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Linda Martini: “Parir um disco dá muito trabalho”.

Linda Martini: “Parir um disco dá muito trabalho”.
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“É bom termos aqui as pessoas, que opinam, que passam, que fazem sugestões, que tocam contigo”, conclui a voz dos Linda Martini

Têm nome de mulher mas fazem rock musculado. Vêm do hardcore mas cravam a sua obra de uma melancolia pujante. Ao quarto álbum, abrem os braços e acolhem um silêncio que se torna mais potente do que qualquer distorção. Os Linda Martini chamaram Sirumba ao seu mais recente disco mas esta música não é uma brincadeira – é o tratado da mais poderosa banda da sua geração.

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“O Haus é o sítio onde temos a nossa sala de ensaios”, explica Hélio Morais. Apresenta o espaço que a banda escolheu para conversar com o M de Música – mas, na verdade, o Haus é muito mais. “A ideia começou ainda noutro estúdio, com as bandas que tínhamos na altura – Linda Martini, If Lucy Fell, Men Eater Riding Pânico –, que partilhavam o mesmo espaço de ensaios, alguns elementos, gravávamos todos lá com regularidade, no Blacksheep”, continua. Hoje, no entantol, o Haus tornou-se uma verdadeira comunidade. “A certa altura, o pessoal dos Paus percebeu que se dava bem na estrada e que conseguia passar isso para o dia a dia e pegar nas valências de cada um e criar este espaço”. No Haus, há um estúdio – onde decorreu esta entrevista, com Fábio Jevelim e Makoto Yagyu do outro lado, no cérebro de gravações – e três salas de ensaios (uma de Linda Martini, uma de You Can’t Win Charlie Brown e uma aberta ao público). Hélio Morais também passou para lá a sua empresa de agenciamento. O atelier de Cláudia Guerreiro é num prédio ao lado. É aqui, na zona de Santa Apolónia, em Lisboa, que os Linda Martini têm o epicentro da sua existência. Mas não o fazem sozinhos. “O facto de termos esta casa e de estarmos rodeados de amigos e de pessoas ligadas à música teve uma influência marcante neste disco. Deu-nos o espaço de que estávamos a precisar e permitiu-nos fazer um horário de trabalho. Se quisermos tocar, se quisermos falar…”, conta André Henriques.

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De certa forma, o Haus é um clube. “Passa sempre aqui pessoal, desde a nossa equipa técnica a amigos, outros tocam cá… Motiva muito essa ideia de partilha. Ainda antes de vocês chegarem, eu estava a tocar com pessoal dos Quelle Dead Gazelle, que estiveram aqui a gravar. O facto de termos este espaço, de estarmos rodeados das pessoas que estamos, acaba por nos dar condições privilegiadas para fazermos aquilo de que gostamos. É bom termos aqui as pessoas, que opinam, que passam, que fazem sugestões, que tocam contigo”, conclui a voz dos Linda Martini. Sirumba nasceu aqui. “O facto de termos o composto, quase na íntegra, aqui na sala de ensaios fez com que o Fábio e o Makoto, que co-produziram o disco, estivessem muito dentro das músicas, opinassem no momento. É um espaço de partilha muito fixe. Acaba por ser um espaço de encontro muito fixe e sentimo-nos privilegiados por fazermos parte disto tudo”, conclui Hélio.

