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PAUS: “Vamos fazer o que nos apetece”

PAUS: “Vamos fazer o que nos apetece”
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Tudo começou há quase uma década, num ensaio assistido e numa vontade de alargar uma relação de amizade a um novo projecto musical. Três álbuns depois, tornaram-se um improvável caso de sucesso, dentro e fora das fronteiras portuguesas. Livres de quaisquer constrangimentos, são verdadeiros mitras porque não pertencem a lado nenhum: o lugar dos PAUS é apenas seu.

 

Corria 2008 quando dois amigos de adolescência decidiram fazer um projecto juntos: tanto um quanto outro já tinham bandas, tanto um quanto outro tocavam bateria. Para esse primeiro encontro, decidiram convidar outros amigos como “público”, fazendo desse primeiro ensaio uma espécie de showcase. Passaram quase 10 anos, a formação dos PAUS mudou e as aspirações originais foram completamente superadas. Hoje, os PAUS são muito mais do que a banda da bateria siamesa – são uma verdadeira instituição do ritmo. Comandam o caos como poucos e soltam-se de constrangimentos de forma rara. Estão “aqui” mas não pertencem a parte alguma. É essa a sua magia.

 

No início, eram duas baterias.

 

“O primeiro ensaio de todos foi assistido mas não existia PAUS, ainda”, recorda Hélio Morais. “Fui eu e o Quim [Albergaria]; na altura, convidei o Makoto [Yagyu] e o Shela (que seriam os PAUS, o início dos PAUS)”. Esse primeiro encontro – que, assumem, até correu bem – dá-se numa exposição de Mariana Dias da Cunha, em Outubro de 2008. Porém, só seis meses mais tarde é que o quarteto se volta a reunir. “Começámos mesmo à séria em 2009”, lembra Hélio, quando compõem, de uma lufada só, a primeira canção, “Pulso”. “Fizemos essa canção, acho, em Maio de 2009. Gostámos e pensámos “vamos marcar mais uns dias”, para ver se corre bem, se corre tão bem – porque fizemos aquela música só num dia. Pensámos “se calhar, marcamos mais três dias para ver se fazemos mais três músicas” – aliás, marcámos mais quatro dias para ver se fazíamos mais quatro músicas e ficávamos com um EP. Mas o estúdio também já tinha uma agenda algo preenchida e não deu para ser logo a seguir: quando tivemos oportunidade gravámos. Gostámos e pensámos “temos que pôr isto a mexer, temos que encontrar uma editora” e essas coisas todas”. Assim nasce “É Uma Água”. “Na altura, eu estava a trabalhar na Enchufada [a editora de Kalaf e Branko, dos Buraka Som Sistema], propus-lhes o EP”, confessa Hélio. “Eles acharam piada e saiu em Junho ou Julho de 2010 – porque ainda demorámos um bocadinho a gravar”.

“Aquilo nasceu da minha vontade e do Quim de fazermos uma coisa juntos”, continua Hélio. “O Quim era mais conhecido como vocalista de Vicious Five mas ele já tocava bateria, antes até de ser vocalista. Ele era o baterista de Vicious Five, no EP [anterior ao álbum The Electric Chants of the Disenchanted, de 2004]: quer dizer, no EP, ele acaba por gravar a bateria e a voz porque o vocalista saiu e ele acabou por gravar as vozes porque já estavam em estúdio. E eu, pronto, eu era mais conhecido por ser baterista mas também já tinha estado em bandas onde cantava. Nunca tínhamos tido uma banda juntos: já nos conhecíamos desde os 17 anos e nunca tínhamos tido uma banda juntos – então, passámos um bocadinho mais de tempo a falar os dois e decidimos fazer uma banda juntos. Só que queríamos os dois tocar bateria e cantar. A premissa é que eu tocava bateria um bocadinho melhor do que ele e ele cantava um bocadinho melhor do que eu. E pronto, parecia que ficava equilibrado”. Mas quem eram, afinal, estes quatro músicos que completavam o colectivo PAUS? Era uma espécie de super-banda, que reunia elementos vindos dos Vicious Five, Linda Martini, Riding Pânico e If Lucy Fell. No entanto, as heranças do hardcore e do punk não se deixam evidentes nesta nova aventura – marcada, antes de mais nada e acima de tudo, pela imponência do ritmo. Nem poderia ser de outra forma: os PAUS reúnem duas baterias a um baixo e um teclado.

