Home Entrevista Fernando Ribeiro: “A teimosia é melhor que a persistência”

Fernando Ribeiro: “A teimosia é melhor que a persistência”

Fernando Ribeiro: “A teimosia é melhor que a persistência”
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Mais de metade da vida de Fernando Ribeiro foi passada à frente dos Moonspell – mas a paixão que o levou à música está longe da extinção.

 

Pense-se nas grandes exportações de Portugal: o vinho, a cortiça, o azeite… A música? É possível que, à partida, não se julgue que o metal possa ser um dos grandes cartões de visita nacionais mas os Moonspell vieram mudar, em definitivo, esta realidade, Tudo começou por mero acaso mas, quase 25 anos e 11 álbuns depois, os Moonspell tornaram-se um dos maiores emblemas da cultura portuguesa além-fronteiras. Como é que conseguiram? Com vontade e paixão mas, acima de tudo, com muita teimosia.

Foram a primeira banda rock portuguesa a tocar em Pequim. Também atravessaram a Sibéria e actuaram na Crimeia. São presença habitual nos melhores festivais de vertentes mais intensas nos quatro cantos do mundo. As suas digressões levam-nos a percorrer a Europa mas também a calcorrear os Estados Unidos ou a América do Sul: olhe-se para o mapa-mundo e encontre-se, um pouco por toda a parte, a bandeira da passagem dos Moonspell. E pensar que tudo começou no início dos anos 90, por mero acaso. “Foi uma enorme coincidência – ser músico não estava nada nos meus planos nem tinha nenhum talento especial. Havia pessoas que tinham jeito para a bateria ou para a guitarra ou para a música no geral…”, assume Fernando Ribeiro. “Juntei-me com uns amigos, começámos por tentar participar na cena heavy metal através do jornalismo underground, com fanzines e por aí fora, e tivemos tanto contacto com essas bandas de todo o mundo que achámos que, nessa altura, em 89/90, apesar de haver heavy metal em Portugal, não tínhamos nada para apresentar dentro daquele estilo. Se calhar fomos um pouco arrogantes: mesmo sem saber tocar, decidimos fazer uma banda – e foi assim que a música apareceu”, recorda. Sem dar por isso, “já estava conotado com a música, já me conheciam como músico, como vocalista e já vivia da música, já não fazia mais nada – claro que tinham passado uns 10 anos desde esses primeiros encontros mas foi assim… Uma coincidência dos diabos”.

 

À partida, pode pensar-se que Portugal não é exactamente um pais conhecido pela sua produção de metal mas Fernando Ribeiro discorda, não considerando – de todo – que os Moonspell sejam um caso único de sucesso. “Acho que Portugal, [em termos de metal] até nem se pode queixar. Há algumas bandas além dos Moonspell: os More Than A Thousand, os Hills Have Eyes, os Ironsword, os Sinistro, que, dentro do grande espectro que é o metal, começam a ter um reconhecimento sólido e, de alguma forma, com continuidade, lá fora – que é sempre o problema”. Os Moonspell, porém, foram os pioneiros desta realidade. “Na altura, a nossa carreira talvez tenha sido um pouco estranha para as pessoas”, disseca Fernando. “Para já, porque havia muito desconhecimento, não havia muita maneira de comunicar, também não queríamos ser chatos e estar sempre a dizer o que estávamos a fazer – queríamos era fazer as coisas. Quando a informação chegou a Portugal foi de uma maneira muito sólida: já havia muita coisa feita, já havia algum palmarés conseguido e, o facto de não termos passado por aquela estrutura normal das bandas portuguesas, fez confusão a algumas pessoas. Ainda hoje há alguma luta pela aceitação e reconhecimento – talvez seja por ser metal… Mas, por outro lado, também não nos podemos queixar: o público, em Portugal, foi acompanhando a evolução dos Moonspell e isso é o mais importante para nós”, conclui.

