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Capitão Fausto: “Os discos são um retrato de nós”

Capitão Fausto: “Os discos são um retrato de nós”
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Os Capitão Fausto narram o seu presente, expresso da mesma forma como comunicam

A vida dos Os Capitão Fausto é indissociável da música d’os Capitão Fausto. A cada regresso aos álbuns, eis um novo olhar para o espaço onde estão e aquilo que fazem. Capitão Fausto Têm os Dias Contados marca o anúncio da chegada à idade adulta – com todas as dores de crescimento que lhe estão subjacentes.

Muito mudou nos Capitão Fausto desde que, em 2011, se deram a conhecer com Gazela. Onde antes o rock estava na ponta da língua e marcado em refrães orelhudos, com Pesar O Sol o quinteto “recolheu-se” no Minho e expôs a sua pegada mais psicadélica. Para Capitão Fausto Têm os Dias Contados, porém, o colectivo trabalhou na sua sala de ensaios – a Hellvalade, como Francisco Ferreira apresentou –, em plena Lisboa. No entanto, as mudanças no terceiro capítulo não se ficam pela geografia: os Capitão Fausto, finalmente, estão a crescer. Que é como quem diz, acabaram as tarefas universitárias e procuram, em definitivo, viver da música. “É paradoxal: queremos ser adultos mas com muito poucas responsabilidades”, explica Francisco. Ainda assim, consideram-na “o seu emprego”. “A música é a coisa que nos dá mais prazer e nunca pensámos fazer outra coisa mas, se não a encararmos como um trabalho, não conseguimos fazer nada”. Isto porque, no caso dos Capitão Fausto, a inspiração criativa não vem num ápice. “Para chegarmos às canções que queremos, temos que estar todos os dias aqui, a insistir, a trabalhar, a pegar nos instrumentos. Não existe aquela coisa em que, de repente, bate um raio na cabeça, vem a música inteira, chegamos ao instrumento e já está. Existe imensa disciplina. Ao longo do tempo, fomos aprendendo isso. É um trabalho mas é o trabalho que dá mais gozo”.

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Como muitos empregos em Portugal, viver da música é um desafio. Francisco confessa que “estamos quase profissionais – no sentido em que já acabámos as faculdades e estamos a dedicar o tempo inteiro a isto –, é a nossa profissão e todo o dinheiro que ganhamos vem disto mas ainda não é o suficiente para nos emanciparmos”.

Uma boa parte desta tomada de consciência da obrigação de crescer passa por uma procura dos cinco numa certa organização – nem que seja a tomar conta do seu Hellvalade. “Tentamos ser muito mais disciplinados, perceber novas maneiras de nos organizarmos, de fazer horários, de vir para aqui… No outro dia, estávamos a planear horários de limpeza do estúdio (para estar tudo arranjado), de pagamento das contas da electricidade e da internet”. Confirma-se, portanto, que muito mudou – “e espero que mude, porque, se não mudasse, éramos uns desleixados e não conseguíamos fazer nada” – mas a atitude que têm perante a arte de fazer música é a mesma. “Somos os mesmos putos de sempre”, concorda o teclista. O que significa que não está para breve, a promoção a Major Fausto. “Nem queremos ser”, conclui.

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A trajectória que encaminhou o quinteto até Capitão Fausto Têm os Dias Contados passou pela aclamação de Pesar O Sol, considerado, por exemplo, pela revista BLITZ, álbum nacional do ano 2014. “Essas coisas importam mas, no fundo, acabamos por fazer música para nós. Queremos ficar felizes com ela ao mesmo tempo que ficamos muito felizes se toda a gente gostar dela”. Quanto mais alto se sobe, no entanto, maior a vertigem de uma nova aventura. Quando chegou a hora de trabalhar num novo longa-duração, “o que nos deu mais medo foi nós próprios”, recorda Francisco. “Ficámos muito contentes com o trabalho que fizemos com o Pesar O Sol e, quando começámos a tentar compor para este terceiro disco, o que nos deu mais medo foi a nossa cabeça. Como é que vamos fazer mais músicas? Alguém tem ideias? Toda a gente a olhar para o lado… A fase de arranque, conseguirmos outra vez olear a máquina, pôr outra vez a cabeça a funcionar – isso foi o que nos deu mais medo. Estávamos um bocado encravados”.