Um formato bizarro – duas baterias e um bombo, uma ideia brilhante. Pelo menos, em teoria. “Na prática, dizer que é errado é parvo – porque nós fazemo-lo e a coisa não tem corrido mal – [mas] em termos de som, não é a coisa mais correcta do mundo. Mas também o que é correcto em termos de som? Pode ser estético, só, uma opção”, assume Hélio. A ajuda vem de Fábio Jevelim, que se juntou aos PAUS em 2014. “Só tens que ter atenção a coisas técnicas – geek! –, tipo, não podem bater no bombo os dois ao mesmo tempo porque a frase inverte e não se ouve o bombo…. Os PAUS têm um formato bizarro não só pela construção da bateria – e pela forma de abordagem à bateria – mas também por serem uma banda que começa com um teclista e um baixista. Na altura, havia um formato um bocado mais clássico de bandas e todos esses factores levam a essa descrição: um formato bizarro”. “Foi a minha primeira banda sem guitarras – e era rock na mesma”, reconhece Hélio.

 

A voz como quinto instrumento.

 

“Quando começámos, achámos que íamos fazer o circuito da ZDB e dos Maus Hábitos e afins e, de repente, por um golpe de sorte, fomos chamados, à última da hora, para o Alive”: vivia-se 2010, o EP “É Uma Água” encontra uma boa recepção e os PAUS ainda levam os seus instrumentos ao palco do festival de Paredes de Coura. É, então, que se atiram à edição do primeiro álbum: o homónimo chega em 2011. “Fazemos um álbum e saiu o “Deixa-me Ser”, que foi uma música que rodou muito”, continua Hélio. “A [estação televisiva] Fox pediu-nos para usar uma parte de uma música nossa num genérico, nós autorizámos e, em troca, houve uma campanha: aquilo fartou-se de passar por causa de um concerto que íamos ter no CCB [em 2012] – ainda hoje é a nossa música tem que mais views no YouTube. Tem mais de 600 mil, o que é uma coisa um bocado estranha para uma banda como PAUS”, reconhece Hélio. “Na altura em que os PAUS apareceram, o que aconteceu foi que havia muitas bandas rock a aparecer e muita música nova a aparecer e houve uma mudança de mercado. De repente, os PAUS aparecem e os promotores e as editoras começaram a achar que, se calhar, até dava para fazer alguma coisa com eles. Toda essa explosão do rock, nessa altura, acabou por levar PAUS – uma banda muito alternativa e com uma estrutura estranha – a um sítio mais aberto, aberto a mais público. Para eles, na altura, foi um impacto estranho”, analisa Fábio. “Acabámos por chegar a um sítio onde nunca achámos que chegássemos mas a verdade é que a maior parte das músicas dos PAUS não é o “Deixa-me Ser” – aquilo não é um reflexo do que é a banda mas levou-nos a um outro público e faz-nos estar em sítios onde não era suposto estarmos, se calhar. Por isso, se calhar, somos um bocado mitras e acabamos por mitrar o nosso espaço onde não era suposto. Não somos alternativos o suficiente para sermos uma banda só de nichozinhos mas também não somos mainstream que baste para a banda ter outra dimensão. Vai variando”, conclui o baterista.

Depois de PAUS, Clarão nasce em 2014, já com a formação actual do quarteto. Dois anos depois, o grupo edita Mitra – e, aos poucos, as vozes vão aparecendo cada vez com mais impacto. Numa banda que vive do ritmo, as palavras disparadas parecem assemelhar-se a um novo instrumento.”No primeiro EP, sim, acho que todas as músicas começaram com beat. Depois, no primeiro álbum, acho que já houve umas duas ou três que começaram com uma linha de teclado ou com um baixo – o “Deixa-me Ser” começou com um baixo, por exemplo. Depois, acho que as coisas se equilibraram: a partir do momento em que o Fábio entrou também… Varia muito: às vezes, começa com um beat, às vezes começa com um riff do Fábio. No último disco, por exemplo, o Fábio compôs muito antes de irmos para o estúdio”, conta Hélio. “Para nós, é difícil, entre todos, chegar a um consenso de vozes: uns gostam mais de umas coisas, outros doutras”, arranca o teclista e produtor. “Temos utilizado a voz de uma forma que todos aceitamos melhor: que é a mais rítmica. Basicamente, toda a banda é um bocado mais rítmica – mesmo os teclados e os baixos, hoje em dia, são muito mais rítmicos. A voz tem aparecido um bocado mais: no Mitra, por exemplo, apareceu bastante. Mas isso são fases: agora, não me apetece ouvir voz, por exemplo, por isso, não sei o que é que vai acontecer no próximo álbum – porque, se calhar, a ele, apetece. Começas a construir músicas e também depende do que a música pede: às vezes, tens músicas que não pedem voz ou que já têm voz suficiente de teclado ou de baixo mas há outras onde a voz faz falta e onde usamos como instrumento, mais do que para teres uma voz para prestares muita atenção à letra ou para sentires coisas”. “Nós quebramos palavras a meio, muitas vezes, porque é mais rítmico. Nenhum de nós é um cantor clássico, de cantautor – mesmo o Quim, que é, de entre nós, o que canta melhor. Quando ele cantava em Vicious Five, era uma coisa muito mais rock, muito mais gritada: não é nenhum Afonso, de You Can’t Win, Charlie Brown – nenhum de nós é”, assume Hélio. “Portanto, as vozes acabam por ganhar essa cadência mais rítmicas e as palavras… Acabamos por nos autorizar a nós mesmos a partir as palavras de acordo com o ritmo”, conclui.

