Home Entrevista Manuel Fúria: “Todos os meus discos procuram o bem”.

Manuel Fúria: “Todos os meus discos procuram o bem”.

Manuel Fúria: “Todos os meus discos procuram o bem”.
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Pode parecer que este caminho começou a ser traçado há quase uma década mas a viagem de Manuel Fúria vai bem mais lá atrás: até porque a sua pop não tem idade nem época. Não ficou satisfeito com as suas primeiras canções, cresceu dividido entre a realidade urbana e o ambiente bucólico, trocou a filosofia pelo cinema mas, acima de tudo, tornou-se um dos expoentes de uma nova tradição na música portuguesa: uma pop descomplexada e orgulhosa da sua existência.

O ímpeto de Manuel Fúria não é novidade – mas nem por isso deixa de causar o mesmo espanto que, outrora, provocaram figuras como António Variações ou os Heróis do Mar. A total assumpção de uma existência pop, muitas vezes, e para os Velhos do Restelo, parece quase uma blasfémia. Como com quase tudo, Fúria não parece preocupado com isso. Dono de sentido de humor mordaz, é produtor, editor, compositor mas, antes de mais nada, é um artista pop: com um pormenor de sobeja importância. A sua pop é uma pop portuguesa, cantada em português, com influências dos vultos da música pop portuguesa, com referências à cultura portuguesa. É música do século XXI mas que bebe noutras raízes: sem tempo e sem estar preocupada com o tempo – já agora, nem com o espaço.

A capa do terceiro álbum de Manuel Fúria – com Os Náufragos –, Viva Fúria, pode trazer à luz emblemas marcantes da Lisboa dos 1980s (como o Centro Comercial das Amoreiras, por exemplo, inaugurado em Setembro de 1985). Mas, para falar de Manuel Fúria, é preciso sair da capital portuguesa que o viu nascer. Os pais haviam de mudar-se, pouco depois, para Moreira do Conde, assentando, mais tarde, em Santo Tirso. Não é, por isso, de estranhar que, numa espécie de A Cidade e as Serras em formato-canção, a sua música acabe por reflectir esse misto de bucólico com ser urbano. “Cresci mais ou menos dividido entre a realidade de Lisboa e a realidade Santo Tirso – sobretudo por ter crescido em Santo Tirso que, como as pequenas cidades do Vale do Ave ou do litoral, [estavam] encravadas numa certa ideia de progresso, depois do 25 de Abril e nos anos 80, e na sua matriz rural. São cidades onde é possível ver um Ferrari a ultrapassar um tractor. Não sendo apenas a diferença entre Santo Tirso e Lisboa – entre uma cidade pequena e uma cidade grande, uma cidade com uma propensão mais rural e uma metrópole –, também Santo Tirso já tinha essa propriedade em si, de estar encravada entre duas realidades ou de ter a sua identidade partida por querer ser uma coisa que, originalmente, não era. Acho que isso, de algum modo, esse espaço de território, esse espaço geográfico e urbanístico, também tem a ver comigo e também tem a ver a sensibilidade que se foi gerando dentro de mim”. O regresso a Lisboa faz-se com a Filosofia no horizonte: “Fui para [o curso de] Filosofia porque queria fazer filmes, queria fazer Cinema, e achei que para fazer Cinema tinha que tirar o curso de Filosofia. Mas depois, a meio do percurso, resolvi adiantar as coisas e fui para a Escola de Cinema”.

