Home Entrevista Frankie Chavez: “Isto é tudo um jogo”.

Frankie Chavez: “Isto é tudo um jogo”.

Frankie Chavez: “Isto é tudo um jogo”.
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São várias as premissas obrigatórias para narrar esta história: dos Led Zeppelin que os irmãos ouviam aos discos de Carlos Paredes que o pai preferia. Ainda é preciso falar de viagens por Barcelona e pela Austrália ou de paixões pelo surf e pelo cinema. Outros capítulos podem citar Alfama, bandas de bares, convites inesperados e uma imensa vontade de arriscar. Se a vida é um jogo, a guitarra é o naipe de Frankie Chavez – e ele nunca vira as costas à aposta.

 

Os singles que foram apresentando os álbuns de Frankie Chavez podem perfeitamente servir de bússola para descrever o seu percurso: apresentou-se com “The Search”, seguiu-se “Fight” e, mais tarde, “My Religion”. Traduza-se tudo isto da seguinte forma: no horizonte do homem que não nasceu Frankie nem Chavez está sempre a procura por fazer algo mais, algo diferente; como tal, abre o peito e assume o combate – até porque ele sabe, desde sempre, que a sua religião é o rock. É português mas carrega na alma a pátria dos blues. Cresceu em Lisboa mas, sem as vivências em Barcelona e na Austrália, nada disto seria igual. Frankie Chavez tornou-se conhecido enquanto one-man band mas a sua música nunca foi um acto solitário.

 

No princípio, era a guitarra.

 

Há uns meses, na tua página de Facebook escreveste: “it’s not rocket science, it’s blues science”. Que ciência é esta afinal?

(risos) Foi? Não me lembrava… Aquilo não tem grande ciência, acho que era isso que queria dizer. Aquilo é tão simples e tão imediato que, para tocar blues, não há que complicar – é o que é.

 

És o mais novo de quatro irmãos e desde sempre ouvias a música que eles ouviam: só que, em vez de brincares com carrinhos, brincavas com guitarras.

Com guitarras, é verdade. Desde os três, quatro anos que me lembro de brincar com guitarras de plástico – que nem sequer som tinham, na altura. Sempre fingi que estava em concertos, a ouvir Bruce Springsteen e Led Zeppelin, que eram os discos que os meus irmãos ouviam. Só comecei a aprender a tocar guitarra com nove anos mas, antes, já brincava.

 

Andas um ano e meio no Conservatório até te tornares auto-didata.

Tive aulas com o professor de música da escola durante uns três ou quatro anos. Depois, ele sugeriu que eu fosse para o Conservatório: não estive no Conservatório mas fui para uma escola que dava equivalência ao Conservatório, aí sim, com ensino clássico. Isso durou uns dois anos. Depois, deixei de ter aulas e continuei a tocar por mim e em bandas – comecei a ter bandas nessa altura, quando tinha uns 14 anos. Depois, mais tarde, quando vivi em Barcelona, é que estive outra vez numa escola – na altura, de jazz mas também por pouco tempo. Uns seis meses.

 

Quando passas um ano em Barcelona, apaixonaste pelo flamenco e pela capacidade que um só homem e uma guitarra têm de apaixonar uma audiência.

Em Barcelona, foi quando comecei a tocar ao vivo, em bares, e para mais pessoas – porque, até então, tocava mais para mim, no quarto. Mesmo com as bandas: nunca foram a lado nenhum, portanto… Em Barcelona, já sabia – ainda me andava a enganar um bocadinho – o que é que queria fazer. Comecei a pensar numa óptica de, em vez andar a tocar a música dos outros, ‘bora lá começar a escrever música minha e tentar criar uma linha, com a minha música.

 

“Isto que eu faço não está muito ligado ao fado mas é uma guitarra portuguesa a fazer um bocadinho de blues, folk, celta, é uma coisa meio estranha”.

 

De certa forma, falar de ti é também falar de viagens, não é? Passas um ano e meio na Austrália e escreves as tuas primeiras canções.

Isso veio numa altura em que eu andava a viajar muito e uma coisa influencia a outra. A minha música é bastante influenciada pelos sítios onde estive, pelas pessoas que conheci, as experiências que tive enquanto viajava.

 

No meio disso tudo, como é que começas a tocar guitarra portuguesa?

A guitarra portuguesa aparece aos 18 anos: na altura, andava a ouvir muito fado – o meu pai adora fado e eu andava a ouvir os discos que tinha lá por casa. O pai de uma amiga minha tinha um restaurante de fado, comecei a ir muito a esse restaurante e conheci um dos guitarristas que tocava lá e ele vendeu-me uma guitarra. Depois comecei a aprender: comprei um livrinho que tinha as posições e os acordes, comecei a aprender as afinações (porque tem uma afinação diferente) e comecei a tocar umas coisas. Ia lá para esse restaurante, em Alfama. Só mais tarde, quando andava a explorar outras afinações na guitarra normal é que comecei a explorar, também, a guitarra portuguesa – isto que faço, hoje em dia, não está muito ligado ao fado mas é uma guitarra portuguesa a fazer um bocadinho de blues, folk, celta, é uma coisa meio estranha.