O desbloqueio criativo surge em várias fases: primeiro, quando extravasam as suas paixões musicais para outros projectos, como Bispo, El Salvador ou Modernos. Apesar de não terem surgido de forma deliberada, “sentimos necessidade de fazer essas bandas e essas músicas porque sim, porque gostamos de tocar uns com os outros”, explica Francisco. “Somos sempre nós os cinco, separados em mini-grupos. Não foram pensados como um escape mas acabaram por ser. Se não tivéssemos feito algumas das coisas dessas outras bandas, se calhar, [esses abordagens ] iam ter uma força maior neste disco de Fausto. Assim, saiu mais fresco”. O derradeiro empurrão para Capitão Fausto Têm os Dias Contados, porém, vem do génio de Syd Barrett. Mesmo que tenha sido por portas e travessas.

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Em Abril de 2015, Pedro Ramos – radialista da Radar e organizador das festas Black Balloon, que decorrem no Lux Frágil, em Lisboa – lançou um desafio aos Capitão Fausto: “Tocarmos o Piper At The Gates of Dawn –  o primeiro álbum dos Pink Floyd –, que é um dos discos do grupo do qual mais gostamos”, recorda Francisco. “Começámos a ver e [percebemos que] as músicas de que gostávamos mais, que sentíamos que tinham um lado mais atraente para pegarmos e para nos metermos naquele mundo eram as que tinham sido compostas pelo Syd Barrett”. Fazem, então, uma contraproposta, que passava por recriar, ao invés, a obra de Barrett, tanto nos Pink Floyd quanto nos seus discos a solo. “E adorámos, adorámos fazer isso. Foi da primeiras vezes que usámos esta sala de ensaios como headquarters, como uma base, uma estação: enfiámo-nos aqui durante um mês, toda a gente ouvia todos os dias as músicas, toda a gente tinha a playlist no iPod. Tínhamos que saber tudo, até ao mais ínfimo pormenor de som. Gravámos os ensaios e preparámo-nos à séria – a certa altura, só sabíamos falar aquela linguagem mas isso deu-nos imenso gozo”. Por coincidência – se é que tal coisa existe –, o mergulho na obra de Syd Barrett acontece quando os Capitão Fausto estão à procura dos traços para desenhar o seu próprio álbum. A paragem nos seus originais não podia ter surgido em melhor altura: “Quando voltámos a tentar compor as nossas canções, viemos mais frescos, saímos mergulhados daquele mundo e viemos com outra atitude”. Não se pense, porém, que Syd Barrett paira nas canções de Capitão Fausto Têm os Dias Contados. Se fosse preciso citar um “patrocínio musical”, esse viria do líder dos Beach Boys, Brian Wilson. “Isso, sim”, concorda Francisco. “Mas isso já vem desde sempre. Desde miúdos que ouvimos muito Beach Boys e sentimos que agora era a altura para essa influência estar mais presente”.

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As canções dos Capitão Fausto narram o seu presente, expresso da mesma forma como comunicam, como se de pequenas conversas se tratassem. Ou talvez desabafos. Os exemplos espraiam-se, como não poderia deixar de ser, por Capitão Fausto Têm Os Dias Contados – oiça-se “Morro Na Praia”ou “Semana Em Semana”; compreenda-se a vontade latente de frases como “A mocidade, para nós, chegou ao fim”. “As canções falam de um ponto de vista pessoal – é o Tomás que as escreve mas nós somos os cinco os melhores amigos e damo-nos todos os dias, portanto, acabam por ser um retrato do que é a nossa vida neste preciso momento. Gostamos muito de dizer isso: os discos são um retrato de nós naquele preciso momento e este disco está a ser um retrato perfeito e muito literal do que nos está a passar pela vida. As letras falam exactamente disso: da nossa emancipação e destas dores de crescimento que estamos a passar”. Se o título diz que eles têm os dias contados, não se pense que anda por aí alguém determinado em fazê-lo. Como em tudo o resto, são os cinco Fausto os responsáveis pelas suas vidas. E foram eles próprios que contaram os seus dias. “Não dizemos qual é a data que marca o fim – não é já – mas já os contámos. Toda a gente tem os dias contados, não somos só nós”.

Ana Ventura Ana Teresa Ventura trabalhou na Blitz durante dez anos e hoje podemos vê-la tanto em festivais de verão cobertos pela SIC, como na sua rubrica, M de Música do programa Mais Mulher, na SIC Mulher.

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