Numa das edições mais visitadas, o Parque da Cidade recebeu mais de 120 mil pessoas ao longo de quatro dias de música. O Primavera Sound regressa ao Porto entre 10 e 13 de Junho de 2027.
Horas depois da brutal sova dada pelos Massive Attack no Palco Estrella Damm – e mesmo após o deboche político em ritmo punk-anti-fascista dos IDLES –, a sensação de desconforto mantinha-se. Donos de ritmos que contagiam de forma sub-reptícia, o sabor que Robert Del Naja e Grant Marshall deixaram nas nossas bocas não foi a música: foi a choque. Não que tenham mergulhado num universo de ficção mas porque escancararam as mais duras realidades que teimamos em não ver quando mergulhamos os olhos na utopia das redes sociais. Por mais que se acompanhem as notícias do mundo, tudo se torna mais concreto quando é apresentado, por exemplo, em números: quantas pessoas morreram em Gaza, quantos hospitais foram bombardeados, quantos dólares foram gastos em armamento desde 2024? A resposta, em contagem crescente, a vermelho, tinha tantos algarismos que quase se tornava impossível de concretizar. Não é menos fácil o reporte de que é do Congo que são extraídas as maiores quantidades, por exemplo, de lítio. Não se limitam a escrevê-lo no imenso ecrã que dava fundo ao seu palco: os Massive Attack mostram um pequeno filme, onde se vê uma (também pequena) criança a carregar um imenso saco. É uma imagem estupidamente dura, de fazer suster a respiração. Mas não, não é um filme de terror – e, ironicamente, quando “Unfinished Sympathy” surge logo depois, o que mais se viu no ar foram telemóveis. Aqueles que precisam daquele lítio.

Quando se fala da passagem dos Massive Attack pelo Primavera Sound Porto, na derradeira noite da 13ª edição da versão portuguesa do sonho nascido em Barcelona, é impossível não falar do sabor amargo de toda aquele destruição, da mesma forma que é impossível não referir a presença etérea de Elizabeth Fraser, a densidade da voz de Horace Andy ou a fluidez de Deborah Miller. Também é impossível não referir a eternidade que as canções dos Massive Attack atingiram – recorde-se que o último álbum de originais já remonta a 2010 –, mas o que fica não tem nada a ver com a música. Aliás, no meio de tanta realidade, haverá ainda espaço para sonhar?

É por isso que a música dos IDLES deixa sabor a salvação: nasceram na mesma Bristol dos Massive Attack e carregam igualmente uma forte componente política – como, aliás, na primeira noite, também os Kneecap tinham feito, com muitos “Free Palestine” e outros tantos “Fuck Barcelona” –, mas procuram a salvação com muito suor, hinos de uma realidade quotidiana e a certeza que, com mosh, electricidade e muito suor, a música ainda tem o magnífico poder da cura. Por falar em suor, num final de tarde estupidamente quente, também Baxter Dury suou as estopinhas para um concerto memorável que não deixou marca, apenas, na sua camisa amarela: o seu electro-indie foi elegante e cativante, o seu sorriso desarmante. No dia seguinte, foi um gang rosa eléctrico que trouxe o melhor (e histórico) hip hop ao Parque da Cidade, cortesia de Mike D: ele pediu que torcêssemos pelos Knicks – sendo que a equipa da mesma Nova Iorque que pariu os Beastie Boys havia, nessa noite, de sagrar-se campeã da NBA – mas os cestos certeiros foram deste ícone, eternamente jovem mesmo quando rodeado de dois dos seus filhos.

Marcaram presença na primeira edição do Primavera Sound no Porto e regressaram não só à Invicta quanto aos palcos: foi perante uma imensa multidão que os xx revistaram a quimera composta em formato-canção que mostraram em três álbuns que arrebataram o mundo. Começaram mal tinham saído da adolescência mas foi em idade adulta que se apresentaram, com hinos que ganharam outro peso com o peso da vida entretanto vivida. Com novas versões, por exemplo, em “Shelter”, mas com uma liberdade e segurança que outrora pareciam teimar em não ter, foi um feliz regresso a um lugar onde também já tinham sido felizes. Também de volta ao Primavera Sound estiveram outros sonhos, os dos Slowdive, com a sua sonoridade sufocantemente libertadora que mistura o psych com o shoegaze mas que, em 2026, não teme levantar os olhos e abraçar a multidão.
Porém, foram os Gorillaz os responsáveis por esgotar o segundo dia de Primavera Sound Porto: e que maravilha foi o reencontro do Parque da Cidade com o imaginário animado criado por Damon Albarn e Jamie Hewlett. Vieram com a bonecada toda em pano de fundo, mas foram igualmente acompanhados por figuras de carne e osso – como quando Joe Talbott, dos IDLES se juntou à banda. E depois, enfim, depois restam as canções, a razão pela qual todos estávamos ali, de clássicos como “Clint Eastwood” ou “Feel Good Inc.” a novidades apresentadas no recente “The Mountain”, visitado não só em “The God of Lying” mas também em “The Moon Cave” ou “Delirium”. Foram, na verdade, perto de 80 minutos disso mesmo: um delírio colectivo ao qual não só merecemos como queremos mesmo pertencer. Nunca as noites do Primavera Sound foram tão quentes – nem chegaram tão alto quanto para a actuação dos MXGPU, que começaram a 30 metros de altura. Nunca foi tão bom sonhar. Sobretudo quando sabemos que a realidade é muito mais dura que a ficção. O sonho chamado Primavera Sound Porto regressa ao Parque da Cidade nos dias 10, 11, 12 e 13 de Junho.