 

Dás-lhe uma afinação diferente, não é?

Sim, dou-lhe uma afinação aberta, como se fosse uma guitarra de blues. Aquilo, quando toco, já é um acorde e todas as posições são um bocadinho diferentes mas a sonoridade com que o instrumento fica não deixa de ser uma guitarra portuguesa – mas de uma forma um bocadinho diferente.

 

Dos Toranja a Henrique Amaro – com passagem pelos Beringela Amarela.

 

O teu percurso musical começa nas bandas e nos bares mas só depois é que começas a compor em nome próprio. Chegaste a ter uma banda de garagem com contornos mais punk?

A banda punk, bom… Tinha um amigo lá no meu bairro que tinha uma bateria em casa e nós íamos para lá fazer um bocado de barulho – era mais isso. Mas o que tocávamos era isso, era punk. Mais tarde, quando já estava na faculdade, conheci um amigo do meu irmão que andava à procura de um baixista: comecei a tocar com ele e com um amigo dele – que era o Tiago Bettencourt. Ainda não eram os Toranja mas ainda toquei um ano e tal com eles – depois, fui para Barcelona e saí da banda. Como eu não tinha um caminho bem traçado, não sabia bem o que é que queria fazer, era tudo muito no ar, ia agarrando aqui e ali, ia tocando com muita malta… Quando não gostava, não tocava, quando gostava ia ficando. Foi assim enquanto estudava – só mais tarde é que decidi que isto ia ser à séria, ia ser diferente.

 

Mas como é que nesse percurso de bandas acabas um lobo solitário?

Quando vim da Austrália, criei dois projectos: um era com músicas em inglês, aí sozinho (que foi o que degenerou em Frankie Chavez) e o outro era uma banda, com originais em português.

 

Os Beringela Amarela?

(risos) Sim. Exactamente. Eram uma coisa meio de covers meio de originais, ainda rodámos uns bares, nunca teve grande expressão também. Na altura, conheço o Henrique Amaro: ele fala-me na Optimus Discos e convida-me para fazer um concerto que era daí a duas semanas. Mostrei-lhe aquilo, ele viu as músicas que haviam de ser de Frankie (que, na altura, não era porque nem tinha nome para a cena) e convidou-me para tocar. Eu ia tocar e, a seguir, tocava o Tó Trips, que eu já conhecia e fiquei logo todo excitado por ir tocar no mesmo palco que o Tó Trips. O que acontece é as músicas estavam a ser feitas em estúdio sem nenhuma preocupação de como é que iam ser tocadas ao vivo – só que, dali a duas semanas, tinha que as tocar… Então, resolvi levar um bombo e uma tarola, improvisadas, e toquei aquilo naquele formato: a cena correu bem, eu achei piada e era muito mais fácil andar sozinho do que com mais pessoal (porque depois, uns não podiam e não sei quê). Resolvi continuar a apresentar aquelas músicas assim: acabei por gravar o primeiro EP [homónimo, em 2010], pela Optimus Discos, precisamente, nesse formato – bombo, tarola e guitarra. Ainda durou uns tempos: no [álbum de estreia] Family Tree [de 2011] já comecei a tocar com um baterista (era meio meio, havia concertos que fazia sozinho e, quando eram palcos maiores, tocava com o João Correia). No Heart & Spine, assumimos o duo, para gravar, e só mais tarde é que entrou o terceiro elemento [Donovan Bettencourt].

 

“Mesmo que toque sozinho ou que tenha um projecto a solo, é fixe envolvermo-nos com outros músicos”.

 

Podias ser um lobo solitário mas sempre gostaste do lado colaborativo da música.

Começou com a Emmy Curl [em Family Tree], que era de outro universo completamente diferente. Tinha-me cruzado com ela no Misty Fest e gostei imenso do que ouvi, da voz dela, e convidei-a para gravar uma música… Acho que a música tem isso: mesmo que toque sozinho ou que tenha um projecto a solo, é fixe envolvermo-nos com outros músicos. Às vezes, é dessas coisas que nascem coisas novas e é isso que tenho tentado fazer: no Heart & Spine [de 2014], tive a Selma Uamusse e a Erica Butner, com quem gravei um dueto, no Double or Nothing [de 2017] tenho o Sam Alone… Acho que é fixe e é um resultado de pessoas que vou conhecendo, com quem me vou cruzando na estrada ou no estúdio – isso é interessante.

A tua música também surge muito ligado ao cinema: em 2009, “The Search” surge seleccionado para canção original para o Rip Curl Surf, “Slight Delay” surge em Flavours, um documentário sobre a cultura do surf na Indonésia, participas no documentário “Pare, Escute, Olhe”, de Jorge Pelicano…

Foi tudo natural… A primeira música que fiz para cinema foi com o Jorge Pelicano, através do documentário “Pare, Escute, Olhe”. Foi uma coisa natural: eu estava a gravar nos estúdios da Indie, o Jorge estava a fazer a parte de som lá, conhecemo-nos e, além de termos ficado logo amigos, eu adorei o trabalho dele (e adoro o trabalho dele) e acho que ele percebeu que a minha música também se identificava muito com aquilo que ele estava a querer fazer. O documentário dele vivia muito de imagens e a minha música respeita muito as imagens. Pelo menos, nesse documentário foi isso que se fez e acho que casou bem. Acho que a minha música é muito cinematográfica, de alguma forma: não toda mas uma parte da minha música é muito cinematográfica, dá espaço para as imagens sobressaírem. Não é a música que está a ofuscar as imagens nem as imagens a ofuscar a música, acho que são duas coisas que se cruzam bem. Acho que aquele casamento foi natural.