 

A verdade é que a vida dos Moonspell tornou-se a vida dos elementos dos Moonspell. “Acho que isto foi uma história de vida, sem dúvida”, concorda Fernando. “Os Moonspell começaram a tocar lá fora em 1995, quando eu tinha 21 anos – toda a história dos Moonspell é uma… não é metáfora mas uma realidade ou um espelho da nossa vida. Da puberdade para a idade adulta estávamos nos Moonspell, não tivemos aquelas experiências dos jovens da altura, não fomos à tropa nem fizemos o inter-rail mas fazíamos digressões, que era um pouco diferente, menos passeio e mais trabalho mas muito excitante”. Não é, portanto, surpreendente que, quando procuram recordar momentos passados, os Moonspell apontem digressões ao invés de meses ou anos. “É muito mais usual lembrarmo-nos que foi na altura do álbum x do que do ano. Tudo o que vivi de importante – além da infância e de alguma adolescência –, vivi já nos Moonspell. Tudo o que é importante na minha vida aconteceu, de alguma forma, relacionado com os Moonspell. Mesmo as relações pessoais – e não só no meu caso: as pessoas começarem a contactar com a banda, com a música, e tornarem-se amigos, mulheres, surgem os filhos”.

Praticamente em regime contínuo, desde 1995, os Moonspell têm trocado o conforto do lar pelos quilómetros de estrada, substituindo as noites no sofá pelos serões em palco. Misto de família com parceria de trabalho, o que é certo é que estes cinco músicos encenam uma espécie de casamento que vai além de um mero matrimónio. “São vários casamentos e vários divórcios!”, sorri Fernando. “Este tipo de relação é comparável às famílias, aos casamentos… Quando somos miúdos, achamos que isto não tem nada a ver com a família, é tudo muito porreiro, é muito mais rock’n’roll, temos muito mais liberdade – mas quando os dias passam, quando há muito trabalho, quando há um desgaste… Aí sim, vemos que temos sentimentos muito parecidos com os de família”. Qual é, então, a receita para o sucesso desta relação chamada Moonspell? Para Fernando Ribeiro, esta “é uma banda de presença, precisamos de estar juntos, precisamos de ter outro tipo de relações que não só musicais, não só de andar na estrada. Acho que isso, de alguma forma, é o segredo que nos mantém juntos: o facto de não termos ido para o Brasil à procura do bumbum perfeito ou para o Japão para termos uma namorada exótica. Acho que sempre achámos que Moonspell era uma oportunidade tão rara que tinha que vir em primeiro lugar. Como uma família”.

 

Há mais ingredientes para esta fórmula: segundo Fernando Ribeiro, os grandes trunfos dos Moonspell têm sido a teimosia e a paciência. “A paciência é uma virtude exemplar – e não só nas grandes decisões e nos grandes momentos (em que temos que ser rápidos a decidir e a fazer). Quando vamos em digressão, estamos 24 horas [juntos], das quais 22 temos que arranjar alguma coisa para fazer. Claro que também temos que dormir mas o resto são 90 minutos, uma hora, duas horas, depende, no palco – temos que ter alguma paciência para conseguir aguentar esse aborrecimento, que de vez em quando se instala, ou essa saudade, que de vez em quando se instala, quando estamos muito longe e não temos grande coisa para fazer”, analisa. No extremo oposto, surge “a teimosia, [que] é melhor que a persistência porque é um pouco mais agressiva, um pouco mais activa. Todas as bandas têm que ser persistentes mas a teimosia tem muito a ver com a independência: muitas vezes, não queremos o resultado fácil, que está mesmo ali à mão de semear, e tentamos olhar um pouco para o futuro. Para manter essa posição, sim, temos que ser um pouco teimosos. Não sou das pessoas mais teimosas que conheço – conheço pessoas muito mais teimosas – mas quando quero e quando tenho mesmo uma ideia, sou um teimoso subtil. Consigo o que quero, no fim, congregando mais como um político ou um diplomata do que quebrando pontos. Fundamentalmente, uma banda tem que estar unida e tem que se dar bem – senão, não vale a pena fazer isto”.

A gestão do lucro e da perda é uma luta diária no olhar dos Moonspell – uma digressão pode não representar benefício financeiro mas pode encaminhar a banda para outros mercados, alargar o seu público, oferecer maior exposição. “Há sempre um binómio matemático que temos que considerar, entre a parte financeira e a parte da oportunidade: muitas dessas digressões ou festivais são feitos pela oportunidade de mostrar a música, que não se faz só ao princípio – é preciso renovar, de forma contínua, todos os anos. Um festival que nos queira como cabeças de cartaz é um festival mais pequeno e vai ter outro tipo de proposta financeira; [depois, há] um festival que não precisa de nós mas nós precisamos dele… é esse o jogo”, explica Fernando. Não se pense, no entanto, que essas são decisões que se tomam, apenas, no arranque de um novo projecto – pelo contrário, essa é uma boa parte da essência de estar na música no século XXI. “Nós lutamos contra o desconhecimento geral – até de pessoas que escrevem em jornais e têm opinião publicada – do que é ser um músico em 2016”, esclarece Fernando. “Há muita desinformação: diz-se que só interessa tocar ao vivo, que é daí que vem a subsistência das bandas… Mas esquecem-se que, com a quebra das vendas de discos, também há muito mais bandas a tocar ao vivo, portanto, há mais competição. Há uma série de enganos: é uma vida feita de investimento, nunca ficámos ricos com os Moonspell – e penso que nunca iremos ficar – porque também temos um estilo de banda que exige muito da nossa dedicação, não só pessoal mas também para criar novos espectáculos, novos instrumentos, novos sistemas e tudo isso é desconhecido do grande público, da imprensa… Sabemos lidar com a perda porque sabemos que vamos ganhar ou investir noutro sítio. É um processo um pouco complexo mas que fomos aprendendo a fazer”.

