa solidão também traz liberdade de risco e olhares distintos. Desde Quarenta, Carlão já trabalhou com Branko e Moullinex e colaborou, por exemplo, com Vhils e Sara Tavares. “Tenho muito mais oportunidades de trabalhar com um sem número de pessoas diferentes. Permite-me rodear de pessoas de uma forma mais intensa do que acontece com uma banda. No caso de banda, é sempre, tipo, uma participaçãozinha de um vocalista, e aqui não – pode ser um produtor ou um beatmaker ou vozes. Isso é bom e é assim que se evolui. Sempre acreditei mais na longevidade de artistas do que de bandas precisamente por causa disso – é mais fácil a pessoa renovar-se. Com bandas, criamos muitos vícios, muitos tiques e acomodamo-nos”, considera.

Pode pensar-se que, depois de tantos concertos, de tantas multidões, subir a palco enquanto Carlão não trazia nervosismo. Afinal, não. “As pernas tremem sempre – metaforicamente, porque são outras coisas que acontecem no meu corpo quando subo a palco. Quando foi a apresentação do Quarenta, no Lux, estava super nervoso. As coisas não estavam ainda bem rodadas e isso também teve o seu peso”. O desafio, no entanto, não passava apenas por estar a responder pelo seu nome. “As pessoas – e ainda bem – ainda me associam muito com os Da Weasel e é natural que assim seja… Se bem que, agora, há uma série de putos que conhecem Carlão e não estão a par de Da Weasel – o que também é interessante”. Apesar de ter sido com 5-30 que Carlão regressou ao hip hop, até surgir Quarenta, “nunca tinha estado num registo tão declaradamente próximo daquilo que fazia nos Da Weasel. As pessoas iam ver-me a fazer algo próximo dos Da Weasel – mas sozinho. Estava super nervoso mas correu muito bem e tem corrido muito bem. Mesmo”.

Chamar Na Batalha ao seu segundo registo enquanto Carlão é uma extensão daquilo que sempre fez na sua escrita: uma forma de captar a realidade onde está imerso. Por isso, não é de estranhar que assuma que “cada dia é uma batalha”. Ele explica: “É mesmo assim. [Mesmo] Sem problemas de saúde ou de pobreza extrema ou de grandes dificuldades, hoje em dia, é uma batalha coexistirmos numa metrópole, numa cidade grande. É uma vida de loucos”. O facto de não ter carta de condução – como ele próprio confessa em “Os Tais”, o primeiro single de Quarenta – obriga-o a andar de transportes públicos mas também lhe permite um tipo de observação que a solidão de um carro não autoriza. “Às vezes, paro só para olhar para as pessoas – e olho para mim, obviamente –, e é uma batalha, de manhã à noite. As pessoas andam de um lado para o outro, muito stressadas, as coisas estão cada vez mais competitivas. E isto é na rua porque na net é a mesma coisa – e nós estamos a viver muito na net”. São essas duas realidades que surgem “Na Batalha”, a canção. “Estamos em stress na rua mas também estamos no Facebook e na net. Parece que não fruímos as coisas, é tudo muito rápido, scroll para cima e para baixo, tudo muito imediato e descartável. E agressivo também. Sinto essa competitividade na vida real, física, e na virtual também – sim, é uma batalha e é de loucos! O dia a dia não devia ser assim. Mas é o que temos e temos que estar cá. Na batalha”.

As suas canções, desde sempre, assumiram contornos de polaróides da sua própria existência. Da mesma forma que confessa não conduzir, fala de vícios e rotinas. “Há um sem número de coisas que trato nas canções, de que falo naquilo que escrevo, porque não lido muito bem com elas no dia a dia e a escrita, para mim, sempre foi terapêutica. Até aí tudo bem – só que depois, às vezes, os temas ganham uma dimensão de que não estou à espera. Na altura, nunca penso bem no que estou a escrever. Há coisas problemáticas sobre as quais é mais fácil escrever”.

Parte-se de Quarenta e chega-se aos 40. “Sentes que já não tens todo o tempo do mundo e tentas gerir melhor esse tempo”, confessa. É habitual pensar-se na ternura dos 40 – porém, Carlão, assume os 40 com uma certa… tremura. “Chego aos 40 e, felizmente, constato que não é nada do que pensava quando tinha 20. Idealizava que, aos 40, a vida já não teria surpresa nenhuma, que já estaria completamente formatado e adaptado e sem pica nenhuma para nada: muito mais gordo do que aquilo que estou – na verdade, tenho barriguinha mas não é uma barrigona, estou careca por opção e ainda tenho muita pica para fazer coisas. Esse lado foi uma surpresa muito boa”. Mas as respostas que pensava que já teria, ainda estão por encontrar. “As questões fundamentais mantêm-se. Costumo dizer que fui enganado, pelos adultos, quando era criança e adolescente, porque pensava que chegaria a esta altura com as minhas questões de fundo já resolvidas – e não estão, de forma alguma. As inseguranças mantêm-se e as questões mantêm-se. De repente, um gajo está aqui, com filhas, a continuar no rock’n’roll, a fazer a cena toda, mas há uma série de coisas que se mantêm. Como é que é isto? Tenho duas filhas, uma já está a ir para a primária, a outra vai fazer um ano e nem sei muito bem o que é isto de ser pai… Achei que, a esta altura, já saberia mas acho que nunca ninguém sabe mas nunca ninguém diz – e isso faz com que os 40 sejam uma tremura. Mas é uma tremura boa, claro!”.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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