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Aline Frazão: “Luanda está sempre comigo”.

Aline Frazão: “Luanda está sempre comigo”.
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Saiu de Angola para se tornar jornalista mas acabou a fazer reportagens com as suas canções.

 

A paixão pela música surgiu ao mesmo tempo e no mesmo local que o seu gosto pela poesia: crescia em Luanda mas eram as palavras e os ritmos de Jobim e restante criação bossa nova que realmente a inspiravam. Estudou Ciências da Comunicação e Cinema mas descobriu que, para sobreviver, era a música que falava mais alto. Pode ter chamado Insular a um dos seus discos mas a verdade é que a beleza das canções de Aline Frazão tem que ser partilhada.

 

Há casos assim: criadores que carregam em si – e nas suas obras – as ruas das suas cidades; que, por muito que viajem e por muito mundo que conheçam, dêem por si, invariavelmente, a “regressar a casa”. Há uma razão para se comparar Aline Frazão a Woody Allen: a devoção que o realizador americano tem pela “sua” Nova Iorque é semelhante à forma como Aline transmite a “sua” Luanda ao longo dos seus discos. “Há lugares, há cidades, que inspiram muito as pessoas, os criadores. Há muitos casos em que os contextos urbanos ou rurais inspiram as pessoas que escrevem, que fazem cinema, que fazem música”. A menina pode não viver em Angola há mais de uma década mas Angola nunca saiu da menina. “Acho que é muito difícil tirares Luanda de ti – mesmo que não sejas angolana mas tenhas lá vivido um tempo. É uma cidade de amor e ódio, uma cidade de emoções muito intensas e muitos extremadas”. Luanda surgiu nas canções de Aline de forma espontânea. “Foi a primeira grande imagem: todo o imaginário da cidade, da cultura luandense, os sentimentos que me provocava estar longe… Foi a partir daí que comecei a escrever os meus discos: houve sempre um pano de fundo. Por mais que viajasse, Luanda estava sempre lá, comigo”. Lisboa ou Barcelona foram algumas das moradas que Aline acumulou ao longo da última década mas o seu endereço, no futuro, está, cada vez mais evidente. “Pretendo regressar [a Luanda]: volto muitas vezes e já faltou mais para voltar a morar lá”.

Luanda até pode estar nas entrelinhas das canções de Aline – de forma mais ou menos explícita (oiça-se, por exemplo, “Susana”, de Insular, entoada em kimbundu) – mas a verdade é que a viagem até à capital angolana não é imediata. Segundo Aline, “essa é a mais valia das canções e da poesia em geral: a linguagem, por ser poética, acaba por ter múltiplos significados. Isso sempre me chamou a atenção, desde que comecei a escrever e a mostrar as primeiras canções: o que elas significavam para mim, para as outras pessoas, poderia adquirir um sentido completamente diferente mas igualmente válido. É isso que me interessa: por isso, quando escrevo canções não escrevo de forma muito directa. Prefiro deixar esse campo para a interpretação aberto – até nem gosto muito de explicar as canções para não quebrar a magia de tornar a canção universal. Ela pode adaptar-se a qualquer pessoa e isso é super bonito”. O ponto de partida para a inspiração de Insular, o seu terceiro álbum, pode ter sido Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, e pode já ter musicado as palavras de Capicua – porém, quando chega a altura de se “apropriar” da poesia de outros, a sua escolha recai, invariavelmente, para autores angolanos, de José Eduardo Agualusa a Ondjaki. Sim, a menina nunca saiu, realmente, de Luanda. Por isso, apanhe-se o avião da memória e recorde-se como “tudo isto” começou.

 

Aline Frazão é angolana, luandense de nascimento e coração, criada numa casa na Rua da Missão, mas tem dupla nacionalidade, graças às origens de um avô cabo-verdiano e uma avó brasileira. Por coincidência (será?), foi precisamente através do português do Brasil que se deixou encantar pela música – e não só. “O meu primeiro contacto com a poesia foi mesmo através da música brasileira, a MPB, a bossa nova…  Essa forma de escrever e de cantar – isso sempre me fascinou muito. Tinha um impacto muito grande para mim”, refere. Podiam citar-se as canções de Tom Jobim, por exemplo – mas, quando se muda para Lisboa, para estudar Ciências da Comunicação na Universidade Nova, o livro que deixa repousar na sua mesinha de cabeceira é uma antologia de poesia angolana. “Era do meu pai e eu “roubei” quando saí de Luanda. Entretanto, já foi lançada um edição mais actualizada, com poetas mais recentes – é um dos maiores tesouros que existe. Muita da linguagem e da minha escrita vem desses poemas. É uma poesia utópica, uma poesia pré-independência, ou dos primeiros anos do pós-independência, com muita frescura, muita juventude, muita esperança, muita vontade de fazer um país acontecer. Tudo isso inspirou-me muito durante a minha adolescência e início da juventude”. Estavam lançadas as sementes para o crescimento da sua música, completas com a melhor prenda de Natal de sempre: um violão, oferta dos pais. “Foi mesmo uma prenda marcante. [Já] Não o uso porque ele não tem pick up [para ligar ao amplificador]. Tem um bom som: é melhor do que o que o meu pai tinha antes e que eu andava a usar lá em casa”.