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Segundo André, “na música, por ser uma forma de arte mais imediata, há uma ideia de que tudo é imediato, que é uma coisa que sai. Assim. Muitas vezes, sai, claro, mas, para sair, tem que haver um trabalho – e é preciso um compromisso e esse compromisso passa por isso, por marcarmos os dias, marcarmos os ensaios”. “O facto de termos este espaço permite andar a bater com a cabeça nas paredes e resultar alguma coisa depois. Antes, tínhamos um espaço onde íamos, que não era só nosso e onde estávamos só de vez em quando. Este é um espaço para estar, para partilhar música, experiências, conversas – e isso, num processo criativo, só nos dá a ganhar. Valoriza muito o processo”, aponta Cláudia. Não se pense, porém, que o acto da criação artística é um mar de tranquilidade. “É uma coisa de que gostamos, portanto, não é trabalho no sentido da obrigação mas dá trabalho”, assume André. “Houve semanas em que saíamos daqui derrotados. Completamente. Eu chegava a casa, “então? como é que correu?” “Pá, tocámos. Não saiu nada. Temos muitas partes pequenas fixes mas nada cola com nada”…”, conta Hélio. “Lembro-me de um dia em que estivemos aí, uma série de horas, só na conversa, sem tocar quase – provavelmente, o dia anterior tinha sido uma porcaria, daqueles em que tocamos o dia todo sem ter saído nada – e, de repente, fomos lá dentro e, em 20 minutos, fechámos a estrutura toda de uma música”, recorda ainda o baterista. André vai mais longe, ao afirmar que “parir um disco dá muito trabalho. É um processo esgotante”. “O trabalho criativo é duro, sai das entranhas”, completa Hélio. Mas, por sair das suas entranhas, agarra-se às entranhas de quem o ouve. Como é suposto. Os Linda Martini não sabem fazê-lo de outra forma.

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Estes são os Linda Martini em 2016. Com quatro álbuns editados. Aclamados por público e crítica. Em 2003, porém, nem eles pensavam que, um dia, estariam “aqui”. “Costumamos dar a referência de 2003 porque foi o ano em que os cinco iniciais se juntaram na mesma sala, pela primeira vez. A coisa começou ligeiramente antes porque eu, o André e o Sérgio – que já não está [no grupo] – tínhamos outra banda, que cantava em inglês, era mais do punk-hardcore”, conta Hélio. André, na altura, não era ainda dono do microfone mas “houve um concerto em que o vocalista não estava – e ele só berrava. O André cantou a maior parte das músicas e houve montes de gente que disse que, assim, estava muito mais fixe”, continua Hélio. Surgiu, aí, a ideia de fazer algo diferente. Convidaram Cláudia para tocar harmónica num ensaio, até porque “tínhamos baixista. Mas ele tocava de palheta e a Cláudia chegou lá, pegou no baixo e começou a tocar com os dedos! Para nós, aquilo foi incrível: uma banda que vinha do hardcore com um baixista a tocar com os dedos, foi uma cena espectacular. E pronto, a Cláudia ficou na banda: dissemos ao Luís que aquilo não estava a dar”, lembra Hélio. “Grande má onda”, ri Cláudia. “A má onda foi tua, que pegaste no baixo – foste convidada para tocar harmónica”, brinca Hélio. “O [Pedro] Geraldes entrou porque, supostamente, tinha um sintetizador e ia pôr samples. Nunca pôs! Acho que a primeira vez que ele tocou algo que disparasse samples foi no [concerto de Abril, no] Coliseu”, conclui Hélio. Que fique claro, porém, que “a primeira coisa que eu fiz para esta banda foi tocar harmónica no “Partir para Ficar””, aponta Cláudia. “Eu cumpri: fui lá para tocar harmónica e toquei. E, depois, toquei mais coisas”, sorri a baixista.

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Três anos depois, quando sobem ao palco do Super Bock Super Rock, os Linda Martini já se podiam orgulhar de se terem tornado uma banda de culto. “Acho que começou um pouco antes”, aponta André. “Lembro-me que, quando demos o primeiro concerto, em Lisboa – que não foi bem um concerto, foi um showcase na Fnac –, aquilo surpreendeu-nos. A maqueta [Linda Martini, de 2006] ainda não tinha sido editada e, até aí, o público dos nossos concertos eram os amigos do tempo do punk e do hardcore. Mas, nessa Fnac e no concerto que demos antes, no Porto, aquilo tinha gerado um burburinho, por causa do MySpace e de alguns fóruns da net, que nos começou a surpreender. Começámos a ter muitas pessoas que não conhecíamos, já não eram só aqueles amigos que nos acompanhavam”. Quando chegam ao palco do Super Bock Super Rock, em 2006, o primeiro grande festival em que participam, no entanto, “a coisa já tinha algum hype, o single já rodava na rádio, já havia um buzz à nossa volta. Começámos a perceber que havia ali algo diferente em relação às outras bandas que tínhamos tido. A partir daí, não parou de nos surpreender: fomos tocar a mais sítios, em palcos maiores mas também mais pequenos, demos a volta ao país”, continua. “Uma coisa que sempre nos surpreendeu foi termos muito público, irmos a sítios completamente distantes da nossa cidade e da nossa zona de conforto e termos pessoas a cantar as nossas letras. Foi uma coisa que nos escapou, de alguma forma, ao controlo”, assume. “No bom sentido”, claro.

