Home Entrevista The Gift: “Sempre tivemos um lado muito combativo” 

The Gift: “Sempre tivemos um lado muito combativo” 

The Gift: “Sempre tivemos um lado muito combativo” 
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Personificam o espírito “do it yourself” como poucos: saíram de Alcobaça e bateram às portas das redacções para serem ouvidos. Duas décadas volvidas, têm uma das mais sólidas carreiras do panorama nacional e não só. Em Altar, de 2017, chegam ao Olimpo da música, quando são produzidos por Brian Eno e misturados por Flood. Esta é uma história de querer sempre fazer mais – e melhor.

 

Que não restem dúvidas: em 2017, quando se pensa em Alcobaça, tanto se pode recordar a imponência do seu Mosteiro quanto trautear uma canção dos Gift – foi essa a importância que o quarteto conseguiu alcançar ao longo de mais de duas décadas de carreira. Nem tudo, no entanto, foi um mar de rosas: tomaram o seu destino nas suas mãos e fizeram o impensável – conseguiram sucesso sendo, completa e definitivamente, independentes. Foram eles quem respondeu pela sua primeira edição, foram eles quem bateu às portas dos principais órgãos de comunicação social para dar a conhecer a sua música, foram eles que traçaram, milimetricamente, todos os passos da sua carreira. O combate valeu a pena: o sexto álbum, Altar, de 2017, foi produzido por Brian Eno, o mago que trabalhou, por exemplo, com David Bowie na trilogia de Berlim ou com os U2 em obras-primas como The Joshua Tree ou Achtung Baby. Ainda mais: o seu sexto álbum, Altar, foi misturado por Flood, o mágico que colaborou, entre outros, com Nick Cave, PJ Harvey ou Nine Inch Nails. Passaram mais de 20 anos mas há algo que nunca mudou nos Gift: o seu constante estado de insatisfação.

 

Alcobaça, anos 80.

De certa forma, Alcobaça sempre ficou ligada um espírito de independência: o seu mosteiro, uma das maravilhas de Portugal, foi mandado construir por D. Afonso Henriques, como celebração da conquista de Santarém, em 1147. Vários séculos depois, é nesse mosteiro que muitos jovens naturais de Alcobaça fazem as primeiras experiências, marcam os primeiros encontros. A população da cidade ronda os 7 mil habitantes, pelo que é fácil que os caminhos se cruzem. Nuno Gonçalves e Sónia Tavares vêem-se, pela primeira vez, ainda na pré-primária, na preparação de um pequeno teatro. Mais tarde, na discoteca Sunset, que pertencia ao pai de Nuno e John, encontram-se na pista, onde a mãe de Sónia expressava, em forma de dança, a sua devoção por David Bowie ou Simple Minds.

Nuno há-de ainda recordar ver Sónia a desenhar mas a sua paixão era a música: não era do grupo dos góticos nem dos rebeldes, não usava all-star mas sabia que queria fazer uma banda. Se as suas referências passavam, por exemplo, pelos Joy Division, era normal chamar ao seu projecto Dead Souls. O grupo ensaiava no sótão de Miguel Ribeiro que, por sua vez, era companheiro de Tetris de Sónia. A Sónia era uma espécie de fã dos Dead Souls e gostava de assistir aos ensaios do grupo. Até que, um dia, Miguel sugere que Sónia cante: no imaginário de Nuno, a banda era apenas de rapazes mas decide experimentar. No momento em que Sónia canta, pela primeira vez, o futuro dos Gift surge-lhe, instantaneamente, no olhar. “Nesse momento de que falas, especificamente, quando a Sónia começou a cantar, o nosso objectivo era dar um concerto: mas eu senti que havia ali qualquer coisa que não era normal nas bandas de garagem – de sótão, neste caso. Não era normal esta voz, não era normal esta postura – não era normal. Podia não passar dali mas era muito ingrato e muito injusto que assim acontecesse. E nós todos batalhámos para que não acontecesse isso: tal e qual como será ingrato se este disco que estamos a lançar agora [Altar, de 2017] não for ouvido por todo o mundo. Tudo o que eu puder fazer para tentar, até à ultima gota de suor, que o disco seja ouvido por todo o mundo – vou fazê-lo. Nos Gift, sempre tivemos esse lado muito combativo: achamos que a música deve ser apoiada, deve ser elevada e deve ser levada às pessoas, sobretudo”, afirma Nuno.

