Home Entrevista Xinobi: “O punk ensinou-me a ter humildade”.

Xinobi: “O punk ensinou-me a ter humildade”.

Xinobi: “O punk ensinou-me a ter humildade”.
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Roubou o nome de um jogo de ninjas para baptizar a sua persona artística: a veia musical começou no punk mas foi na electrónica que conquistou o mundo. Metade da Discotexas, depois de vários singles e remisturas, atirou-se às edições em nome próprio. O primeiro álbum podia ser uma espécie de best of do seu percurso mas, no segundo tomo, o homem que passou pelos Vicious Five trouxe à superfície as raízes punk. Xinobi não é um lobo solitário mas ainda carrega a estética “do it yourself”.

Em finais da década de 1980, a Sega lançava um action game ao qual chamou Shinobi – e onde se desenrolavam as aventuras do ninja Joe. Três décadas mais tarde, continua a ser esse o nome que Bruno Cardoso usa quando lida com a sua personalidade artística: e faz sentido. Bruno tem, de facto, algo de ninja. DJ, produtor, amante da electrónica, o seu coração tem um pulsar punk, o mesmo que o trouxe ao olhar do grande público enquanto membro dos saudosos Vicious Five. Parece improvável que um punk-rocker se tenha tornado produtor de electrónica? Que um homem que trabalha como DJ seja adepto da figura do álbum? Do skate às belas artes, do punk às pistas de dança, a história de Bruno faz muito sentido. Faz todo o sentido.

 

A verdade é que a vida de Bruno Cardoso aka Xinobi podia ter sido muito diferente se, um dia, não tivesse partido um braço. “O meu pai tinha duas violas [e deu-me uma]: estavam lá para casa e eu peguei nela, durante um bocado de tempo – até me fartar de estar a tocar a mesma nota, constantemente, porque é uma boa forma de decorar acordes… Estar ali, a sofrer, a sofrer e a rebentar com os dedos todos. Borrifei-me para a guitarra: peguei no skate e parti um braço, tive que fazer exercícios com a mão – a guitarra estava ali ao pé e foi uma bela ideia. Comecei a fazer os acordes outra vez e a tocar por cima de discos que estavam lá para casa”. Depois de, como diz, “aprender as notas todas”, continuou a tocar – no conforto e no isolamento da sua casa. Mais por inevitabilidade do que pelo prazer da aventura musical solitária. “Não havia mais ninguém. Lembro-me que, a dada altura, houve um puto, lá perto de casa, que comprou uma bateria e a minha guitarra era acústica mas dava para amplificar: o que era uma maravilha! Lembro-me de rebentarmos com a aparelhagem toda porque ligámos a minha guitarra e puxámos aquilo ao máximo para se poder ouvir com a bateria – não havia amplificador, havia uma aparelhagem. Não tinha amor por tocar sozinho só que não tinha mais ninguém com quem tocar”.

A música, porém, parecia estar sempre lá: o primeiro disco que comprou com o seu dinheiro “foi um álbum dos Faith No More, é capaz de ter sido o Angel Dust”. Além da banda de Mike Patton, Master of Puppets, dos Metallica, também entrava na sua discografia. “Essa cassete comprei quando fui à Expo 92, acho que fui com os escuteiros – eu andava nos escuteiros! Acho que nunca tinha admitido isto… Andava nos escuteiros, fomos à Expo 92 e, vá-se lá saber porquê, vamos parar a um supermercado (se calhar, fomos comprar umas latas de atum ou assim) e havia uma bancada de música infinita: que tinha [à venda] a cassete dos Metallica, mais barata do que cá. As pesetas que tinha eram suficientes para comprar comida e comprar a cassete. Lembro-me que também havia o The Wall, dos Pink Floyd, traduzido: “El Muro”. Devia ser impecável”. Figura perfeitamente anacrónica no século XXI, as cassetes foram também as fiéis depositárias das primeiras experiências musicais de Bruno. “Gravava algumas coisas mas, provavelmente, não era nada de memorável, porque não as guardei. Houve uma altura em que foi lá parar a casa um gravador com dois decks e eu conseguia gravar uma guitarra, fazer “play” na cassete onde estava essa guitarra gravada e começar a gravar noutra, com o que eu também estava a tocar, por cima”. Eis a sua primeira mesa de mistura. “Exactamente”.

 

Punks not dead.

