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José Cid: “Eu sou a mãe do rock”

José Cid: “Eu sou a mãe do rock”
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É uma das mais importantes instituições nacionais, no que à música diz respeito. Habituou o público a grandes canções mas também ao facto de não ter papas na língua. Com 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, cravou o seu nome nos anais da História. Original, divertido, em constante criação, ao fim de mais de meio século de carreira, José Cid está longe de abrandar.

 

É certo que já lhe chamaram dinossauro mas essa afirmação não podia estar mais errada: a espécie desapareceu da face do planeta com o Big Bang – José Cid mantém-se em constante acto criativo. Deu os primeiros passos da sua carreira nos anos 1950, revolucionou o panorama musical como elemento do Quarteto 1111 nos anos 1970, a mesma década em que, em nome próprio, editou 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. De lá para cá, participou e venceu o Festival da Canção, ofereceu à música portuguesa hinos incontornáveis, deixou rastos de polémica e controvérsia e nunca parou de escrever, compor e imaginar novos cenários. É assim José Cid, o homem que não teme assumir a sua verdadeira importância – chamem pai a quem quiserem, ele É a mãe do rock português.

 

Quando se pensa em José Cid, vem à memória “A Cabana Junto à Praia” ou “Como o Macaco Gosta de Banana”. Quando um português pensa em lições de idiomas estrangeiros, trauteia-se “Um Grande, Grande Amor”. E, quando chega o Inverno, é provável que se entoe “Cai Neve em Nova Iorque”. Tudo isto é José Cid – mas José Cid é muito mais do que canções orelhudas com refrães carregados de impacto para as grandes multidões. Em 1978, o seu segundo álbum a solo – e o primeiro após o abandono do Quarteto 1111 – havia de deixar uma marca indelével no panorama da música portuguesa: e internacional, já agora. 10.000 Depois Entre Vénus e Marte é um mergulho no rock progressivo e sinfónico que vende pouco mais de mil exemplares na época da sua edição mas que, à medida que os anos se desenrolam, acaba por tornar-se objecto de culto, alvo de animadas citações em leilões de discos e reconhecido pelos media internacionais. Esta história, no entanto, tinha começado muito antes.

 

Chamusca, 1942.

 

José Albano Salter Cid Ferreira Tavares nasce na Chamusca, em 1942, de onde se muda, com 11 anos, para viver em Mogofores. Constante apaixonado pelo universo da música, em pequeno, sonhava ser cantor de rádio – porém, a sua primeira canção, “Andorinha”, surge, apenas aos 17 anos. Pouco depois, muda-se para Coimbra: o plano de se sagrar advogado nunca se concretiza, até porque desiste do curso de Direito sem completar, sequer, o primeiro ano. A Educação Física leva-o a dar aulas entre 1968 e 1972 mas a música já era protagonista na sua vida. “O [meu] primeiro projecto é os Babies e tocamos covers, não tocamos originais. Depois, vem uma fase, no final dos anos 50, de aprendizagem de cantar em português, através da bossa nova – que é a melhor forma de aprender uma linguagem portuguesa swingada, até porque eu vinha muito do fado e do jazz, dos anos 50. A partir daí, fui trabalhar com o [guitarrista] Fernando Alvim – que, depois, começa logo a trabalhar com o Carlos Paredes –, também bossa nova, eu tocando acordeão e ele viola”, recorda José Cid. Mas é com o Quarteto 1111, a partir de 1967, que o rock se assume em definitivo: o rock e a rebeldia que leva o colectivo, que reunia Miguel Artur da Silveira, José Cid, António e Jorge Moniz Pereira, e por onde passaram, igualmente, Tozé Brito, Mike Sergeant ou Vitor, em 1970, a serem censurados pelo regime marcelista. Dessa aventura, Cid aponta “a exigência que impusemos a nós próprios de fazer alguma coisa que fosse nosso, que fosse português e que fosse original – e [que] começa com A Lenda de [El Rei] D. Sebastião”. É, ainda, no Quarteto 1111 que Cid mergulha, pela primeira vez, nas águas coloridas do rock sinfónico, nomeadamente com a edição do álbum Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, de 1974. Os anos 70 começam com José Cid a fazer o seu debute em nome próprio, com um registo homónimo, e ainda há-de passar pelos Green Windows mas, “quando me separo do 1111, em 1975, já estava numa época de rock progressivo e de rock sinfónico, tinha evoluído para outras áreas. Decidi escrever 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte – já ajudado por músicos que, naquela altura, eram, talvez, os melhores músicos, em Portugal, da sua geração: o Zé Nabo no baixo, o Ramon Galarza na bateria e o Zé Carrapa na guitarra”.

 

Entre Vénus e Marte, 1978.