 

Alcobaça, anos 90.

O primeiro concerto dos Gift é dado em 1994: participam no Concurso de Música Moderna de Alcobaça mas quedam-se pelo segundo lugar. Ainda assim, no ano seguinte, são alvo de uma reportagem feita pel’A Voz de Alcobaça, onde se pode ler “O Culto do Profissionalismo”, um título que, mais de duas décadas depois, parece uma espécie de premonição. “Acho que há aqui um padrão comum, na carreira dos Gift, de querer fazer as coisas bem”, arranca Nuno. “Ou, pelo menos, de querer fazer as coisas o melhor que conseguimos fazer: é um estado de alma – fazemos música mas, depois, temos que nos apresentar da melhor forma que pudermos. Nesse concerto especificamente, que acho que foi o primeiro ou o segundo que demos na nossa vida, já tínhamos vídeo, já tínhamos slides, já tínhamos uma data de coisas associadas à imagem que estavam associadas à música dos Gift. Sim, se calhar, desde o início, nesse sentido, não houve muita coisa que mudasse: continuamos a querer fazer melhor ou, pelo menos, a querer fazer aquilo que achamos que devemos fazer. Temos mais condições para o fazer, temos mais público para nos ouvir também, temos melhores discos e melhores canções. Mas essa ideia base, de querer fazer o melhor, mantém-se, sim – sem dúvida alguma”.

Depois da primeira demo, Digital Atmosphere, os Gift não entregam o seu destino a mãos alheias: criam a La Folie Records e gravam o seu primeiro álbum. Numa época em que se dizia que o vinil estava morto e enterrado, chamam à sua estreia, precisamente, Vinyl. “Nesse disco, o que estávamos a tentar trazer para a nossa música eram as emoções da altura de descoberta na nossa adolescência: ouvimos o Achtung Baby [dos U2] em vinil, ouvimos o Violator [dos Depeche Mode] em vinil, ouvimos o Good Son, do Nick Cave, em vinil, ouvimos o Henry’s Dream em vinil, ouvimos uma série de coisas em vinil – já para não falar dos Cure e dos Joy Division, que isso então era super vinilíssimo, já riscado!”, confessa Nuno, entre risos. “Sempre nos influenciámos pela música e pelo prazer de ouvir música. Muitas vezes, hoje em dia, as pessoas e as bandas falam dos shares, dos vídeos, há press releases para dizer que chegaram ao milhão de views: eu quero música. Eu interesso-me pela música: quero saber que estética nova é que estão a fazer, que caminho é que estão a apontar, que som de bateria é que usaram, que efeito na voz é que colocaram – preocupo-me com isso, enquanto músico, enquanto artista, enquanto compositor. Isso é que realmente importa na música. Tudo o resto é entretenimento: gostamos de entreter as pessoas, adoramos tocar ao vivo, gostamos e envolvemo-nos (porque temos que nos envolver!) nesta nova maneira de promover a música – mas é música que se está a falar, estamos a falar de uma arte que tem ser tratada, tem que ser bem respeitada. Quando falavas do Vinyl: o que queríamos fazer nessa altura era respeitar a música e respeitar aqueles que, tal como nós, ouviam a música em vinil”.

Com Vinyl na mão, dividem esforços e batem às portas das várias redacções de órgãos de comunicação social, numa forma diferente e honesta de fazer a sua própria promoção. A aposta – e a luta – acaba por dar os seus frutos: o público deixa-se conquistar por momentos como “OK! Do You Want Something Simple?”. Um ano depois, em 1999, faziam o seu primeiro Coliseu – menos de duas décadas mais tarde, em 2015, na celebração dos seus 20 anos de carreira, sobem ao palco da maior sala de espectáculo do país, a Meo Arena.

 

Portugal, anos 00.

