Ao longo de três dias, 110 mil pessoas visitaram o Parque da Cidade, que volta a abrir portas entre 11 e 13 de Junho de 2026.
É lugar-comum dizer-se que a música é uma arma. É recurso fácil pensar-se na importância da canção de intervenção ou reforçar que quem tem um microfone na mão tem a capacidade de mudar o mundo. Porventura, nos conturbados e confusos dias actuais, esta realidade ganha ainda mais força. Olhamos para o lado e as guerras estão cada vez mais presentes, mais próximas, mais perigosamente enlouquecidas. No frenesim da informação ao segundo, assistimos a bombardeamentos em cidades que se pensavam seguras, a genocídios para o qual os principais responsáveis pela ordem mundial parecem assobiar para o lado. Talvez tudo isto esteja cada mais próximo e ninguém esteja, realmente, seguro. Quer por ter nascido com uma cor diferente, uma religião diferente, uma orientação sexual diferente. Quando, entenda-se, “ser diferente” é, apenas, não ser como nós. Como se “nós”, fossemos mais do que os outros. Como se não ser como “nós”, fosse ser contra nós. Nunca sermos “nós” pareceu tão solitário.

Ao longo de três dias, no Primavera Sound Porto, abraçou-se a diferença – de qualquer género. E, pelo menos durante o tempo passado no Parque da Cidade, foi possível acreditar que éramos livres. Todos. E houve muita liberdade: a de dançar sem pudor ao som de Jamie xx, a de sorrir com o sorriso drill de Central Cee, a de perceber que a idade é só mesmo um número, com a sabedoria rock de Kim Deal. E, porque se fala de rock, houve a liberdade do crowdsurf desenfreado de Turnstile e a subtileza folk das Haim, a escuridão das sombras elegantes dos Beach House e o indie apurado dos TV On The Radio. Se duvidas houvesse, os Parcels são os supremos embaixadores do final de tarde no Parque da Cidade, com uma festa solta e colorida que alcançou uma das maiores enchentes (e aplausos) da 12ª edição do festival da Invicta. Mas porque se falou em liberdade, é importante, também, relembrar a passagem de Anohni and the Johnsons, que tornaram o palco Vodafone numa imensa plateia mergulhada no testemunho da crueldade do desgaste dos corais.

Ao longo de três dias, a liberdade passou mesmo pelo Parque da Cidade – e não foi, apenas, nas palavras certeiras de A Garota Não, ou no pós-punk imparável dos Fontaines D.C. (que levaram a bandeira da Palestina ao palco Porto). Foi também na multiplicidade de géneros musicais, claro – do deboche de David Bruno à soul apurada de Michael Kiwanuka –, mas também na forte presença feminina – das Wet Leg a Liniker ou Surma. Sem esquecer a dona do verão verde eufórico: Charli xcx. Pé no acelerador, a britânica não precisou de mais ninguém para encher o palco, perante uma plateia que, desde cedo na tarde, já evidenciava a sua devoção. Charli é uma das rainhas do momento e, precisamente porque se vivem tempos de velocidade acelerada, talvez se pudesse pensar que o momento dos Deftones já tinha passado. O rock do colectivo de Sacramento, porém, 25 anos certos depois da sua estreia em Portugal, nunca pareceu tão pertinente, tão inspirador nas suas oscilações de tempo, tão encantador na sua constante vontade de ir mais longe. Os saltos de Chino Moreno foram repetidos por uma multidão que unia gerações, todas com a mesma vontade: a de ser livre.

Todas as manhãs destes três dias foram passadas a olhar para a televisão, onde se esperavam (boas) novas, onde os olhos não viam mais do que protestos e bombardeamentos. É seguro dizer que não estamos realmente a salvo em parte alguma: mas, ao longo destes três dias, pelo menos por umas horas, podíamos esquecer o que se passava lá “fora”. A música foi a nossa bandeira e fomos todos “nós” – é esse o verdadeiro significado de liberdade.