 

Amantes Furiosos

As primeiras canções, reza a lenda, foram assinadas na pré-adolescência – mas não satisfazem o seu autor, que não encontra a tradução musical para a sua forma de comunicar. As palavras podiam faltar mas as influências já estavam todas lá. “Numa primeira fase, vêm dos meus irmãos porque cresci a ouvir a música que os meus irmãos ouviam. Eles são mais velhos que eu, 10 e 11 anos mais velhos do que eu. Portanto, quando tive idade para começar a ouvir coisas, eles já as ouviam e eu apanhei com os discos dos meus irmãos”. O pai, um dos maiores coleccionadores de vinil em Portugal, acaba também por desempenhar um papel fundamental. Dessa forma, Manuel teve “a possibilidade de descobrir coisas sem um grande esforço, por ter uma colecção grande de discos à qual tinha acesso. Descobri muita coisa: lia qualquer coisa na [revista britânica] Mojo ou na BLITZ ou na Monde Bizarre (as coisas que eu lia na altura), e podia, depois, procurar e ver se existia ou não – e ouvir”. À medida que a sua personalidade musical vai ganhando cada vez mais músculo, também há evidências que começam a despontar: as referências a um imaginário da pop nacional dos anos 80, na obra colorida de nomes como António Variações ou Heróis do Mar. Pode parecer um exercício de memória mas não há, por aqui, cheiro a nostalgia. “É a música que está dentro de mim: nesse sentido, não há uma agenda nem um projecto de querer provar seja o que for através disso. É o que é: é a música que tenho dentro de mim. Podia ser outra mas é esta”.

Por volta de 2007, Manuel Fúria traça o seu plano de vida: primeiro passo, a criação da Amor Fúria, uma nova editora independente – ou melhor, uma “companhia de discos”. “De repente, ao criar uma editora minha – ou nossa, porque era de mais gente – consegui dar razão a uma série de coisas que eram importantes. Por um lado, não ter que depender de ninguém e não ter que receber aval nem autorização de ninguém para fazer coisas. [Não gostava d’] A ideia de alguém, sentado num escritório, poder ter alguma espécie de domínio ou de autoridade sobre as coisas que eu fazia e as coisas que outras pessoas também faziam – [procurávamos] a ideia de autonomia e de podermos fazer as coisas sem pedir autorização e fazê-las acontecer ao nosso ritmo, segundo a nossa agenda”. Mas a Amor Fúria pretendia ser mais do uma “mera” editora. “Tenho um lado cinematográfico ao fazer as coisas – gosto de criar redes de significados e que as coisas não aconteçam só porque sim. Uma capa é o que é porque tem relação com uma ideia maior do que ela – e assim sucessivamente. A maneira como nos apresentamos, o que vestimos, as canções, toda a parafernália de elementos que constituem aquilo que pode ser uma banda pop não acontecem por acaso. De algum modo, criar uma editora que, também ela, pudesse fazer parte de uma ideia maior do que só fazer discos ou organizar concertos, agradava-me. Por outro lado, na altura, havia um grande buraco numa série de coisas que, para nós, eram importantes – especificamente, fazer canções pop-rock e cantá-las em português. Isso era uma coisa importante para nós e achávamos que era um espaço que devíamos ocupar e que devíamos trabalhar nesse sentido e reunir à nossa volta outras bandas e outros artistas que estivessem a fazer o mesmo – e poder estimular mais gente a fazer o mesmo”.