Depois de Vinyl, os Gift editam Film, em 2001, a que sucede AM-FM, em 2004. Era nesse álbum duplo que se encontrava, em faixa-escondida, “Fácil de Entender”, a canção que viria a dar título ao registo ao vivo, publicado dois anos depois. Pelo meio, o quarteto há-de vencer o Best Portuguese Act, da MTV; no ano seguinte, são premiados com o Globo de Ouro para Melhor Banda. Em 2003, já tinham sido responsáveis pela abertura dos concertos dos Flaming Lips, na digressão de Yoshimi Battles The Pink Robots. A segunda década do novo século, no entanto, havia de voltar a encontrar os Gift em formato duplo: desta feita, com Explode e Primavera a serem publicados enquanto objectos distintos. Chegados a 2015, é, então, altura de assinalar estas duas décadas de muita estrada, muita música, muitas conquistas e outros tantos revezes. Fazem-no em triplicado: além dos concertos, tornam-se livro com assinatura de Nuno Galopim em 20, o mesmo nome escolhido para o disco que carrega o inédito “Clássico”, que pretende captar o espírito dessas duas décadas. Os Gift, habitualmente, cantam em inglês – porém, “Clássico” surge na língua materna do quarteto. “Desde o Vinyl, sempre tivemos canções em português; no Film, não tínhamos mas no AM-FM tínhamos o “Fácil de Entender”, o “Primavera” também vinha no Explode – sempre tivemos coisas em português”, apronta-se Nuno a esclarecer. “Não achamos a língua um problema mas também nunca achámos que o inglês fosse a solução: é mais problema chegarmos à estética que queremos do que propriamente às letras e ao que queremos dizer com as palavras. Claro que, quando se escreve em português, há toda uma vida por trás da palavra que influi e, depois, tem que se ter mais cuidado”, assume. Esse foi um dos aspectos que mudou quando chegou a altura de preparar o sexto capítulo dos Gift: “No Altar, uma das coisas com as quais o Brian Eno se importou muito (e nós também) foi melhorar esse lado das letras dos Gift e acho que estamos, neste momento, com letras fantásticas – acho que o Altar é dos discos mais bem escritos, de sempre, dos Gift. Mas o português nem nunca foi um problema nem nunca foi uma solução: sabíamos à partida que as pessoas, ouvindo em português, se calhar, iam entender melhor mas, curiosamente, a música dos Gift que mais vezes passou na rádio, é o “Music”: não é o “Fácil de Entender” nem é o “Primavera” nem o “Clássico””. De certa forma, olhando para a letra de “Music”, essa sim, poderia ser a verdadeira declaração de intenções dos Gift: “I’m doing it for music, I’m doing it for love, I’m doing it for everyone around me”. Nuno concorda.

 

Terra dos sonhos, anos 10.

Ao sexto longa-duração, muito pode ter mudado nos Gift mas há coisas que se mantêm imutáveis: o sonho que os levou ao sótão de Miguel continua, a vontade de levar a sua música mantém-se, o espírito de eterno combate não recuou um milímetro. Talvez por isso faça sentido que Altar, o primeiro álbum depois das comemorações dos 20 anos de carreira do grupo, comece com uma canção intitulada “I Loved It All”. Ou mesmo que o primeiro single retirado do disco seja um dueto com Brian Eno – já lá vamos! –, baptizado “Love Without Violins” por representar uma história dura de amor, um “tough love”. É tentador encarar estes dois momentos como sinais da história dos Gift até 2017. “Normalmente, as relações mais… não digo mais complicadas mas mais fogosas têm sempre um bocadinho dos dois lados: da acalmia mas também o outro lado, que nos dá aquela pica para continuar”, assume Sónia. “Basicamente, é isso que tem sido a nossa vida: estes 20 anos não foram de todo um mar de rosas, não foi de todo uma carreira de ultra-sucesso, foram 20 anos de muito trabalho, de muita estratégia inventada por nós para encaminhar, na nossa música, aquilo que achávamos que tinha que ser assim. É verdade que os nossos passos sempre foram estudados mas, lá está, as canções falam por si: por mais estratégias ou planos ou altos ou baixos ou prémios, o que nos continua a unir é a nossa música, nós os quatro e a nossa vontade de continuar com a esta banda. Obviamente, também é fruto de muita amizade: não foi fácil, continua a não ser fácil e cada disco que lançamos é cada vez mais difícil – ao contrário do que se possa pensar. Por não sermos uma banda nova, ficamos sempre para trás: os novos têm sempre, obviamente e acho bem, tendência para ser mais abençoados pelas pessoas e nós temos que nos esforçar o dobro para nos fazer notar. Não faz mal: é isso que realmente somos e aquilo que realmente queremos. Enquanto artistas, o nosso desafio é fazer sempre melhor ou, pelo menos, fazer aquilo que mais gostamos, que mais achamos ideal nessa altura. O grande desafio é sempre fazer diferente, fazer melhor, porque os bons resultados já sabemos como é que se tiram – temos, felizmente, esta óptima carreira, sobretudo em Portugal, com estes 20 anos com um público que nunca nos deixou mas também com pessoas que nos vão conhecendo por aqueles tiros certeiros que damos – mas nós gostamos de dar tiros ao lado, para ver o que acontece. E acho que este disco vem um bocado por aí”.

