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GNR: “A história vai continuar”.

GNR: “A história vai continuar”.
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Em 1981, anunciavam “Portugal na CEE”. Pela viagem dos GNR, passaram 35 anos, cinco Presidentes da República e muitas alterações no imaginário idílico de uma união europeia. Podiam ter respondido por Trompa de Falópio mas optaram por Grupo Novo Rock. Homens temporariamente sós? Nunca!

É impossível contar uma vida em meia dúzia de palavras. É tarefa hercúlea compilar, num só livro, um percurso que, de certa forma, acompanhou a evolução de um país. Porém, uma história como a dos GNR é tudo menos comum. Desde que se estrearam, em 1981, muito mudou – em Portugal, na banda, na música. Há algo, no entanto, que se mantém intocável: a sede de fazer algo novo, a vontade de continuar a evoluir, o humor de quem brinca com conceitos como se fossem malabarismos. Em 2016, as celebrações de 35 anos de carreira fizeram-se em palco mas também em livro, com a edição de Onde Nem A Beladona Cresce. Dê-se, então, a palavra a Rui Reininho e Tóli César Machado e aos sorrisos tímidos de Jorge Romão.

O nascimento.
1980: Com a morte de Ian Curtis, o pós-punk dos Joy Division dá origem à new wave dos New Order. Em Portugal, o punk dos Faíscas segue o mesmo percurso com os Corpo Diplomático. No Porto, Alexandre Soares, Vítor Rua e Tóli César Machado unem esforços num novo projecto. Podiam ter-se chamado Trompa de Falópio.
Tóli César Machado: Esse era um dos nomes que surgiu, ainda antes da entrada do Rui [Reininho] e do Jorge [Romão]. Estava em cima da mesa: tínhamos uns três nomes, recordo-me desse – como é que me ia esquecer de um nome desses? Foi escolhido logo outro: havia aquela associação com os Police – GNR era uma coisa muito new wave e fazia todo o sentido.

O primeiro single.
Com Isabel Quina na voz e o inglês nas letras, o Grupo Novo Rock estreia-se em concerto na Igreja do Carvalhido, no Porto. Rapidamente, tudo mudaria: Isabel sai de cena para casar, Alexandre Soares ocupa-se do microfone e uma das canções apresentadas, “She’s Walking”, torna-se “Portugal na CEE”. O primeiro single dos GNR surge em Março de 1981, misto de sonho com premonição.
TCM: Acho que [o sonho] se esvaiu um bocadinho – aquilo era uma brincadeira, uma ironia. Mas perderam-se, ali, uma série de coisas: afinal, [a Comunidade Económica Europeia, na qual Portugal entrou em 1986] não era o que nós pensávamos.
Rui Reininho: Eu tenho pena.
TCM: Aquela livre circulação de bens e de pessoas, no fundo, nunca existiu.
RR: Chegamos à conclusão de que há pessoas de primeira e de segunda. A origem de todos os males está na comparação: agora, somos comparados diariamente, somos supervisionados por belgas e holandeses…
TCM: Isto já para não falar do Brexit: antes do Brexit já estava tudo mal.

O núcleo duro.
Após escrever sobre os GNR, num semanário regional, Rui Reininho junta-se ao grupo, ainda antes da edição de “Sê Um GNR”, o segundo single e a derradeira previsão para o álbum de estreia, Independança, revelado em 1982. Pouco depois, também Jorge Romão se junta à trupe: tocava baixo há seis meses e passara pelos Bananas. Diz-se que, para entrar na banda, é obrigado a comprar um amplificador a Rui Reininho.
RR: Acho que sim.
TCM: Isto era um bocado um grupo de sindicato: para entrar, um gajo tinha que pagar uma quota.
RR: [Para entrar] Eu paguei com a natureza, paguei com o corpo – acho que é naturalíssimo. Lembro-me que, no primeiro grupo em que entrei, o cachet era pequeno: fizemos uma passagem de ano no Diana Bar, na Póvoa, e eu acabei por não receber nada porque tive que pagar duas harmónicas, que tinham comprado. É normal: nós sempre compramos os nossos instrumentos – se não for uns aos outros, alguma coisa há-de acontecer… Acho que até fiz um bom preço, não foi, Jorge? E foi a prestações!
TCM: Aquilo não tinha nada lá dentro – era só a caixa! (risos)