 

E por falar em dedicação… Para quem passa tanto tempo fora, a ilusão de procurar a tranquilidade da casa quando chega o momento de registar um novo disco podia ser tentadora. No entanto, desde o início, quando chega o momento de gravar um novo álbum, a opção dos Moonspell é outra. “No princípio, optámos por gravar fora [no Woodhouse Studio, em Hagen, na Alemanha, com o produtor Waldemar Sorytcha] porque achámos que não havia um produtor em Portugal que entendesse o que queríamos. Havia pessoas que estavam a trabalhar no metal, conhecíamos os discos mas não era aquilo que queríamos e, definitivamente, não queríamos trabalhar com um produtor de renome português – e se calhar vice-versa – porque não queríamos cair nos vícios de produção que víamos acontecer, com uma química estranha, onde o produtor era um verdadeiro ditador, onde as bandas não podiam fazer nada. O nosso estilo era um pouco diferente”, assume Fernando. Sair de Portugal para entrar num estúdio numa cidade estrangeira foi, recorda o vocalista, uma verdadeiro processo de aprendizagem. “Gostámos daquela pequena aventura: estarmos os seis, num estúdio, num apartamento, éramos novos, em 1995”. De lá para cá, no entanto, nem sempre os álbuns dos Moonspell brotaram de cenários desconhecidos. “Alpha Noir/Omega White”, por exemplo, foi gravado nos próprios estúdios da banda – porém, para Extinct, o quinteto voltou a isolar-se, desta feita na Escandinávia. “Quisemos sair daqui – não saímos de uma zona de conforto porque Portugal é uma zona de desconforto. Como estamos aqui, telefonam-nos, batem-nos à porta… Quando vamos para a Suécia [para o Fascination Street Studio, em Örebro, com o produtor Jens Bogren], foi mais como criar uma bolha à volta da banda, foi essa a ideia que tive. Eu não gravei 35 dias, nem o Mike, mas estivemos lá os 35 dias como banda e penso que essa química resultou muito bem”. Para Fernando, o facto dos cinco músicos se manterem juntos durante todo o processo acaba por reflectir-se no produto final. “Houve discos em que preferimos que cada um gravasse e os outros fossem mais tarde: fizemos isso em dois discos e penso que não foram as nossas melhores produções. Neste disco, a intenção era estarmos ali – não era estar com cabeça enfiada na cabine a dar bitaites –, a apoiar. É um companheirismo quase de Inatel que funciona muito nos Moonspell. Para nós, é agradável termos um dia de trabalho em estúdio e depois estarmos a conviver – os assuntos vão passar pelo álbum, o que vamos fazer amanhã, o que podemos melhorar, se está bom ou não, fazemos uma certa avaliação do trabalho… Claro que também temos os nossos momentos de descontracção mas acho que uma banda estar junta é sempre um teste – seja uma banda nova, porque [os músicos] não se conhecem, seja uma banda veterana, que já se conhecem de gingeira e já sabem tudo o que podem esperar. Ou quase tudo o que podem esperar uns dos outros. Quando se ouve o Extinct, ouve-se muita coisa mas, acima de tudo, ouve-se uma banda muito junta, muito colaborativa e uma banda que fez a música em conjunto”. Todo o processo de concepção do álbum pode ser acompanhado no documentário Road To Extinction, assinado por Victor Castro.