Fale-se, então, de “tiros certeiros” – como aquele que, por acaso, colocou Nuno Gonçalves e Brian Eno no mesmo projecto, no Rio de Janeiro. Foi em “Janeiro de 2011 que eu conheci o Brian Eno: tínhamos acabado de gravar o Explode, nessa altura – e, depois, estivemos com ele em Londres, nas misturas”, recorda. No ano seguinte, novo tiro certeiro: “em 2012, tivemos a feliz coincidência de ele a estar passar férias no norte de Espanha e foi-nos ver a Vigo. [Foi] um concerto histórico dos Gift: um auditório de 1900 pessoas, esgotadíssimo, filas à porta, final de verão, Setembro, domingo à noite – tudo para funcionar bem – e o Brian Eno na plateia”, alinha Nuno. “Lembro-me que foram uns nervos tremendos, estávamos a aparvalhar um bocado – era, para nós, um marco histórico da banda. Já! Só o facto de o Brian Eno querer ir ver os Gift e pedir bilhetes, para mim, já era uma vitória. O que é certo é que, no final, ele gostou: gostou muito do concerto, apaixonou-se pelo magnetismo da Sónia, pela voz da Sónia e, a partir daí, começámos a falar de música – ou melhor, da nossa música. Porque falávamos muito de música mas não falávamos da nossa música: quer ele da dele quer nós da nossa. Falávamos de histórias à volta da música, falávamos da música no geral, mas da nossa nunca falávamos e, a partir daí, começámos a falar de música”.

Os Gift estavam a falar da sua música com a pessoa que acompanhou David Bowie na sua trilogia de Berlim, o homem que se sentou aos comandos da produção de The Joshua Tree ou Achtung Baby, dois dos álbuns mais emblemáticos da história da música e da carreira dos U2, o senhor que fez parte dos Roxy Music e que os Coldplay chamaram para a produção de Viva La Vida and All His Friends. As conversas levaram Nuno e Sónia à casa de Eno, em Londres, em 2014: saíram de lá com a certeza de que o novo álbum dos Gift seria produzido por ele. Faria mais: trabalharia o disco com a banda a ponto de colaborar nas letras e, pela primeira vez em largos anos, voltar a cantar, emprestando a sua voz a “Love Without Violins”. Como é que se reage quando um sonho se encaminha para a concretização? Que é como quem diz: quando Nuno e Sónia saíram da casa de Eno, naquela tarde, o que é que fizeram?

S: O que é que fizemos a seguir?
N: Primeiro, tivemos que cruzar a esquina, para ele não nos ver…

S: A comemorar, aos saltos. O que é que fomos fazer a seguir?
N: Fomos para a loja de brinquedos.

S: Pois foi, fomos comprar prendas para os nossos filhos.