O Porto.
Depois de Defeitos Especiais e Os Homens Não Se Querem Bonitos, em 1986, a capa de Psicopátria faz uma espécie de homenagem à Cidade Invicta que os viu nascer e que sempre esteve no seu olhar. As referências, porém, não são reconhecidas de forma unânime.
RR: Nem sempre. Houve gente que, pelo contrário, achava que éramos figuras e gente ingrata e que éramos figuras non gratas. Lembro-me que a primeira menção que tive de uma cidade foi Paris.

A censura e a polémica.
Em 1988, os GNR editam Vídeo Maria – e, no embalo, descobrem que um país predominantemente católico não vê com bons olhos os sarcasmos religiosos da canção que dá nome ao maxi-single. Experimentam, então, o poder da censura, numa sociedade em total democracia há mais de uma década.
RR: A coisa foi feita na maior liberdade – só que há pessoas que têm uns certos atavismos. Ainda hoje temos rádios que embirram connosco. Com o Retropolitana [álbum de 2010], tivemos pessoas que nos disseram que não estavam interessados no nosso disco: e nós pensamos “puxa, vocês têm poder para essas coisas?!” Esses poderzinhos… Normalmente, são pessoas que começam por ser porteiros e vão subindo nessas empresa: não sirvas a quem serviu nem mandes em quem mandou.
TCM: Um dia, fomos a um programa na RTP, no Monte da Virgem, e houve um tipo que estava lá, de fato macaco, que disse “eu, quando for produtor, vou trazer-vos cá”. É verdade, isto.

A beatlemania deles.
A década de 1990, arranca com estrondo: a 30 de Abril e 1 de Maio, apresentam um espectáculo inovador, no Coliseu dos Recreios, que acaba por ser editado em disco, com In Vivo. Será, no entanto, o concerto na Alameda Dom Afonso Henriques, em Lisboa, a 12 de Outubro de 1990, aquele que ficaria verdadeiramente na memória: com entrada gratuita, esperavam-se 10 mil pessoas mas os números apresentados pela imprensa oscilam entre as 35 e as 80 mil.
TCM: Foi assustador, foi assustador, mesmo.
RR: As grades quebravam com os corpos meio despedaçados dos jovens que se atiravam às feras. Para retirarem as pessoas da frente, saíam pelo palco: iam tirando por ali os desmaiados. Foi a nossa beatlemania.

O Porto na casa do Sporting.
Rock In Rio Douro, de 1992, tornar-se-ia o seu álbum de maior sucesso: com as colaborações de Javier Andreu e Isabel Silvestre, atinge as quatro platinas e passa 38 semanas no top nacional de vendas. Duas semanas depois de Michael Jackson, em Outubro de 1992, os GNR tocam no casa do Sporting. “Fomos a primeira e única [banda portuguesa a dar um concerto em nome próprio] no Estádio de Alvalade”, recorda Tóli. Segundo Reininho, foi uma experiência semelhante ao acto de beijar uma mulher bonita: fugaz.
RR: O homem não é parvo de todo (risos), um bocado atiradiço. Está dito, está dito. Nós vínhamos a fazer concertos maiores, as coisas não caíram do céu.
TCM: Tínhamos feito espaços maiores. O Estádio da Maia…
RR: Guimarães também, Braga… Estávamos a sentir que já não cabíamos naqueles espaços onde íamos normalmente, como o Rock Rendez Vous, as salas mais pequenas. Inclusive os Coliseus.
TCM: E depois surgiu a Alameda.
RR: Pensámos: se está aqui tanta gente, vamos para um sítio onde caibam todos. Em segurança.