 

Bruno podia não saber mas, desde sempre, havia algo de punk em si. Como quando entra num curso de Artes Plásticas, na Faculdade de Belas Artes, em Lisboa, e acaba a fazer algo completamente diferente. “Fui estudar Artes Plásticas mas, a dada altura, há uma cadeira de audiovisuais onde, teoricamente, aprendemos a trabalhar com vídeo, a fazer trabalhos com vídeo – para o curso de artes plásticas, por haver muito a cena da vídeo-instalação. Comecei a gostar de fazer vídeo mas não exactamente para a vídeo-instalação: comecei a achar piada à possibilidade de fazer “videoclips”, por exemplo, ou de ilustrar músicas que fazia com vídeo, não necessariamente com “videoclips”. Gradualmente, na faculdade – porque também fiz mestrado –, os meus trabalhos passaram de, primeiro, pintura, depois vídeo e acabaram por ser só som. Ou seja, o meu último trabalho na Faculdade de Belas Artes é um trabalho maioritariamente sonoro – nunca percebi muito bem o que é que os professores pensaram daquilo… Tive boa nota – é curioso! Podem ter achado que estava bem feito – mas nunca percebi, realmente, o que é que acharam de ter acabado a fazer som numa escola que se dedica mais às artes visuais”.

Mas, no início, como dito antes, houve o punk, que “aparece muito antes. Por exemplo, num bar em Carcavelos: não me lembro como é que se chamava mas lembro-me de vir cá parar para um concerto de uma série de bandas da escola de São João (adoro dizer “bandas da escola de São João”… A maior parte das pessoas andava na escola de São João, eu andava na Parede!). Vim aqui aterrar: eram os No Class Youth, os Fuzz, os When All Get Together, os Crise Total… Não, os Crise Social, que os Crise Total eram de Lisboa! Basicamente, eram 200 putos à chapada, a ouvir uma banda a tocar a abrir: fiquei logo fascinadíssimo. Já tinha umas belas cassetes em casa mas foi uma das primeiras vezes em que estive completamente desprotegido – já tinha ido a concertos, tipo, dos Guns N’ Roses, dos Metallica, mesmo a um ou outro concerto punk, mas sempre com a presença de um adulto, de uma pessoa protectora. Aqui fui completamente desprotegido, a primeira vez em que senti mesmo a cena “ahhh, estou aqui sozinho” – quer dizer, estava com amigos mas com a minha idade, nesta selva”. Boa parte da educação musical de Bruno chegou por via familiar e o punk não foi excepção. “Apareceu com a colecção de discos do meu tio: ele estava sempre a mostrar-me cenas e, algures, devem ter aparecido os Ramones ou assim e a coisa começou logo a interessar-me”. Seguiu-se o grupo de amigos: “aqui na escola – as revistas de skate traziam umas cassetes com os Bad Religion, alguém conseguiu comprar uma cassete dos Bad Religion em Macau (porque os pais viviam lá e ele ia lá de vez em quando e trouxe)”. E, depois, vieram os X-Acto, o colectivo da linha de Sintra que, em 1993, edita um split-CD com os Inkisição: “o CD era altamente – custava dois contos (em vez de custar três contos e meio como todos os outros CDs). Numa investida que fiz por Lisboa, com a escola, não sei se fui à Torpedo ou à Xaranga, que eram no centro comercial que havia na estação de comboios do Rossio, e trouxe o CD dos X-Acto e outra coisa qualquer da qual não me lembro. Esse CD mudou-me um bocado a perspectiva da vida: apesar de ser todo muito tosco era o que os Bad Religion e os Dead Kennedys me davam musicalmente mas com as letras em português, que eu rapidamente compreendia (as que eram em inglês não compreendia tão bem). De repente, apresentam-me assuntos como a tourada não sendo algo exactamente bom (ou como sendo algo mais do que um programa de televisão, eu nunca tinha pensado nisso), apresentaram-me o vegetarianismo, o straight edge, politicamente, à anarquia (sem ser a doutrina do caos mas o sistema regulado por coisas boas)… E a uma data de outros assuntos: a objectivação das mulheres, o consumo, as drogas – tudo, infinito, e eu reconhecia-me no conteúdo das letras deles. Esse CD foi uma viragem gigante: hoje em dia, olho para ele e penso que não atrai nada, é uma capa a preto e branco, super mal feita, com as letras muito pequenas… Qualquer puto, hoje em dia, que olhasse naquilo, ia descartar mas, naquela altura, agarrei-me aquilo”.

Os X-Acto tornam-se uma banda de culto e a sua música acaba por provocar o ímpeto da criação em boa parte do seu público: assim nascem, por exemplo, os Vicious Five que, segundo Bruno, “foi a primeira banda que, creio, tanto eu quanto os meus colegas de banda, levámos realmente a sério, que deixou de ser só aquela banda de putos, que estava na garagem, que dava concertos no Ritz, às vezes, ou na Casa Ocupada. Foi do género “’bora tentar fazer algo mais” – não necessariamente “vamos viver da música”, etc, etc, mas “’bora tentar sair do circuito que amamos mas que já não nos consegue dar muito mais. Fizemos uma banda que durou cinco ou seis anos e que foi, basicamente, um projecto paralelo ao que eu ia fazendo em casa”. O guitarrista Bruno Cardoso já escondia, então, “um segredo” – o punk podia ser a sua esposa mas a electrónica era a sua amante.