 

Quando se fala de Brian Eno é impossível não haver uma total reverência – porém, como Nuno e Sónia se apressam a esclarecer, não houve, na criação de Altar, qualquer tipo de egos ou pudores. “Foi tudo muito natural. Havia muita preocupação, do lado dele, de nós estarmos confortáveis com alguma ruptura: não acredito que o Brian Eno tenha feito muita pesquisa sobre quem eram os Gift antes e isso foi muito bom, na minha óptica – era dali para a frente. Isso foi muito interessante. Nós respeitávamos muito o nome [dele] e ele respeitava-nos a nós como banda. Sabia que não éramos uma banda de sete miúdos que acabaram o liceu agora e fizeram uma banda – há toda uma trajectória, todo um percurso e toda uma carreira que comprova que não somos uma banda que começou nisto há pouco tempo. Isso acabou por elevar logo a fasquia: todas as canções eram feitas milimetricamente, tudo era pensado, falávamos muito, gravámos [em Meder, numa casa transformada] num estúdio onde não havia vidro [separador] entre a sala de controlo e o sítio onde gravávamos – estávamos todos virados uns para os outros, a comentar, a falar, a escrever notas no quadro. Depois, no final, a parte de composição de letras foi interessantíssima: escrevíamos histórias no quadro e desenvolvíamos as letras consoante as histórias que projectávamos que, ao fim ao cabo, eram momentos das nossas vidas, dos três [Nuno, Sónia e Brian]. Essa feliz coincidência acabou por fazer este disco único: é um disco de fé, é um disco de celebração, mas também é um disco que tinha que ser feito depois de todos estes anos de carreira porque é preciso ter alguma abertura de horizontes – não se pode estar fechado no seu mundo e o Brian Eno abriu-nos esses olhos, pôs-nos novos braços, novos dedos, novas pernas e nós estamos muito contentes: porque fazem parte do nosso corpo, já”, considera. Duas décadas de carreira, no entanto, também trazem certezas: como Sónia explica, serviram “para termos personalidade suficiente para não fazermos tudo o que o Brian achava que devíamos fazer. A última palavra, apesar de tudo, era sempre nossa e, quando estávamos descontentes com alguma coisa, obviamente que dizíamos. Claro que, por ser o Brian Eno, dávamos sempre o benefício da dúvida mas havia coisas que queríamos manter e que ele respeitou imenso, que, depois de lhe ter sido explicado, ele percebeu – havia coisas que, se nós queríamos manter, era a nossa essência, vamos manter”.

As 10 canções de Altar, porém, trazem alguns momentos que, no passado dos Gift, seriam altamente improváveis. Um exemplo? A guitarra do Mali que acaba por emprestar a sua origem para o título de “Malifest”. “A música chamava-se “Manifest”, foi das primeiras que fizemos para este disco”, recorda Nuno. “Na segunda sessão, o Brian vem do Mali, onde tinha estado com o Damon Albarn e com os alt-J, foi lá fazer uma pesquisa sobre a música do Mali, e vinha todo excitado porque tinha gravado uma série de coisas. Estava a mostrar-nos os vídeos, passávamos serões a ver os vídeos dele…

S: No Mali (risos).

N: Guitarras sem parar, sem parar, sempre a mesma música, Fela Kuti e por aí adiante – do qual eu gostava. Há algo de carnaval no Mali, de combate, de não parar, não parar, não parar… E dissemos: podíamos pôr isto no “Manifest”. “Pois, podíamos” e a música ficou “Malifest” – de um momento para o outro. Mas não estamos a pensar que estamos a piscar o olho ao afrobeat: já não temos idade para ir atrás de modas. Temos a nossa maneira de fazer música, temos a nossa maneira de compor, temos a nossa maneira de fazer as coisas. Temos a sorte de ter a versatilidade em estado puro que é a Sónia, que consegue incendiar uma pista de dança e pôr a chorar as pedras da calçada. Temos esta amplitude toda de voz da Sónia que nos permite, depois, poder arriscar mais nas canções.

S: Se me perguntasses [se] isso [era possível] há três anos, eu diria “nem pensar”! Nunca na vida!. Guitarras do Mali e outras coisas: sons vindos sei lá de onde, vozes gravadas num ensaio, sem serem gravadas profissionalmente, num estúdio como deve ser… Ele gostou tanto da forma como interpretei as canções que não me deixou voltar a gravar decentemente, com condições – ficou, ficou, está mau som não interessa, o que interessa é a sensação e o momento que vivemos.