Depois de independança, a independência.
Só ao fim de 11 álbuns de estúdio é que se arriscam na edição em nome próprio: Caixa Negra, de 2015, surge com o carimbo da sua Indiefada, um disco descrito como uma espécie de best of mas composto por canções originais.
TCM: Já devíamos ter feito isto há muito mais tempo. Só nunca tivemos coragem.
RR: Coragem e não só: a pessoa chega ao fim do ano e tem que decidir reinvestir em nós. É preciso acreditar um bocadinho. Se não, somos malucos. Não é fácil, [com] a maneira como a industria discográfica está… Para nós, é uma inexistência.
TCM: Claro que o nosso catálogo está sempre sujeito [a outras utilizações]… Não somos donos do nosso catálogo.
Nos desastres aéreos, a caixa negra é o que se procura para descobrir o que correu mal. No caso dos GNR, Caixa Negra torna-se um dos seus discos mais aplaudidos, entrando nas listagens dos melhores do ano para a imprensa especializada.
TCM: Por acaso, correu bem – contra tudo.
RR: É o que está a correr bem até “mayday, mayday”…

Onde Nem A Beladona Cresce.
Depois de 35 anos de música, os GNR tornam-se objecto de livro: com uma frase retirada da letra de “Ao Soldado Desconfiado”, de Psicopátria, em 2016, a Porto Editora faz chegar às livrarias a primeira biografia oficial dos GNR. Onde Nem A Beladona Cresce é assinado por Hugo Torres.
RR: O livro é recente, é a nossa biografia, escrita pelo brilhante Hugo Torres, que também faz jornalismo, musical e não só, e nos deu o prazer de dar atenção aos últimos 35 anos da nossa vida. Faz parte dos degraus que estamos a cumprir: chamo-lhes 35 degraus porque acho mais interessante. A seguir, vem o filme e espero que gostem de ambos porque a música já conhecem, com certeza.
TCM: Isto parte de um encontro que temos – chama-se “jantar de reis” –, em que juntamos fãs que vêm do país inteiro, onde fazemos um sorteio… Nasceu da necessidade dos fãs de quererem saber algo mais sobre nós – como é que surgiu, como é que fizemos, quem saiu, quem entrou, quem ficou. Acho que é um trabalho que está muito bem feito: é uma compilação de coisas que estavam guardadas… Há aqui muitas coisas que era a minha mulher que tinha guardadas que eu nem conhecia e que nem me recordava que tinha nos baús. Foi uma compilação que ele fez e foi uma trabalheira. Acho que o mais importante está aqui resumido.
RR: E com belas fotos.
TCM: Não é feita por nós, não é uma autobiografia, mas vimos o que ia sair. É feita por alguém independente e que não tinha nascido ainda quando nós começámos: o Hugo Torres tem 34 anos.

Os homens não se querem bonitos e o futuro não se quer nostálgico.
Nos concertos de comemoração dos 35 anos de carreira dos GNR – em Novembro de 2016, em Guimarães e Lisboa, em Fevereiro de 2017 no Porto –, o trio fez uma verdadeira homenagem à sua história. O passado ficou assinalado com a passagem pelo palco de Isabel Silvestre e Javier Andreu; o presente levou ao dueto com Rita Redshoes; o futuro permanece novo, com a gravação do concerto lisboeta para a edição do primeiro DVD ao vivo na carreira do grupo. Como tal, não se pense que há, por aqui, um pingo de nostalgia.
TCM: Acho que não: celebramos mas continuamos. O próprio livro tem um disco cá dentro [o single inédito “O Arranca-Coração”] para mostrar que a história vai continuar. Vamos acabar por fazer um disco: tínhamos mais originais, escolhemos este – que, depois, irá sair no próximo trabalho, juntamente com as outras canções.
RR: Nostalgia é quando as coisas já acabaram ou se a pessoa está a regressar de qualquer coisa… Às vezes, acabamos por ser um pouco vítimas disso porque as pessoas pensam “ah, eles não vão acabar, podemos vê-los daqui a uns dois anos” ou “já vi há quatro ou cinco anos”. Mas estes espectáculos são diferentes.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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