Não se tornou jornalista mas viajou para Barcelona, onde acabou a estudar guionismo: pode não parecer mas, na verdade, todos estes passos estão inscritos, de forma indelével, nas suas composições. “De certa forma, algumas canções são relatos, são reportagens, Talvez até mais no meu segundo disco, Movimento, que foi escrito muito em Luanda, quando comecei a ir com mais frequência a Luanda, em 2012, mais ou menos”. Editado em 2013, Movimento sucedeu a Clave Bantu, o seu registo de estreia, datado de 2011. A publicação de Movimento, no entanto, coincide com o nascimento de um outro interesse no olhar de Aline. “Foi na altura em que estava a estudar algumas cadeiras de Cinema, interessei-me pelo guionismo – havia um interesse no olhar, no que os nossos olhos captam, quase como um movimento de câmara, contar em palavras aquilo que vemos”. Movimento tem vários momentos assim mas há um que se destaca: ““Cacimbo” é uma canção muito cinematográfica: mostra o dia a dia da cidade e também os seus problemas, as suas lutas, as suas batalhas diárias – para quem não sabe, Luanda é uma cidade muito difícil”. De certa forma, o jornalismo está, também, presente nessas observações – mas não só.

 

O jornal Rede Angola fez, então, um convite que obrigou Aline Frazão a encontrar, dentro de si, uma outra voz: é aí que assina, desde o início de 2014 e semanalmente, uma crónica. “Quando comecei as escrever as crónicas, foi difícil, para mim, encontrar a minha voz: qualquer pessoa que escreve frequentemente tem essa dificuldade” – mas estas dilacerações não se ficaram por aqui. “Depois, foi como abandonar, como calar essa voz, e voltar a aprofundar, a descobrir ou redescobrir, a voz musical, de escrita de canções – que é completamente diferente. Quando escreves uma crónica, não é preciso haver rima, não é preciso haver tanto ritmo – pode haver, de preferência é bom, mas, com as canções, é intrínseco que haja dentro um ritmo, um balanço, as próprias palavras têm essa musica dentro. Mudar esse chip foi muito difícil”. Por tudo isto, o arranque da concepção de Insular, o seu terceiro disco, que editou em 2015, foi feito de dificuldades. “Quando estava a escrever o Insular, já estava a escrever para o Rede Angola e foi muito difícil separar as águas: nas crónicas, tive oportunidade de aprofundar uma linguagem mais jornalística, mais crítica, opinativa, muito directa, às vezes dura. Nas canções, a minha abordagem é bem diferente”. E eis que surge o conceito de Insular, inspirado no conto de Saramago mas que, de certa forma, acaba por reflectir, também, a grande experiência que é a música. Insular pode apelar ao imaginário da ilha – que não o é, na verdade – de Luanda mas, ao mesmo tempo, representa a própria Aline em fase de criação. Também ela precisa de estar “insular” quando se entrega ao processo criativo. “Preciso de silêncio, de estar sozinha. Se estiver alguém em casa, para mim, já fica mais difícil. É uma coisa meio íntima, é preciso estar num certo vazio para se encontrar canções e coisas novas. Dependendo do que quiseres escrever… Para o Insular, dei-me conta do quanto necessitava desse espaço, desse acto, na confusão do dia a dia, para voltar a escrever canções”. Talvez seja por isso que, no disco, se ouvem frases como “a multidão é só silêncio”. Só que, mais à frente, Aline também afirma que “a beleza insular não chega sem partilhar”: e é assim que entram em cena o produtor Giles Perring e Pedro Geraldes.

 

Insular foi gravado numa ilha, na Escócia – em Jura – mas, deliberadamente, desta vez, Aline não se queria isolar. Por isso, abriu as portas da sua música a interferências externas: a produção ficou ao cargo do britânico, em actividade desde os anos 1980; por outro lado, a corrente bossa nova e jazzística é, aqui, acompanhada por uma abordagem mais rock, cortesia do guitarrista dos Linda Martini. “A minha vontade era toda de entregar – depois, no processo, acabei por interferir mais do que pensei que ia acontecer, porque tenho muitas ideias e conheço bem as canções”. Para não estragar o plano inicial, Aline confessa que teve que se conter, assumindo, no entanto, que “a estadia na ilha foi muito de laboratório criativo, acabámos todos por contribuir muito”. A definitiva impressão digital de Giles Perring, porém, surge, sobretudo, “na pós-produção, muito mais do que na gravação – fez um trabalho de pós-produção excelente, para criar esses mundos à volta das canções. Isso, sim, foi muito tranquilo”. O conceito subjacente a Insular pode ser o de isolamento mas, para este corpo de trabalho, o que Aline queria era exactamente o inverso: “tinha muita vontade de me abrir – daí surgiu o convite ao Pedro Geraldes, que vem de um mundo completamente diferente. Acreditava muito no potencial que teria o talento dele neste contexto. Acho que foi uma experiência super interessante para todos nós”.

Para Aline Frazão, o futuro parece brilhante – mas não estagnado. Por isso, o passo seguinte, parafraseando um dos seus álbuns, traz outro “Movimento”. “É um segredo – estou na fase de pesquisa, ainda. Está muito longe de ser um guião: mas há aí um projecto, que não posso revelar – é classified, como dizem os filmes de acção americanos.  Tenho vontade de escrever para cinema e há um projecto, escondidinho. Que, por enquanto, não posso revelar muito”. Brevemente, numa sala de cinema perto de ti?

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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