 

Nesse documentário, referes uma Martin de 1957. É a tua guitarra mais antiga?

É a minha guitarra mais antiga mas não é a que tenho há mais tempo. Tenho lá mais uma ou duas dessa altura mas essa é a mais antiga.

 

Três álbuns e quatro filhos depois.

 

Estreias-te com Family Tree, que era um blues mais folk; segues com Heart & Spine, onde colocas o pé no rock mais eléctrico. Nessa linha, o Double or Nothing é quê?

(risos) É mais maduro: acho é um bocadinho das duas coisas. Tem músicas muito calmas, muito folky, e tem coisas muito eléctricas, muito violentas, até. Por outro lado, também quis arranjar um meio termo: o Heart & Spine era mesmo lá em cima e cá em baixo – este, tem mais temas intermédios, tem outros ambientes que tentei explorar que, se calhar, ainda não tinha explorado tanto, de rock mais 70s, sem obedecer a ideias como “as músicas têm que ter três minutos e não podem ter mais”… Ali não houve disso. Houve músicas com 10 minutos, houve músicas com sete – tentámos deixar que as músicas falassem e, sonicamente, as coisas estão mais entregues à forma instrumental de uma maneira mais livre, tanto a nível eléctrico quanto a nível acústico. Há ali coisas que são pura deambulação e isso é fixe: principalmente, numa altura em que a música é tão formatada, tão plástica, tão “tem que ser assim senão não passa na rádio”… Não quisemos fazer isso assim: tem que ser assim porque gostamos que assim seja, porque é assim a música que gostamos de ouvir e porque é assim a música que gostamos de fazer, acima de tudo.

 

Para gravares o Heart & Spine, tiveste que recorrer ao crowdfunding – e apresentas o disco com um single chamado “Fight”. O que é que aconteceu nos três anos que intervalam estes dois álbuns?

Houve muita estrada, muitos concertos… Houve um amadurecimento, a nível musical e pessoal – entretanto, fui pai, outra vez, de duas gémeas. Double or Nothing! Acho que isso levou a que tivéssemos mais certezas daquilo que não queríamos fazer. Andar na estrada e tentar fazer cada vez mais concertos faz com que pensemos que, em vez de estarmos preocupados em tentar que as pessoas venham atrás de nós, o que temos que fazer é tocar a nossa música, vamos tocar a nossa música… Digo “temos” porque isso aconteceu numa altura em que eu e o Joca tocámos sempre em duo, um ano depois entrou o Donnie e temos sido um trio já há algum tempo. Criou-se uma identidade e acho que foi essa identidade que quisemos gravar agora no Double or Nothing.

 

“Nos concertos, tento que a entrega seja total. Quero que aquilo seja mesmo à séria”.

 

Double or Nothing é a aposta que fazemos quando temos a certeza na mão que temos.

Ou não! (risos) É o risco: acho que este disco espelha bem – ou pelo menos foi o resultado de – uma aposta nossa, “isto é o que temos, vamos com isto e logo se vê”. Vamos a jogo. Isto é tudo um jogo – a vida é um jogo. Parece-me.

 

A música é a tua vida mas aquilo que fazes em todos os 31 de Dezembro é surfar.

Tento. Nos últimos anos, tem sido em Sagres, que é um sítio que adoro: nem sempre está bom para surfar… Nem me lembro se neste 31 surfei, aquilo estava tão mau… Não, estou a lembrar-me: surfei, surfei, mas estava mau. Tento sempre, pelo menos, molhar o fato e a prancha e ir lá para dentro.

 

Quando sobes ao palco, pensas que amanhã isto tudo pode acabar – cada concerto é tocado como se fosse o último?

Sempre. Isso faz com que a entrega seja total – ou eu tento que a entrega seja total. Porque pode ser a última vez que vou tocar e eu quero que aquilo seja mesmo à séria.

 

O teu primeiro single chamava-se “The Search” – essa busca nunca há-de acabar, pois não?

Não. Não vai. Não vai e acho que isso está presente nos discos que tenho feito: desde o primeiro que era em formato one-man band, até agora, que vamos ser quatro na estrada… Não sei o que vai ser o próximo mas vai ser seguramente diferente porque não me quero acomodar e não quero repetir formatos de música. Claro que há coisas que ouves no Double or Nothing que lembram o Family Tree ou o EP mas o que não quero é repetir-me e fazer a mesma coisa. Quero abordar as músicas de outra maneira: acho que isso é um processo, na forma como vejo a música, que tem que ser constante. Se não, morremos.

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