 

Last night, the DJ saved my life.

 

Há um mito criado à volta da criação de Xinobi que não podia estar mais errado: a maioria das pessoas pensa que Xinobi pegou nos pratos e na mesa quando Bruno pousou a guitarra. “É mentira”. Qual é a verdade? Qual Bruce Wayne e Batman, Bruno nunca deixou de ter Xinobi em si. “Comecei antes dos Vicious Five: mal houve internet na Faculdade de Belas Artes, tentei logo arranjar forma de fazer música em casa, com um software que tinha ouvido que havia, para fazer música. Demorei três ou quatro dias para fazer o download de um programa com três megas – é uma realidade distante! – e comecei aí: devia ser 1998 ou por aí. Ainda muito imberbe, não sabia o que é que andava a fazer mas era divertido: os meus pais não gostavam muito porque comecei a estudar ainda menos (eu tinha boas notas! Quer dizer, na universidade, as notas já não eram assim tão boas mas ia tendo), comecei a distrair-me um bocado do que devia realmente fazer.

Os Vicious Five apareceram cinco anos depois: já comigo a mexer na electrónica mas quando a electrónica era uma cena de casa. Para mim, nessa altura, era uma cena solitária – estava lá, chegava a casa, da escola, fazia os exercícios de Geometria Descritiva, estudava uma bocado de História de Arte, aborrecia-me, ia até ao computador e ficava acordado até às quatro”. Antes do ponto final no percurso dos Vicious Five, em 2009, já Xinobi andava a dar cartas enquanto produtor de electrónica. Alguém se lembra da importância do MySpace? Bruno sim, já que foi nessa plataforma que começou a colocar as suas primeiras experiências no universo da música mais dançável. “[Aquilo] começou a ganhar uma espécie de cultozinho, havia pessoas interessadas, para meu grande espanto. “Mas quem é que são os burros que estão a olhar para mim como alguma coisa que é importante?!”. Começaram a chamar-me para ir tocar aqui e ali: eu não sabia ser DJ, não sabia tocar electrónica, ainda hoje não sei tocar teclados – é uma cena ainda nova para mim”. Como Bruno na guitarra, Xinobi é auto-didata na maquinaria necessária para o acto da produção e do gira-disquismo. “Quando faço live, como banda, tenho uma miúda comigo – que toca piano e canta – que fez a escola de música e que, para se orientar, tem que escrever a música. Eu não: tenho que saber tudo de cor – ela também decora mais ou menos mas tem a cábula ali. Eu não sei ler [pautas]: para mim, aquilo são gatafunhos. Não me lembro de nada do que dei na escola, nada, zero”.

“Day Off” é a primeira edição de Xinobi a dar nas vistas: estava-se em 2008 mas, um ano antes, com Moullinex, já criara a Discotexas, um projecto editorial que é também banda, produtora e laboratório criativo. É na Discotexas que Bruno acaba por aplicar não só o espírito ninja do seu nome artístico mas também os ensinamentos do punk. “Eu e o Moullinex fizemos uma editora: aprendemos à balda como é que as coisas se fazem, até as sabermos fazer mesmo bem, sabermos trabalhar em grupo em prol de algo que seja bom, sabermos como mandar fazer um disco, sabermos o que é necessário para fazer um disco, sabemos como mandar fazer merchandising (eu sei fazer mas não ia ficar muito bem feito – como tal, vou mandar fazer com a pessoa de quem mais gosto que faça, que também vem da mesma escola que nós). [O punk] Ensinou-me, por exemplo, a – quando vou tocar fora e alguém me dá um hotel mesmo bom –pensar “wow, isto é altamente” mas também me ensinou que, se me derem um chão, até posso estar a ficar mal habituado mas era assim na altura e não tem mal nenhum. [O punk] Ensinou-me a ter alguma humildade, a olhar para isto tudo com alguma humildade – se há coisa que o do it yourself e o punk-rock são é sinónimos de humildade. Nem sempre são mas acho que deviam ser”.

