Home M DE MÚSICA Júlio Resende: “É difícil viver os dias sem um desafio”.

Júlio Resende: “É difícil viver os dias sem um desafio”.

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Do jazz ao fado, passando pelo hip hop e pelo rock, Júlio Resende é o exemplo perfeito da arte da improvisação, esse espaço imenso que vive no supremo terreno da liberdade.

A páginas tantas, em Cinderella Cyborg, a música de Júlio Resende volta a trazer à tona as palavras de Fernando Pessoa: não é Alexander Search, o heterónimo que serviu de mote para a banda criada, em 2016, com Salvador Sobral, mas Álvaro de Campos. Em “Acordar”, Pessoa escreveu “Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo”. Pode ser uma óptima descrição para Júlio Resende.

A sua vida ganhou rumo e propósito muito cedo quando, com quatro anos, a filha do patrão do pai rejeitou um teclado que acabou por ser aproveitado por Júlio – é o seu maior companheiro e aquele com o qual nunca mais deixou de viver. Apesar de ter estudado música clássica, afirma que os seus primeiros professores foram os discos – de jazz, o género onde assentou a sua obra e a sua aprendizagem. Tornou-se mestre na improvisação, esse cenário onde todos os desfechos são possíveis. Mas Resende, lá está, ama todas as coisas: por isso, não é surpresa encontrá-lo a remexer nos standards portugueses que são as obras do fado e mostrar como Amália pode ser ouvida de forma distinta ou, em Cinderella Cyborg, de 2018, vislumbrá-lo mergulhado numa estranha forma de amor, entre a espontaneidade da humanidade e o lado da perfeição controlada pela maquinaria.

O seu maior desafio é, apenas, um – não passar um dia sem ter algo novo para fazer, sem pensar em algo diferente para tocar ou viver. Essa será, porventura, a sua maior expressão de improvisação, aquela que pega nas coisas que se amam mas que se passam a amar de forma inédita, aquela que não se deixa render às obrigações da vida mas leva a vida mais longe. Mesmo que sejam coisas que não estamos vendo. Ainda.

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