 

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Os Linda Martini podiam ter as suas raízes no punk-hardcore mas o que tornava a sua música impressionante era a sua vertente mais melancólica. Os jornalistas apressaram-se a compará-los aos Sonic Youth (o grupo chamaria mesmo “Juventude Sónica” a uma canc+ção) mas Hélio acha que a forma como o grupo se apresentou bebeu noutra fonte. Quando preparavam o primeiro EP, ouviam “…And You Will Know Us By The Trail of Dead e o Jupiter, de Cave In. Se calhar, essas duas bandas são uma influência mais directa no que fazíamos no início do que qualquer outra. Essas bandas ainda tinham a energia do punk e do hardcore mas, ao mesmo tempo, já estavam a fazer coisas diferentes. Uma coisa boa da cena do punk-hardcore de Lisboa, da qual nós fazíamos parte, é que éramos relativamente ecléticos, ouvíamos muita coisa que fugia do som mais básico. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, estava a surgir uma cena muito grande, associada a isso, que fugia aos cânones do hardcore, também havia a cena do noise rock e do noise hardcore, uma série de sucedâneos do hardcore. Talvez por isso tenhamos assumido com uma alguma facilidade uma certa melancolia, por oposição ao que fazíamos antes”, explica Hélio. André acha, no entanto, que esse lado mais melancólico pode ser deliberado: “Acho que, quando estamos a compor, boicotamos sempre as coisas alegres. Às vezes, alguém saca um riff, uns acordes maiores, e dizemos logo que aquilo é muito alegre. Há qualquer coisa de melancólico em nós – tem a ver com as nossas influências, com o sermos portugueses, muita da música que consumimos está marcada por essa melancolia”. “O facto de termos bandas de punk e hardcore não quer dizer que fosse só isso que ouvíamos”, contrapõe Cláudia. “Ouvíamos uma série de outras coisas: eu sempre ouvi música para cortar os pulsos e, agora que tinha uma banda, se tenho oportunidade de fazer um pouco isso, vou querer”.

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Os Linda Martini atiram-se, então, aos discos – e, a cada novo registo, assim é a sua abordagem, quase como se um fosse a resposta ao anterior, como se a uma explosão tivesse que se seguir uma tremenda respiração. Como se a fúria antecipasse sempre a calmaria. Até que, em 2013, surge Turbo Lento. “Eu vejo o Turbo Lento, um pouco, como um resumo e, desse ponto de vista, até faz sentido que o Sirumba seja muito diferente. É como se o Turbo Lento fechasse um ciclo – o que não quer dizer que não voltemos lá porque nunca sabemos o que a inspiração nos traz”, diz Hélio. “Fecha um ciclo e dá abertura para que uma coisa que venha a seguir seja realmente diferente”, completa Cláudia. Após a edição de Turbo Lento – e para comemorar uma década de história –, os Linda Martini fazem uma residência de três dias no Musicbox, em Lisboa, onde percorreram, na íntegra, toda a sua discografia. Esses três concertos, segundo a baixista, ajudaram a encerrar o referido ciclo, “não quer dizer que se tenha fechado alguma coisa porque fazemos o que queremos, podemos voltar atrás ou andar para a frente, mas, se o Turbo Lento resume um pouco tudo o que tínhamos feito, o Musicbox obrigou-nos a pensar, a ver e rever tudo o que já tínhamos feito. Isso reforça a ideia de que íamos começar uma coisa nova, que se tinha fechado um capítulo – claro que é um fechar subjectivo”.