 

É, praticamente, unânime a atribuição da paternidade do rock português a Rui Veloso – o mestre de “Chico Fininho”, que apresentou a sua mescla de electricidade e blues, em Ar de Rock, de1980. No entanto, dois anos antes, José Cid já tinha criado 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Palavra, então, ao homem que se assume, orgulhoso como “a mãe do rock português”: “Pai há um e é sabido [quem é]. Digo “mãe do rock” por causa deste meu álbum, “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”, com uma nomeação mundial, entre os melhores álbuns do mundo, no final do milénio passado, e, actualmente, pela Sputnikmusic UK – que é um dos magazines mais importantes de Inglaterra –, entre os cinco melhores álbuns do mundo (e ainda não viram a edição especial que eu fiz, com edição limitada e edição de luxo). Senti-me na obrigação de dizer “sim, ele é, de certeza, o pai” – porque é fantástico, tem uma obra extraordinária, ajudada por um enorme talento que se chama Carlos Tê e eu não tenho ninguém para escrever para mim. Sou eu que vou escrevendo a parte poética e a parte musical. Eu sou a mãe, pronto – a mãe toda a gente sabe quem é”. Conheça-se, então, a lenda de 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

Foi em Maio de 1978 que a editora Orfeu fez chegar às lojas essa narrativa metafórica tornada canção. Meia década antes, José Cid tinha recusado a proposta de tornar-se o compositor exclusivo do cantor romântico espanhol, Júlio Iglésias. No seu segundo longa-duração a solo – sucessor da experiência progressiva de “Vida (Sons do Quotidiano)” –, Cid misturava ficção científica, amor e o mellotron, com que tinha feito as primeiras abordagens, ainda no Quarteto 1111. “Este álbum não é um puzzle de canções, como os grandes álbuns do rock mundial são – geniais mas puzzles de canções. Este álbum não: é um álbum conceptual, conta uma história com princípio, meio e fim”. No final da década de 1970, Portugal respirava fundo perante a descoberta da liberdade no pós-25 de Abril; no entanto, o mundo temia as tensões da guerra fria, numa fase em que Jimmy Carter se sentava na Casa Branca e Leonid Brezhnev ocupava o Kremlin. É essa hegemonia de um embate letal de titãs o ponto de partida para 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. O disco “acompanha uma evolução, desde o último dia no planeta Terra – porque houve uma Terceira Guerra Mundial (agora, estamos outra vez próximos disso, vamos lá ver, deixa-me cá bater na madeira). Um cosmonauta e a companheira fogem para o espaço, evitando o caos que envolveu o planeta. Conhecem novas formas de pensar, novas formas de viver, novas formas de amar, noutras galáxias distantes, e regressam, 10 mil anos depois, ao planeta Terra, como novos Adão e Eva, para recomeçar tudo de novo. É uma história sonhada, é uma história naïf, mas é uma história que é possível. Nós gostaríamos de viver num planeta como aquele em que vivemos, num país de encanto como é Portugal”.

10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte pode ser “uma história naïf mas é uma história pensada e é essa história que faz com que as pessoas acompanhem o concerto”, que, entretanto, José Cid levou ao palco – primeiro em 2014 e, novamente, em 2017, já com a recriação dos primeiros espectáculos em registo áudio e DVD. “O concerto está a ser muito bem tocado, por músicos de uma nova geração. Tenho grandes músicos a tocar comigo, particularmente o guitarrista – que é solista e protagonista de, praticamente, toda a parte de solos: o Chico Martins é formado pela Barclays School americana, com a nota máxima, é um grande guitarrista e dá um nível instrumental enorme a este álbum. Que está renovado”. Homem sem papas na língua, Cid não rejeita assumir a razão que fez com que demorasse quase quatro décadas a encenar esta história perante o olhar público. “Era muito difícil recriar o que tínhamos feito em estúdio – mas isso era tudo acompanhado pela preguiça. Só que, quando a sputnikmusic o nomeia entre os cinco melhores álbuns do mundo, eu disse “mas eu tenho que começar tocar isto ao vivo, é uma asneira crassa eu não tocar este álbum ao vivo”. Tive uma ajuda muito boa do meu sobrinho mais novo, o Gonçalo Tavares, que é um grande teclista e tem o vintage todo dos anos 70, os instrumentos, dos Mellotrons aos Moogs, Solinas… Tudo o que era vintage dos anos 70, ele guardou. Eu toco Hammond e sintetizador: sou ajudado por um grande teclista, sou ajudado ainda por outro grande teclista que é o maestro Augusto Vintém, no piano, e, depois, por uma secção rítmica jovem, um coro e o tal guitarrista, o Chico Martins, que dá um nível, como solista, muito grande a este álbum”.

É certo que, quando se fala dessa obra-prima, a maior referência surge, inevitavelmente, no teclado que chega a dar nome a uma canção, “Mellotron, o Planeta Fantástico”. “O Mellotron é um planeta fantástico mas, ao mesmo, o Mellotron é um planeta muito complicado. Eu vou explicar: o Mellotron é um instrumento em que tu carregas nas teclas e, cada uma das teclas, corresponde a uma fita de gravação – que sobe por uma cabeça de gravação. Ora bem, com o tempo, com a humidade, com o transporte, essas fitas partem-se – vais lá dentro e colas aquilo. Os sete segundos que cada fita tinha, quando carregavas na tecla, passaram a ser seis… e, a pouco e pouco, torna-se complicado”. É por isso que, na passagem do álbum ao palco, “é o único instrumento que temos guardado como som de reserva, samplado, para podermos tocar ao vivo sem problemas técnicos”.