 

Há outras canções, porém, cujo caminho merece ser contado em discurso directo: como a de “You Will Be Queen”.

N: Tem uma história muito curiosa: foi a primeira maqueta do Explode. Achávamos que a música estava bem e não estava – na noite antes de irmos para a segunda sessão com o Brian, eu, na minha casa de Madrid, refiz o “You Will Be Queen”, já com algum esboço de letra, não havia grande coisa. Mostrei-lhes e o Brian disse “a música é lindíssima e não há aqui muita coisa para fazer, temos é que fazer uma boa letra – portanto, vamos para o rio”. Fomos para o rio Minho [as sessões de trabalho decorreram na Galiza] e estivemos lá uma manhã inteira a desenhar a letra: ele estava encantado porque o refrão só tinha três acordes, que era uma coisa única nos Gift, nunca tínhamos feito isso. Ele estava no carro, sempre com o omnicord…

S: Sempre a dar ao dedo, sempre a dar ao dedo. (risos)

N: Sempre a dar ao dedo com os acordes e fizemos a letra. Fomos almoçar e ele diz que tem que ir a uma loja chinesa comprar umas coisas – mal nós sabíamos que ia comprar umas tintas, para se pintar todo de dourado (às vezes, ele fazia estas coisas e apareceu todo de dourado, a dizer “o golden man chegou” mas primeiro teve que passar por uma série de pessoas, a meio caminho, que pensavam que ele era louco – foi maravilhoso) – mas, antes, disse que precisava de falar comigo uma coisa, “com esta canção temos que ter muito cuidado porque a música está tão boa que não a podemos estragar e o objectivo desta música é que, daqui a 40 anos, ela seja cantada num karaoke no Japão e isso é muito importante. Portanto, não podemos falhar – vai haver alguém no Japão que vai pegar na música e que vai cantá-la”. Eu tenho a mania de dar logo os títulos às canções, mal as faço, mesmo que não tenham nada a ver com a letra e já [lhe] tinha dado o nome “You Will Be Queen”, desde os tempos do Explode. Ele também me disse “há poucas canções com as quais sinto este apelo e a primeira vez que senti este apelo da canção foi com o Bowie, no “Heroes””. E eu disse-lhe “é curioso, porque a segunda frase do “Heroes” é “and you, you will be queen”” “Não me digas isso – agora é que temos mesmo que pôr alguém no karaoke no Japão a cantar”. Foi uma feliz coincidência – mais uma história que acabou por se abraçar à nossa. É uma canção, para mim, das melhores do disco – é uma canção de uma leveza… mas, ao mesmo tempo, muito assertiva. A maneira como a Sónia canta no início é estrondosa, o twist que dá no final também… E tem muito Flood.

S: Mas o mais provável é não estar, daqui a 40 anos, no karaoke no Japão.

N: Eu tenho esperança. (risos)

 

Já muito se falou, aqui, de Brian Eno mas, para que Altar fique completo há outro personagem principal: Flood, o produtor e engenheiro que colabora, habitualmente com PJ Harvey e que, entre outros, já trabalhou com Nick Cave ou Depeche Mode, referências para os Gift. Não é, por isso, de estranhar que Sónia admita que “mesmo antes de falarmos com o Brian Eno sobre o assunto, para nós, tinha que ser o Flood [a fazer as misturas do álbum]. Para já, era um sonho que tínhamos, trabalhar com o Flood, porque éramos super admiradores. De repente, já estávamos a conversar [com Brian Eno] sobre as misturas e ele diz “eu acho que o Flood…” E nós logo “yes…”” “Começámos logo a bater um no outro, por debaixo da mesa”, interrompe Nuno. ““Acho que o Flood era óptimo para vocês mas eu já não falo com o Flood há muito tempo e já não trabalho com ele há muitos anos e tenho aqui uns novos…” e nós ficámos naquela “novos, nós não queremos novos, quais novos, queremos é o Flood””, continua Sónia. ““Mas deixem-me falar com o falar com o Flood” – e assim foi. Falou com o Flood, tivemos uma reunião muito engraçada em Londres e conseguimos presenciar uma coisa super histórica, que foi eles abraçarem-se e dizerem “há quanto tempo”. Iam trabalhar juntos, finalmente: o Flood aceitou, adorou, gostou imenso e aquilo também foi um desafio para ele – voltar a trabalhar com o Brian Eno e com uma banda que era totalmente desconhecida para ele. O Flood é uma pessoa fantástica, é um excelente homem, um excelente ser humano, com um sentido de humor super negro, muito engraçado, muito british, com quem nós também aprendemos imenso, também desfrutámos imenso. Eu e o Nuno passámos tardes intermináveis na sala de misturas [do estúdio do britânico, Assault & Battery, em Londres], só a vê-lo de costas – e nós horas, ali, a ver aquilo tudo, maravilhados. Foi uma pessoa que trouxe uma qualidade extraterrestre ao nosso disco: ouvimos o disco no carro e percebemos que aquilo tem uma qualidade que foi precisamente o que o Flood trouxe à nossa música”.