Não será, portanto, uma surpresa que o ataque de Sirumba seja feito com um arsenal distinto dos registos anteriores dos Linda Martini. Tudo começou com “Dez Tostões”. Com essa canção, o quarteto, segundo Hélio, percebeu que conseguia “fazer uma coisa bastante diferente mas que soava a Linda Martini na mesma. É uma música muito despida, tem muitos espaços, as coisas respiram. O início foi feito só pelo Pedro e pelo André, numa noite em que eles tinham só combinado de estar juntos e acabaram por fazer o esboço e o esqueleto daquilo. Depois, acrescentámos a parte mais rock, trocámos sons digitais por bateria, a Cláudia acrescentou o baixo… Mas aquilo tinha tanto espaço entre os instrumentos e, ao mesmo tempo, continuava a soar tanto a Linda Martini que nos relaxou e nos deixou à vontade para experimentar o silêncio e o espaço entre os instrumentos. Quando começámos a fazer o Sirumba, isso acabou por fluir”. O espaço era algo que os assustava? Cláudia explica: “O espaço não assusta. O mais difícil é estarmos calados: achamos sempre que o espaço é necessário mas olhamos sempre para a pessoa do lado e dizemos que, se calhar, era melhor ela dar um pouco mais de espaço. Mas é sempre o do lado: nós… é difícil estarmos calados. Acho que, desta vez, conseguimos ser um pouco mais… “maduros”.  Demos o espaço: sou eu que tenho que estar calada? Eu fico calada. É sempre muito difícil ficar calada numa música porque a pessoa quer sempre dar o seu melhor em todas as músicas – só que, às vezes, o melhor de nós é ficar calado”. Ironicamente, “Dez Tostões”, o tal motor propulsor de Sirumba, acaba por não ser incluído no álbum.

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Quando decidem destacar os silêncios, porém, os Linda Martini irrompem, de repente, mais adultos. “Tem-se falado nisso”, diz André. “Em parte, também sinto isso. O que acho é que é, talvez, o nosso disco mais descontraído”, acrescenta Hélio. Esse estado adulto, porém, não era algo que a banda tivesse em mente quando fez o disco. Só agora é que “tenho pensado um pouco nisso porque tem surgido algumas vezes”, confessa André. “A ideia de maior espaço e de as coisas estarem mais limpas e mais perceptíveis desemboca um pouco nessa ideia de estar mais adulto. Talvez eu pegasse nessa ideia de “adulto” no sentido em que foi mais pensado do que os outros: tivemos mais tempo para compor, tivemos mais espaço – e o espaço foi importante – e as coisas foram um pouco mais maturadas. Essa ideia de idade adulta aplica-se mais nesse sentido: o processo foi radicalmente diferente dos outros discos, onde fazíamos as coisas um pouco mais imediatas e a reagir ao que cada um fazia na sala de ensaios – daí, muitas vezes, essa ideia de confusão”, continua.

Sendo o quarto longa duração do grupo, a aprendizagem dos outros capítulos, tinha, obrigatoriamente, de surgir. “Já conhecemos melhor as nossas limitações e o potencial que podemos imprimir nas músicas. É maduro sem ter a ver com a idade. Tem a ver com a quantidade de vezes que já repetimos este processo. Com estas pessoas”, considera Hélio. “A cada disco que vamos gravar, trazemos coisas que aprendemos do último. Infelizmente, a maior parte esquecemos, as notas que devíamos tirar no fim de cada gravação, o que queríamos fazer de maneira diferente no disco seguinte, não tiramos. Só mentalmente… Dois ou três anos depois, quando vamos gravar, infelizmente, alguns desses apontamentos mentais desapareceram mas alguns ficam. Vamos aprendendo alguma coisa e, nesse sentido, vamos amadurecendo”, diz Cláudia.

Não se confunda, porém, essa maturidade com uma quebra no nervo que sempre fez parte da essência dos Linda Martini. “Muitas vezes, no contexto da música e dos discos, quando se fala em idade adulta pensa-se numa banda que perdeu gás, que fez um disco mais suave – e eu não quero pensar nisso nesses termos. Não quero pensar que abandonámos toda essa energia. Uma coisa que se nota muito no Sirumba – e as pessoas que já viram os concertos concordam – é que, apesar do disco ter essa maior nitidez, ao vivo, ele ganha um ruído e uma energia que, se calhar, em disco é difícil de captar. Ao vivo, essa essência, que é nossa característica, vem ao de cima e as músicas têm um músculo que, por mais que tentássemos, não teriam em disco. Não é uma idade adulta no sentido de nos aposentarmos do barulho mas é mais no sentido de nos conseguirmos distanciar e perceber o que é que cada um está a fazer e como é que pode valorizar a música. Ao vivo, é outro campeonato e as coisas ganham outra dinâmica”, conclui André.