Tomando como premissa de trabalho um princípio de Immanuel Kant, um dos filósofos preferidos de Fernando Ribeiro – que afirmava que, mesmo que sem um foco evidente, o trabalho tem que ter uma direcção clara –, para cada novo registo, de forma quase dogmática, os Moonspell trazem um conceito subjacente. Pode não ser “evidente ou daquela maneira mais clássica, de contar capítulos da mesma história ou arranjar um personagem ou um tema e trabalhar sobre isso”, esclarece Fernando. “Eu chamo-lhe uma energia da qual o álbum nasce, mais do que a palavra ou o título implica. No Wolfheart, o conceito era o estilo de vida dos lobos, o toque solitário mas também o toque da alcateia… tivemos álbuns mais conceptuais outros menos. Penso que quando surgiu a palavra Extinct, já com música, já com tudo, toda a gente percebeu muito bem o conceito, do que se tratava – era um conceito inteligível para os membros dos Moonspell, para o produtor, para as pessoas que trabalharam [o disco]. Penso que esse conceito, essa clareza e também a evolução musical provocou uma comoção no nosso público, e em fãs novos, como não víamos há algum tempo”.

As reacções a Extinct, no entanto, não surgiram, apenas, nos fãs dos Moonspell. O disco é distinguido pela SPA como Melhor Álbum de 2015 e, pela primeira vez, o colectivo recebe uma nomeação para os Globos de Ouro, na categoria de Melhor Grupo (que acaba por perder para os D.A.M.A.). “Foi uma grande surpresa. Nós não temos muitas relações com a SPA, estamos a trabalhar nisso mas, lá está, o reconhecimento em Portugal é um pouco mais lento. A SPA e o júri da SPA reconheceram isso e deram-nos um prémio – que não sabíamos se era importante ou não mas explicaram-nos que é um prémio bastante prestigiado. Os outros nomeados eram a Márcia e o Camané, artistas a solo. Também a nomeação para os Globos de Ouro – que não vencemos. Foi muito surpreendente. Ninguém sabia. São coisas que não estão no nosso radar mas esse tipo de reconhecimento é importante: não tenho aquela opinião dupla das bandas indie, quando são reconhecidas pelo mainstream, que vão mas estão ali naquela pose… Nós anunciámos no nosso Facebook e fizemos alguma coisa disso. O importante não são os resultados mas aquilo que colhemos: mais respeito para a banda, outras portas que se podem abrir”, diz Fernando. Este prémio da SPA, no entanto, representa uma mudança na forma como, actualmente, os Moonspell são encarados pela universo artístico português. “Lembro-me que os primeiros tempos, com a SPA, foram de alguma confusão, porque estávamos a editar na Alemanha [com a Century Media] e, agora, ganhámos um prémio – como escrevemos, mostra uma mudança de atitude. Lutámos por isso e é importante, para o movimento em geral, sermos reconhecidos noutro patamar, que não só o patamar específico dos escassos media que existem em Portugal dedicados ao metal”.

 

Os Moonspell nunca deixaram de ter os olhos postos no futuro mas, por agora, orgulham-se de recordar a passagem dos 20 anos de Irreligious, que, em Outubro de 2016, recebe uma nova edição – em vinil.  “Todos os nossos discos são importantes, pelo menos para nós, mas este foi um pouco diferente, pelo menos cá em Portugal: foi o disco que nos permitiu fazer parte da história dos anos 90 em Portugal – com bandas como os Gift, os Blind Zero, os Ornatos, os Tara Perdida – que, para mim, foi das alturas mais interessantes da música portuguesa. Nós éramos conhecidos pela música “Opium”, que abre este disco. Passados estes 20 anos, este disco foi muito importante para nos tornarmos uma banda que consegue viver da música. Foi a partir das digressões deste disco que nos tornámos uma banda a sério”.

É comum dizer-se que, para ter uma vida genuinamente completa, há que escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore. Fernando é pai e autor publicado – por isso, resta a questão: já plantaste uma árvore? “Já! Duas, aliás. Uma no Rock in Rio e outra no Exit Fest, na Sérvia. Os Moonspell foram um das bandas escolhidas para plantar um árvore – portanto, lá num jardim qualquer, em Novi Sad, está uma árvore que tem o nosso nome”. Mais de duas décadas à frente de uma banda, a emocionar multidões, a pautar os sonhos e os escapes de milhares, porém, o orgulho de Fernando é evidente: “plantei duas árvores, escrevi alguns livros de poesia, traduzi alguns livros mas, claro, a obra mais importante – já tive um filho. Que acho que vai ser um filho único porque não há tempo nem coração para mais”. Aguarde-se, então, pelas cenas das próximas obras.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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