Poucas coisas podem ser consensuais quando se descreve a obra dos PAUS: porém, a verdade é que o quarteto parece a tradução directa de uma expressão musical livre de constrangimentos. “Acontece um bocado isso – até pela nossa forma de gravar”, concorda Fábio. “Nós vamos para estúdio e, naturalmente, o que nos sai é o que acaba por ficar nos álbuns. E continua a ser assim: às vezes, trazemos um riff de casa mas são 20 segundos de música e temos que fazer três minutos ou quatro ou seis. Isso dá-te esse tipo de liberdade: acho muito sincera essa forma de fazer música e é aquela de que mais gosto. É, realmente, o que sentiste naquela altura, é o que te saiu e são as tuas influências naquela altura, em específico, naquele mês específico (se calhar, dali a dois meses já não são as mesmas) e essa forma acaba por delimitar o som e a banda. “Neste mês, apetece-nos fazer isto”. Se calhar, se fizéssemos três álbuns num ano eram os três diferentes porque, no espaço entre meses, já estás a ouvir outras coisas ou já te apetece fazer outras coisas. Normalmente, quando acabo de gravar um álbum, seja com que banda for, já não me apetece fazer um álbum parecido com aquele na semana a seguir. Acaba por ser sincero e livre – fazemos o que nos apetece”, assume. O acto de criação dos PAUS parece, assim, uma espécie de acção/reacção. “Reagimos uns aos outros”, admite Hélio. “A única coisa que é sempre mais pensada – porque é a questão mais sensível – é a voz e as letras. Aí, sim, é um bocado mais demorado. Não diria calculista: vai saindo – não pensamos “aqui vai ser um grande single”, “aqui vai ter um grande refrão” – mas fazemos e discutimos mais as ideias do que quando estamos aqui só a reagir uns aos outros, instrumentalmente.

Fábio: É calculista porque temos gostos muito diferentes…

Hélio: Muito diferentes.

Fábio: …de voz, de letras, e é mais difícil chegar a um consenso. Instrumentalmente, mesmo que tenhamos influências diferentes, acabamos por estar dentro da mesma cena. Eu não estou a ouvir Tony Carreira enquanto ele está a ouvir Sepultura. Temos influências parecidas.

Hélio: Podia resultar (risos).

Fábio: Podia resultar (risos). Nas vozes, eu gosto mais de frases mais directas e simples, o Quim já gosta de uma coisa mais profunda e metafórica, o Makoto gosta de coisas mais a direito melodicamente, ele gosta de coisas mais melódicas… Acaba por ser difícil chegar a essas pontos todos: normalmente, demoramos 10/12 dias a gravar um álbum e 10/12 dias a gravar as vozes – o que é ridículo.

 

A música dos PAUS pode ser um caso sério – mas a relação entre os quatro músicos é, à falta de melhor palavra, “goofy”. Olhe-se para as suas páginas nas redes sociais para se compreender o jeito como não temem brincar com eles próprios. Segundo Hélio, para uma banda que passa tanto tempo na estrada quanto os PAUS passam, “tem que ser! É uma seca andares na estrada se não te distraíres”. “Apesar de não concordarmos muito nas vozes, acho que, no sentido de humor, encaixamos bem. É uma forma de ir para a estrada: se vais para a estrada com pessoas com quem não te dás muito bem ou com quem não te identificas muito… essas bandas duram dois anos ou dois discos. Uma banda, para durar um bocado de tempo, tem que ter uma base de amizade: são muitas horas com as mesmas pessoas”, desabafa Fábio.