Os Linda Martini podem provocar impacto em disco mas é no palco que tudo, efectivamente, se torna ainda maior. E nenhuma outra noite teve a dimensão de 2 de Abril de 2016 – quando o grupo deu o seu primeiro concerto em nome próprio na mais mítica sala de espectáculos lisboeta. Palavra aos protagonistas.

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André: Para nós, foi especial. Vamos recordar para sempre. De alguma forma, estávamos apreensivos – era impossível não estar. Nunca tínhamos tocado no Coliseu [dos Recreios] e era uma sala com uma capacidade maior do que aquelas em que já tínhamos tocado em nome próprio. De alguma forma, era um risco que estávamos a correr, estávamos a mandarmo-nos um pouco para fora de pé. Ainda que fosse um risco calculado: fizemos a nossa matemática tosca, pensámos em quantas pessoas é que teriam vontade de nos ver no Coliseu… Mas só tivemos a percepção verdadeira de quantas pessoas estariam quando estávamos na boca de palco, atrás da cortina e percebemos que aquilo ia realmente acontecer. Foi giro: estávamos muito ansiosos, quando vimos o público todo até lá ao fundo ficámos ainda mais ansiosos… Mas, depois, quando entrámos, houve uma calma aparente. Isso já nos tinha acontecido algumas vezes – falo por mim mas acho que eles partilham da ideia –, como na primeira vez em que tocámos em Paredes de Coura. A experiência é tão fora, e não estás à espera daquilo porque nunca o viveste, que acabas por ter uma experiência fora do corpo. Parece que não estás ali, que estás a ver pela televisão. Acho que tocámos com uma calma de que não me lembro há muito tempo. Mesmo em concertos mais pequenos.

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Hélio: Nem a seguir.

André: Sim, já demos concertos depois disso. Houve ali qualquer coisa que não se consegue explicar mas aquele nervosismo, que de certa forma podia prejudicar a nossa prestação e a nossa atenção ao que estávamos a fazer, fez com que nos saísse um peso de cima, sentimos um conforto por perceber que as pessoas estavam ali para nos ver. Foi incrível.

Hélio: Lembro-me, a meio do concerto, de pensar que era muito estranho, que estava a correr tão bem… Lembro-me de estar a tocar e a pensar que estava a correr tão bem.

Cláudia: Estávamos habituados a ver a perspectiva do palco em filmagem – mas isso é na televisão. Aqui não: as pessoas estão mesmo ali. É engraçado pensares em ti naquele palco, pensares nos concertos que já viste a acontecer naquela sala… Sempre com aquela emoção… Para nós, não foi diferente. Também houve essa emoção toda.

Hélio: O pior foi o dia a seguir.

Cláudia: O dia a seguir foi horrível! Não foi de ressaca. Foi ressaca emocional.

Hélio: Almoçámos os três juntos.

André: Tínhamos que partilhar.

Hélio: Aquilo foi tanto que, no dia a seguir, estávamos despidos. “Foda-se, estou deprimido”. Um dos dias mais incríveis da minha vida – enquanto músico e não só – e estava a sentir-me completamente drenado. Foi muito estranho.

Cláudia: Eu estava sozinha em casa e foi horrível.

Hélio: Não conseguias partilhar aquilo com alguém que não tivesse vivido aquilo. Podia ter ido ter com a minha mãe que ela não ia perceber. Tinha que ser alguém que tivesse vivido aquilo comigo.

André: Há coisas que não se explicam. Neste tipo de concerto, chegas muito cedo às salas – e o Coliseu não foi excepção –, para prepararmos o espectáculo todo, tens muito tempo de espera depois do ensaio de som, que dura à volta de uma hora, e, a seguir, estás o dia inteiro à espera. A roer as unhas, à espera de dar o concerto. Depois, tens uma hora e tal em que os teus níveis de adrenalina sobem, tens uma explosão enorme… Quando aquilo acaba, tens uma sensação de vazio.