 

Altar, 2017.

No seu sexto álbum, os Gift trabalharam com dois deuses mas não é por isso que Altar tem esse título. “Não [é por isso] mas olha que é uma boa deixa para quando me perguntarem: “chama-se assim porque trabalhámos com dois deuses da música”. É engraçado, realmente”, brinca Sónia. “O disco nem estava para se chamar Altar, confesso, mas o Nuno sugeriu Altar e, a mim, pareceu-me logo super bem porque um altar não tem que ser uma coisa necessariamente cristã, católica – pode ser pagã, satânica… Um altar é um sítio onde se celebram coisas, portanto, fazia sentido que o Altar celebrasse a música, sobretudo a música dos Gift, e o bom que foi fazer este disco. Portanto, Altar vem nesse seguimento: no seguimento de que vamos adorar a música, com um ar cerimonial”.

Já se disse tudo o que havia para dizer sobre Brian Eno? Não, nem pouco mais ou menos: resta saber, por exemplo, se ele é tão bom a fazer marmelada quanto é enquanto músico.

S: Não, mas eu comia, tinha vergonha de não comer.

N: Eu nunca comi.

S: Todos os dias comia um bocadinho, porque o senhor fazia a marmelada com tanto carinho e com tanto amor e eu gosto tanto do Brian, mas tanto!, que não tive coragem de não comer a marmelada todos os dias. Todos os dias, lá faltava um bocadinho lá no “jar” – e ele olhava e pensava “comeram a marmelada”. Mas não era boa: era azeda, bastante azeda, parecia que tinha sido feita com as cascas da laranja e não com as laranjas. Se calhar, foi! O senhor faz tudo: o senhor faz perfumes, o senhor é alquimista. Ele é um mar de coisas, as peripécias que ele nos contou, as coisas por que ele passou – não estás a imaginar o que é aquele homem. Extraordinariamente, é a única pessoa do mundo – além do meu marido e do meu filho – de quem eu tenho saudades. É inacreditável: é mesmo bom de estar, de falar, de rir.

N: No processo de gravação do disco, tivemos momentos muito felizes e muito… No dia em que o Lou Reed morreu, ele estava connosco; no dia em que o Bowie morreu estávamos a poucos dias de ir ter com ele… No dia [da morte] do Lou Reed, ainda nos faltavam dois dias para acabar a sessão, eu disse-lhe que se ele quisesse ir, fazia todo o sentido e ele disse que “não, ele ligou-me a despedir-se uns dias antes de eu vir”… Houve um frisson naquela sala e disse-me “inclusive, ia perguntar se vocês se importavam de eu ficar mais quatro dias a trabalhar convosco”. Havia ali um lado, dele também, de se desligar das coisas: connosco, sentia-se bem e descontraído. [Chegava e dizia sempre] “Good morning everyone” ou quando se levantou às seis da manhã e fez uma música para mim, no meu dia de anos.

S: Ou quando eu estava a fumar um cigarro e ele vem a subir a ladeira ao contrário, de costas. “Dá-me muito mais jeito subir a ladeira ao contrário – esforço muito menos as pernas, venho muito mais rapidamente e canso-me muito menos”. Eu tenho filmado – ele a subir a ladeira! De costas. Que personagem maravilhoso. Que personagem maravilhoso. Que boa pessoa.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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