Ao longo da sua existência, a Amor Fúria publicou perto de três dezenas de discos, assinados por nomes como Os Velhos, Tiago Lacrau, Asterisco Cardinal Bomba Caveira ou Feromona. É, também, na Amor Fúria que surgem Os Golpes, colectivo onde Manuel alinha e que encontra aclamação pública, por exemplo, com G, que conta com a participação de Rui Pregal da Cunha, o vocalista dos Heróis do Mar, e em momentos como “Vá Lá Senhora”, de 2011. Porém, meia década depois, da mesma forma que nasceu, a Amor Fúria morre – de morte natural, entenda-se. “Quase 10 anos depois, apercebemo-nos que foi um tempo que acabou – por várias razões. O ritmo editorial não era aquele que mais nos agradava nem era aquilo que desejávamos, não correspondia às nossas exigências e não víamos grandes hipóteses disso mudar. Por outro lado, há uma fase na vida em que estas coisas podem acontecer – sobretudo, quando não há muito dinheiro a tirar destas coisas. Há uma altura na vida própria para isso acontecer: quando somos mais novos do que aquilo que sou agora, em que há uma disponibilidade maior, maior capacidade de entrega a coisas que, provavelmente, não vão levar pão nem vinho para a mesa. Portanto, achámos que era altura de acabar: também por termos tido sempre este lado mais cénico, e de encenarmos coisas, de fazermos coisas que queríamos que fossem grandes e bem feitas, de algum modo, achámos – mesmo à luz de ser um movimento pop ou uma editora que está envolvida no universo da cultura pop – que o ideal não seria deixar o cadáver apodrecer mas organizar-lhe uma grande festa, reunir toda a gente e fazer uma programação, durante um mês, de exéquias”. Segue-se uma espécie de celebração à la Nova Orleães. “Fizemos várias coisas: uma programação numa loja de discos que é a Flur (tivemos uma banca especial), fizemos o funeral no Musicbox, em que reunimos, basicamente, as bandas todas que fizeram parte do percurso e, uns dias depois, fizemos um Magusto de Sétimo Dia em que, além das bandas e dos artistas que editaram, de facto, por nós, reunimos uma série de amigos que não tinham directamente a ver com a editora mas que são pessoas também importantes neste percurso. Durante uma tarde inteira, estivemos a cantar e a assar castanhas e a declarar o fim de um momento especial nas nossas vidas”.

 

Os lírios e os arranhões em tríade por completar

Alem d’Os Golpes, Manuel Fúria começa, também na Amor Fúria, a definir a sua personalidade musical em nome próprio. O primeiro passo surge logo em 2008, quando publica As Aventuras do Homem-Arranha”, um disco ao qual, à distância, chama “amador”. “Sobretudo, pelo modo como foi feito. Foi gravado em casa –numa altura em que gravar em casa não era tão comum e tão passível de gerar um som aceitável como é hoje em dia. Hoje, é perfeitamente possível fazer um disco que se grava num quarto e as pessoas não percebem – na altura, não. Foi gravado num quatro pistas, tem um som muito roufenho, foi o Tiago Guillul que produziu e, portanto, tem aquele som que ele procura, mais defeituoso, mais áspero. Por outro lado, a edição foi um CD-R, com quatro ou cinco canções, foi descomprometido. Foi um disco feito numa altura em que Os Golpes pararam: aproveitei esse tempo para concretizar quatro ou cinco canções que tinha na algibeira e em relação às quais procurava um ambiente menos de banda rock e mais livre”. Cinco anos mais tarde, surge Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo, o segundo tomo de uma tríade e um disco, nas palavras do seu autor, cheio de boas intenções. “Aliás, como são todos os meus discos: são cheios de boas intenções. Não é boas intenções no sentido mais comezinho ou mais brando – são boas intenções no sentido em que são discos que procuram de facto o bem e que procuram trazer à luz coisas que acredito que são boas para toda a gente”. Entre Homem-Arranha e Contempla os Lírios do Campo há um conceito unificador, que culminará com um capítulo #3 que ainda falta gravar mas que “concluirá os caminhos desses discos. Mais uma vez, é este meu lado cinematográfico de criar grandes coisas à volta de coisas mais pequenas”. Viva Fúria, editado em 2017, “foge a essa lógica: não tem uma ideia fundadora. Quando comecei a trabalhar as canções, em banda, do disco Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo, por exemplo, já sabia perfeitamente como é que aquilo ia ficar. Ou seja, era um trabalho de eu dirigir os outros músicos para chegarem a uma canção e a um arranjo que já estava perfeitamente definido na minha cabeça. Sabia muito bem aquilo que ia, tinha uma ideia muito definida e muito clara, a todos os níveis – o Viva Fúria, não. É um disco mais livre, nesse sentido. São canções que foram sendo feitas e que, depois, [com os Náufragos] reunimos e organizámos num disco. Foi ao contrário: quando organizei as canções, percebi que havia alguns temas ou algumas ideias que atravessavam o álbum – mas não comecei com elas. Foi acaso ou defeito de fabrico”.

Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo começava com a frase “quero ver Lisboa a arder” e Lisboa volta a ser o ponto de partida para Viva Fúria. Porém, este é um disco gravado no Minho, numa quinta da sua família. “Não [gosto] particularmente [de estar em estúdio]. Sobretudo, nas condições em que isso é possível fazer para um músico da minha dimensão ou do valor que tenho (no sentido material). A ideia de fazer discos em estúdio, como se fazia até aos anos 90, ou que se continua a fazer com quem tem orçamento para isso, é uma possibilidade muito remota para mim: não posso estar um mês dentro de um estúdio a fazer experiências. Gravar em estúdio, para um artista como eu, significa ter tudo mais do que pronto, chegar lá e despachar em três dias. O ambiente de estúdio é, por defeito, de aquário, mais claustrofóbico e de grande pressão – sobretudo pelo tempo que existe para fazer as coisas. Por isso, preferi ir para um sítio para onde tinha possibilidade de ir, para uma casa, para uma quinta, e estar lá muito mais calmo, durante 10 dias, com a banda e com o Luís Montenegro e o Gui Tomé Ribeiro (que são dos Salto e meus amigos também), que gravaram o álbum. Aquilo, na verdade, tornou-se numa coisa muito mais agradável e houve possibilidade de fazer coisas que seriam impossíveis em estúdio. A última canção do álbum, que se chama “Canção Infinita”, foi feita lá: de repente, começámos a tocar aquilo, repetimos mais uma vez e pusemos a gravar”.

 

“Sou um ladrão”

Em “Canção Infinita”, que fecha Viva Fúria, ouvem-se uma serie de enumerações que não provocam surpresa: em spoken-word, numa espécie de adeus, é misto de dedicatória a um passado em Santo Tirso com manifesto de intenções. Fala-se de Jeff Buckley, de Nick Drake, dos Red House Painters, de pretensão e ingenuidade, mas também da avó Elisa ou do primeiro beijo ou o primeiro filho. Há, porém, uma frase que fica: “sou um ladrão”. Diz-se que, na música, nada se inventa mas uma tamanha declaração não é, exactamente, comum. “Acho que não há nada de muito original nisso. Todos os artistas são ladrões, de alguma maneira: as coisas não vêm do nada, vêm sempre ou de uma tradição ou de referências que as pessoas têm ou do trabalho de outros. Os Lusíadas são muito parecidos com a Ilíada – é o exemplo mais óbvio que me passa agora pela cabeça. Nesse sentido, a única coisa mais original que acontece aí é eu estar a assumir um dispositivo artístico ou de trabalho: fazer cópias. Mas, na verdade, quando as coisas se concretizam, passam a ser minhas: porque sou que as canto, são as minhas letras, é o meu universo. Nunca é outra coisa: é uma coisa nova mas parte de um acto de ladroagem”.

O supremo acto de ladroagem, porém, pode ser pegar numa obra alheia e revê-la num olhar em nome próprio. Era esse um dos planos de Manuel Fúria: pegar no “denominado” universo da música pimba e fazer um álbum com essas canções. O primeiro passo? Fez uma versão de “Sonhos de Menino”, do Tony Carreira. “Na verdade, [essa] é uma ideia mais ou menos antiga mas, na altura em que comecei a pensar nisso, um mês ou dois depois, o Bruno Nogueira apareceu com aquele espectáculo, Deixem O Pimba em Paz. Achei que a ideia já estava tomada e não faria agora: espero por uma altura em que o pimba deixe de ser deixado em paz outra vez. A ideia é pegar em canções de artistas populares portugueses e tocá-las à minha maneira: basicamente, era isso”. Não se pense, por isso, que a alma criativa de Manuel Fúria algum dia acalma o passo. Será, certamente, como ele entoa em “Canção Infinita”: “Boa noite, doce príncipe, que não chegaste a ser rei, a música terminou mas a canção não acabou”.

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