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Sirumba termina com uma canção chamada “O Dia Em Que A Música Morreu”. Foi esse?

Cláudia: Não!

André: Nesse dia, não ouvi música.

Cláudia: Em dias de concerto, nunca ouves música, a seguir.

Hélio: Nem na viagem a seguir, no carro.

André: A seguir, queres descansar.

Cláudia: Sais do concerto e não queres ouvir nada.

Hélio: É tão bom: entrar no carro e ouvir o barulho do motor. Como vens com os ouvidos cheios, ainda sentes mais os graves do barulho do carro. Adoro.

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Regresse-se ao ponto de partida e aterre-se novamente no Haus, nesse imenso espaço de partilha, onde nasceu o espaço do qual vive Sirumba. Esse espírito de comunidade de que os Linda Martini falam acabou, na verdade, por salvá-los. De mais do que uma maneira. No meio de risos, Hélio confessa que a canção que conhecemos como “Unicórnio de Sta Engrácia” “já teve o refrão de Daft Punk com o Pharell Williams [“Get Lucky”, de Random Access Memories]. O André sacou uma guitarra e nós adorámos, “fogo, brutal, isso é mesmo catchy”. O que é que pode resultar de uma daquelas sessões em que, aparentemente, nada acontece? De repente, “estávamos todos excitados com aquilo. Estávamos a tocar,  já não saía nada há muito tempo e, de repente, eu saco aquele riff… “Eh pá, isso é muito bom. Parece que já ouvi isto em qualquer lado” – mas, às vezes, isso acontece. Quando um riff ou uma melodia é, de facto, muito boa, muito catchy, ficas na dúvida, “parece que já conheço” e isso é bom, porque, às vezes, não existe mesmo mas tem aquele apelo, parece que é reconhecível”, conta André. Os risos continuam e André também. “De repente, entra o Rafael, o nosso road manager, e diz “isso é o refrão dos Daft Punk”. Ah, ok, é melhor irmos para ali outra vez, insistir mais um bocadinho”. Gargalhada geral.

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Os Linda Martini podem parecer reticentes na ideia de que Sirumba é o seu disco mais adulto. Porém, utilizam o nome de um jogo de crianças para, de forma metafórica, baptizar o álbum. Segundo explica Hélio, “é uma memória comum. Num ano das nossas vidas, estudámos todos na mesma escola preparatória – e, naquela, havia esse jogo, a Sirumba, no chão. Mesmo que não tenhamos jogado, passámos todos por ele, pisámo-lo, vimo-lo. Quando o nome surgiu e surgiu a ideia de ser nome de disco teve piada porque era uma memória com a qual todos nos conseguíamos identificar e seria fácil de explicar, para cada um. Não tínhamos que aprender o conceito que o André tinha na cabeça – e isso deu-nos algum conforto”. “Os nomes, para nós, geram sempre alguma discussão – mais, até, do que as músicas”, assume André. “Normalmente, surgem no final: os discos – à excepção do Turbo Lento – são difíceis de baptizar. Tanto os discos quanto as músicas. Este não foi muito difícil porque o conceito surgiu com a música que abre o disco, que se chama “Sirumba”. Como era uma coisa que nos tocava a todos e era uma memória conjunta, lembrámo-nos de o utilizar”.

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Sirumba, porém, parece ser muito mais do que um “mero” título. Para Cláudia, mostra que mantêm “o sangue a ferver. Não nos aposentámos do rock e é bom que se mantenha alguma coisa de sempre, aquela coisa que está sempre lá, aquela vontade de andar a correr de um lado para o outro”. Sem se aperceber, no entanto, é André quem assume que este é um álbum de crescimento. “E é uma espécie de metáfora, sim: o disco fala de muitas coisas que aconteceram nas nossas vidas, desde esses tempos da preparatória até aos dias de hoje, e, de alguma forma, é esse jogo, brincar com essa dinâmica do que eram as nossas vidas na altura e aquilo em que nos tornámos. Ou estamos a tornar”. Os Linda Martini estão a crescer em público e o público está a crescer com os Linda Martini. Sem metáforas nem brincadeiras – porque esta é música para levar a sério.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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