 

On The Quiet

 

Xinobi diz que faz a música que gosta de ouvir. Também se confessa apaixonado pelo ideal de álbum. Por isso, não é de estranhar que, depois de assinar vários singles e remisturas, se tenha atirado à aventura do seu primeiro longa-duração. “Se pensar nos singles, por norma, que sejam música de dança mesmo, faço-os de forma a adequarem-se mais ou menos à minha “fórmula de DJ”: que é, precisamente, criar altos e baixos, ter o máximo de dinâmica possível, mesmo ter zonas e momentos grandes sem beat – é uma coisa que adoro fazer, chatear um bocado a audiência para depois entregar as coisas de uma forma muito mais interessante. Creio que grande parte das minhas produções reflectem isso”. Assim nascia, em 2014, 1975, descrito pelo seu autor como “dez músicas, [feitas] em tempos diferentes. Juntei-as tipo num best of – ou seja, foi unir 10 músicas num álbum”. Três anos depois, publicava On The Quiet. “Fiz a coisa de forma a que fosse mesmo um álbum, uma coisa mais homogénea: as músicas estão todas pegadas, tentei quase dar a noção de uma música só… Acho que vai buscar muito mais ao meu passado – sem dúvida. Muito mais. É menos disperso”. É em On The Quiet, que começa com uma canção chamada “Skateboarding”, que se pode ouvir, por exemplo, Ian MacKaye, dos Fugazi. “Tentei que não só as músicas tivessem altos e baixos mas também que o disco tivesse essa dinâmica gigante entre, de repente, ser muito alto e, de repente, ser quase silencioso (tenho momentos quase silenciosos, no disco). Conferi-lhe até uma data de texturas para manter esse silêncio interessante, digamos”. Além dos instrumentos e da maquinaria, em On The Quiet surgem também outros apontamentos. “Comecei a usar o ruído de fundo como terapia para o nervosismo e a ansiedade. Depois, quando comecei a fazer música nova, experimentei pôr um “white noise” – que, teoricamente, também ajuda a acalmar – nas músicas. Não sei… Aquilo começou a soar-me bem: pus nas músicas todas, acrescentei uma passarada, umas águas, assim uma cena meio hippie quase, new age, mas que me sabe bem. Acho que ficou bonito: dá um encanto cinematográfico à coisa”. Mais minimal e recheado de camadas, é também em On The Quiet que a atracção de Xinobi pelo universo das bandas sonoras se torna mais evidente. “Gradualmente, gostava de passar para o universo das bandas sonoras: hei-de cansar-me de andar sempre aí de um lado para o outro… Acho eu… Mas daqui a uns anos! Não é já”, confessa.

 

James Murphy, O Clube dos Poetas Mortos e Ennio Morricone

 

Pode parecer que os LCD Soundsystem e Ennio Morricone não têm nada a ver. Ou até que O Clube dos Poetas Mortos é um alien em toda esta equação. O que é que todos têm em comum? Fazem parte da vida de Bruno.

Entrem os LCD Soundsystem.

Eu explico. A minha mulher conheceu-me na projecção do documentário dos LCD Soundsystem mas eu não a conheci nesse dia. Não sei se isto é segredo… Acho que ela me fisgou: eu, com os meus amigos, a ver o documentário e a dizer “coitados dos LCD Soundsystem, acabaram quando eram os maiores” – que é uma cena clássica. E ela… devia estar muito interessada era em ver rapazes. Escolheu-me a mim: obrigado.

 

Em 2014, em entrevista, Xinobi confessou que gostava de colaborar com o Ennio Morricone e com The Scientist – juntos. É caso para perguntar o que tem andado a fazer para que esse sonho se torne realidade.

Nem me esforço. Era demasiado longínquo, acho eu, acho que não vai acontecer… [Se acontecesse,] acho que olhava para eles e punha-me a correr, bazava, cheio de medo e de vergonha. Ou seja, é um desejo que está muito longe daqui.

 

Para receber 2017, na sua página oficial de Facebook, Xinobi partilhou uma imagem extraída d’O Clube dos Poetas Mortos. Lia-se a legenda “make your lives extraordinary”.

Não sei se essa frase é mesmo algo que ele [a personagem de Robin Williams] diz (se foi escrita para o filme) ou se é “quote” de algum poeta. Provavelmente é… Acho que estávamos na viragem para um ano muito complicado, com tudo o que se está a passar no mundo, com esta merda toda (posso dizer assim?)… As pessoas têm medo de fazer uma data de coisas, seja por causa do terrorismo seja pelo que for, e acho que, mais do que nunca, está na altura de viver a vida e fazer dela algo super-especial… Estava a ver esse filme, na altura do Natal, e guardei esse frame, assim de repente. Pensei “isto é alto mote para 2017” – ou para qualquer ano vindouro.

 

Assim de repente, citando Xinobi, parece “alto mote” para o que ele tem vindo a fazer: tornar a sua vida – e a de quem por ela é tocada – extraordinária.

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