A vida de estrada nem sempre é um mar de rosas – porém, é no palco que a música dos PAUS parece ganhar uma nova dimensão. “Porque tu vês: não é que seja melhor ou pior ao vivo mas, ao vivo, consegues perceber, exactamente, a dinâmica das duas baterias”, explica Hélio. “Dos outros instrumentos acabas por entender as nuances, quer em disco quer ao vivo – é óbvio que, em disco, está sempre muito mais nítido. As baterias, em disco, não estão a ser vistas e, se não perceberes do instrumento em si, não sabes se aquilo é só uma pessoa a fazer o ritmo, se são duas, não causa o mesmo impacto. Ao vivo, consegues ter essa percepção, “eles estão a fazer coisas diferentes”, “isto é engraçado””. Palavra ao produtor: “tecnicamente falado – e eu e o Makoto é que gravamos os álbuns –, é muito difícil replicar o som de PAUS, ao vivo, em estúdio. Já tentámos várias abordagens para gravar aquilo. A cena é que, ao vivo, o som é caótico em si: está tudo a tocar ao mesmo tempo, duas baterias a tocar… Nunca é a mesma coisa de quando estamos aqui a arranjar as coisas: nunca conseguimos gravar dessa forma porque, como estamos a compor na mesma altura, eles nunca conseguem tocar mesmo, como se diz, “na batata”. Como não estão os dois, o som fica logo diferente. Na minha opinião, acho que o som de PAUS é melhor ao vivo do que em estúdio – apesar de ser eu a gravar, estou a falar contra mim. É muito difícil replicar aquilo: o caos, a despreocupação… Em estúdio, normalmente, estás muito mais preocupado”.

 

O futuro a Deus pertence.

 

Pouco mais de um ano volvido sobre a edição de Mitra, em 2017, os PAUS lançam-se a nova aventura. Em formato duplo: não só regressam ao estúdio para a concepção do seu quarto álbum quanto retornam ao Lux, em Lisboa, para mais uma série dos concertos Só Desta Vez, onde apresentam as suas canções com “olhares” alheios, de músicos convidados, que se juntam aos quatro elementos no palco. Ao fazerem-no, os PAUS não só saem da sua zona de conforto quanto acabam por encarar a sua assinatura de outra forma. Por exemplo, “quando fizemos [o concerto] com os sopros [de João Cabrita]: já começo a imaginar sopros, que é uma coisa que, à partida, não imaginaria nos PAUS, mas, como tivemos esse contacto, já imaginaria… Com os sintetizadores: é óbvio que já temos sintetizadores mas a abordagem do [Francisco] Ferreira [de Capitão Fausto] é diferente (ainda que o Ferreira também seja muito rítmico)”, analisa Hélio. “Quando tocas com músicos diferentes consegues sempre apanhar influências porque vês interpretações de outras formas, coisas que não farias – tudo isso, antes de gravarmos um álbum, é fixe porque começas a pensar na música de forma diferente. Até te obriga a pensar em sair do teu estilo de abordagem musical”, conclui Fábio.

“Vamos para o que vier”, anunciavam, alto e bom som, no primeiro longa-duração. Quase uma década depois, a demonstração de intenções não parece ter mudado uma vírgula. Entre risos, Hélio anui: “Ainda é. Como nunca sabemos o que é, não podemos estar preparados. “‘bora e logo vemos””. “Sinceramente, estamos um bocado despreocupados com isso porque acho que já fizemos o que tínhamos a fazer para as pessoas perceberem que vamos fazer o que nos apetece. O pessoal foi para majors e continuámos a fazer o que nos apetecia, fomos independentes e continuámos a fazer o que nos apetecia – portanto, vai ser assim. Agora, o que é que nos apetece no próximo álbum? Não sei. Os álbuns são bastante instáveis – percebes que são PAUS mas o Clarão é completamente freak, é difícil de ouvir, o Mitra é mais canção… O PAUS é o início de PAUS, nem sabes bem se aquilo vai para o ácido ou se vai para o ritmo. Este aqui não faço ideia – vai ser outra cena qualquer”, desbrava Fábio. “Nunca sabemos para onde vão as canções”, atira Hélio, em jeito de conclusão. “No álbum passado, sabia que me apetecia ouvir coisas com mais estrutura de canção e mais voz – estava a apetecer-me. Neste momento, apetece-me fazer cenas muito espaciais ou completamente freaks – mas, se calhar, aos outros não”, completa Fábio. Espere-se, no entanto, uma sonoridade diferente: pelo menos, a julgar pelo carrinho de compras de Hélio. “Apetece-me tocar com muito metal, metal tipo pratos esquisitos. Já me fui abastecer de pratos estranhos: tens que mudar o set, lá está, porque se torna aborrecido. Toquei muito, em muitos discos, com uma tarola, um timbalão, um crash e um prato de choque – agora, fui buscar mais umas coisas”. O futuro dos PAUS… aos PAUS pertence.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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