Juntem-se outras trivialidades da cultura pop: um ano antes da edição de 10.000 Anos…, George Lucas apresentara o mundo ao lado negro da força, com o primeiro capítulo de A Guerra das Estrelas. Por isso, é normal encontrarem-se pontos convergentes entre o arranque desse filme e a capa deste álbum, onde o grafismo é assinado por Isabel Nabo. Como exemplo perfeito de rock progressivo e sinfónico, é natural, também, a análise aprofundada dos lados instrumentais do disco – no entanto, 10.000 Anos Depois… é, antes de mais nada, guiado pela importância da voz. Cid concorda: “Não é um álbum cantado por um cantor, do princípio ao fim – é um álbum cantado por pessoas porque é um álbum cantado pelas pessoas do planeta, que sobreviveram. É um álbum de esperança, é um álbum de dizer que todos sonhámos com qualquer coisa mas isso não aconteceu. “Porquê? Porque é que o mundo vai nesta direcção?” Tudo isso tem que ser cantado por pessoas, pessoas vivas e pessoas que estejam lá”. A História viria a fazer justiça a 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, um disco que, à data da sua edição, passa completamente despercebido: depois de, nos anos 90, ser reeditado por uma etiqueta americana, é raro encontrar um dos seus exemplares à venda por valores abaixo dos 300 euros; antes disso, no Japão, um vinil chegou a ascender aos 4 mil euros.

 

Lisboa, 2017.

José Cid nunca desapareceu, verdadeiramente, do olhar do grande público: em 2015, por exemplo, regressa aos álbuns de estúdio, com Menino Prodígio, onde volta a abraçar as suas influências rock. Espécie de autobiografia musical, acaba distinguido pela SPA, em 2016, com o Prémio Pedro Osório. Dois anos depois, além da passagem a palco de 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, o olhar de Cid mantém-se na actual – e com um eterno espírito criativo. “Estou a acabar Clube dos Corações Solitários Capitão Cid, um pouco para celebrar os 50 anos do Sgt Pepper’s [Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, publicado em Junho de 1967] mas sem ser – porque é um álbum de originais. É um álbum do qual eu gosto muito: tem um grafismo muito divertido – o senhor Primeiro-Ministro já me deu autorização para estar na capa, o senhor Presidente da República também está, pessoas muito minhas amigas vão estar no grafismo do álbum, um bocadinho à semelhança do grafismo da capa do Sgt Pepper’s. A Marilyn: claro que está, a Marilyn também está!”. Para completar a descrição, Cid pega no telemóvel para mostrar a imagem planeada para a capa do disco – e a recriação é, no mínimo, divertida. “É um álbum muito cuidado, com um grafismo também muito cuidado e, musicalmente, muito bem trabalhado”.

Não se pense, no entanto, que a visão do rock sinfónico de José Cid se quedou em 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte – há muito planeado, o novo capítulo progressivo, Vozes do Além, surge como o passo seguinte. “No próximo ano, vou gravar Vozes do Além: é, provavelmente, o meu álbum final, em termos musicais, até porque atravessa (e defende) a ideia da reencarnação, com poemas da Sophia de Mello Breyner, da Natália Correia e da Federico Garcia Lorca, com algumas coisas coordenadas por mim. Tudo isso tem a ver com uma espécie de vingança sobre a morte inexorável: nós vamos voltar a ser uma árvore, um pássaro, uma onda, uma gota de orvalho, uma flor… Nós vamos voltar: a morte é passageira, nós vamos renascer. Essa é a nossa vingança poética: dizer que não vamos para debaixo da terra, ser comidos por bichinhos, ou ser incinerados, que é a melhor ideia – não, vamos voltar. Mas é como uma árvore, uma flor, um pássaro, uma ave, uma onda, uma montanha – nós vamos voltar assim. E é essa a ideia que o álbum aborda”.

Segundo José Cid, “nasci para música” – mas este “menino” tem sido prodígio de muitas outras formas. Nos anos 1970, foi censurado; nos anos 1980, chamam-lhe ordinário devido a “Como o Macaco Gosta de Banana”; nos anos 1990, revolta-se contra a política das plalylists e coloca-se, literalmente, a nu” – afinal de contas, o que é que ainda lhe falta fazer? “Falta-me desaparecer (risos). Falta-me gerir a minha decadência (risos). Falta-me gerir o meu sentido de humor. Não calar a boca quando me apetece. Ser rebelde e escrever o resto da minha obra, calmamente. Fisicamente, já não sou o homem que era mas, vocalmente, sou o homem que era e, em termos poéticos, estou a escrever menos mas acho, até, que estou a escrever melhor. Portanto, vou andando, até ver onde posso ir, como toda a gente. Posso desaparecer ser ter gravado esses álbuns que vêm a seguir mas, pelo menos, vou lutar para fazê-los – e continuar a cantar as minhas canções ao vivo. Porque eu sou um cantor ao vivo: quero é escrever canções e cantá-las ao vivo – é isso que eu quero”.

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